{"id":5005,"date":"2021-11-19T21:58:30","date_gmt":"2021-11-20T03:58:30","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2021\/11\/land-and-time-torto-arado-marcelo-cordeiro-de-mello\/"},"modified":"2024-11-06T11:25:24","modified_gmt":"2024-11-06T17:25:24","slug":"land-and-time-torto-arado-marcelo-cordeiro-de-mello","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2021\/11\/land-and-time-torto-arado-marcelo-cordeiro-de-mello\/","title":{"rendered":"&#8220;A terra e o tempo de Torto Arado&#8221; de Marcelo Cordeiro de Mello"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nota do Editor: Texto dispon\u00edvel em portugu\u00eas e ingl\u00eas. <a href=\"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/2021\/11\/land-and-time-torto-arado-marcelo-cordeiro-de-mello\/\">Clique aqui para ler em ingl\u00eas.<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" alignleft size-full wp-image-5002\" style=\"margin: 10px; float: left;\" src=\"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/tortoarado.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"608\" title=\"\" srcset=\"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/tortoarado.jpg 400w, https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/tortoarado-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>O maior fen\u00f4meno liter\u00e1rio brasileiro recente \u00e9 <i>Torto Arado<\/i>, romance de Itamar Vieira Junior, sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico<sup>1<\/sup>. Ambientado em uma comunidade quilombola da Chapada Diamantina (Bahia), a narrativa acompanha duas irm\u00e3s, Bibiana e Belon\u00edsia, que se envolvem num acidente que retira de uma delas a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o. Seu pai, Zeca Chap\u00e9u Grande, \u00e9 um l\u00edder religioso e comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria apresenta a condi\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o do trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o, o racismo e a opress\u00e3o das mulheres numa sociedade patriarcal. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 espa\u00e7o para a frui\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e o otimismo, especialmente associados ao misticismo, que abre espa\u00e7o para a linguagem po\u00e9tica e afirma o culto afro-brasileiro do jar\u00ea como um elemento unificador que promove a solidariedade entre os personagens.<\/p>\n<p><i>Torto Arado<\/i> dialoga com a tradi\u00e7\u00e3o da literatura brasileira, especialmente a segunda e terceira fases do Modernismo, o regionalismo e o romance neorrealista. \u00c9 curioso notar que os pr\u00f3prios paratextos da obra derivam da intertextualidade: o t\u00edtulo vem de um verso de <i>Mar\u00edlia de Dirceu<\/i>, de Tom\u00e1s Ant\u00f4nio Gonzaga, e a ep\u00edgrafe \u00e9 de <i>Lavoura Arcaica<\/i> de Raduan Nassar: por\u00e9m, em ambos casos, os trechos s\u00e3o ressignificados, assumindo um sentido oposto ao do contexto original.<\/p>\n<p>O livro tamb\u00e9m dialoga com o chamado realismo m\u00e1gico latino-americano. Podemos pensar em <i>Pedro P\u00e1ramo<\/i>, obra em que a comunica\u00e7\u00e3o com os esp\u00edritos tamb\u00e9m est\u00e1 entranhada na estrutura narrativa, ou ainda em <i>Cem anos de solid\u00e3o<\/i>, romance em que as gera\u00e7\u00f5es familiares se sobrep\u00f5em de forma an\u00e1loga \u00e0 de <i>Torto Arado<\/i>.<\/p>\n<p>O autor explica que a sua proposta era falar de \u201cvidas negras\u201d, em especial das personagens femininas negras, as pessoas mais vulner\u00e1veis dentro da sociedade racista e patriarcal. J\u00e1 os personagens brancos de <i>Torto Arado<\/i> s\u00e3o diretamente descendentes do (n\u00e3o t\u00e3o distante) passado colonial. As elites brancas continuam a submeter as popula\u00e7\u00f5es afrodescendentes a um regime de servid\u00e3o an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o: os donos da fazenda \u00c1gua Negra simplesmente \u201cpassaram a chamar os escravos de trabalhadores\u201d (III-1)<sup>2<\/sup>. <i>Torto Arado<\/i> mostra a luta dessas popula\u00e7\u00f5es pela sobreviv\u00eancia e sua redescoberta e identifica\u00e7\u00e3o enquanto popula\u00e7\u00f5es quilombolas. O livro nasce da experi\u00eancia do autor como funcion\u00e1rio p\u00fablico do Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e de Reforma Agr\u00e1ria (INCRA) e como acad\u00eamico das \u00e1reas de Geografia e Antropologia, pesquisando sobre as popula\u00e7\u00f5es quilombolas da Chapada Diamantina.<\/p>\n<p>Como solu\u00e7\u00e3o aos problemas apresentados ao longo do romance, a luta pol\u00edtica aparecer\u00e1 na parte final, quando a narrativa adquire um acentuado tom did\u00e1tico, quase panflet\u00e1rio. Um dos problemas debatidos \u00e9 o da legitimidade do uso da viol\u00eancia na resist\u00eancia pol\u00edtica. \u00c9 claro que a viol\u00eancia por parte dos patr\u00f5es em <i>Torto Arado<\/i> \u00e9 not\u00f3ria, desde a \u00e9poca em que os escravizados tinham suas m\u00e3os decepadas como puni\u00e7\u00e3o, ou eram amarrados a um tronco e surrados. Enquanto o personagem do l\u00edder comunit\u00e1rio Zeca Chap\u00e9u Grande recusava o confronto direto com os patr\u00f5es, a nova gera\u00e7\u00e3o parece menos disposta \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que fica vis\u00edvel em passagens como a do arrombamento dos port\u00f5es do cemit\u00e9rio local, contrariando a interdi\u00e7\u00e3o de enterrar seus mortos dentro da propriedade. Por\u00e9m, por fim, a solu\u00e7\u00e3o para a resist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 encontrada na viol\u00eancia, mas sim nas estrat\u00e9gias de organiza\u00e7\u00e3o para a reivindica\u00e7\u00e3o de direitos. O pr\u00f3prio autor, como funcion\u00e1rio p\u00fablico, \u00e9 defensor deste arcabou\u00e7o legal de prote\u00e7\u00e3o aos descendentes de escravizados, estabelecido pela \u201cConstitui\u00e7\u00e3o cidad\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Um ponto fraco do romance ao tratar da luta pol\u00edtica \u00e9 recair em certo tom paternalista: o personagem de Severo, marido de Bibiana, \u201cviajava para encontrar o povo que lhe ensinava as coisas, sobre a precariedade do trabalho, sobre o sofrimento do povo do campo\u201d (II-14). \u00c9 poss\u00edvel reconhecer aqui um discurso datado (que outrora guiou a literatura engajada de esquerda) de pretens\u00e3o de \u201cconscientiza\u00e7\u00e3o do povo\u201d. Mas \u00e9 um equ\u00edvoco imaginar que os explorados precisem de uma explica\u00e7\u00e3o externa para tomarem consci\u00eancia da precariedade e do sofrimento a que s\u00e3o submetidos.<\/p>\n<p>De qualquer forma, ao longo do romance, aparece de maneira equilibrada a rela\u00e7\u00e3o entre a cultura letrada e o saber tradicional dos quilombolas (simbolizado no jar\u00ea), sem que um saber seja renegado em benef\u00edcio do outro. Esta s\u00edntese est\u00e1 representada na personagem da \u201cprofessora que ensinava sobre a hist\u00f3ria do povo negro, que ensinava matem\u00e1tica, ci\u00eancias e fazia as crian\u00e7as se orgulharem de serem quilombolas\u201d (III-10). Obviamente, todo romance \u00e9 representante da cultura letrada, especialmente <i>Torto Arado<\/i>, escrito a partir de uma pesquisa acad\u00eamica. \u00c9 importante que uma obra com personagens \u201csubalternos\u201d j\u00e1 seja considerado um cl\u00e1ssico, destinado a integrar o c\u00e2none liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>As irm\u00e3s Bibiana e Belon\u00edsia inventam uma linguagem gestual, o que remete \u00e0 inven\u00e7\u00e3o estil\u00edstica liter\u00e1ria. Assim como uma irm\u00e3 se torna porta-voz da outra, o autor fala pelos quilombolas seus personagens. Quando as irm\u00e3s se separam, a escrita passa a ser a \u00fanica forma de express\u00e3o daquela que perdeu a fala. Seu h\u00e1bito de escrever espelha a escrita do pr\u00f3prio romance, e se reflete no seu apre\u00e7o pelo verbo \u201carar\u201d, sin\u00f4nimo de cultivar. A prosa po\u00e9tica de <i>Torto Arado<\/i> \u00e9 um terreno cultivado pela lavra do autor, por caminhos tortuosos.<\/p>\n<p>O livro adota uma linguagem assumidamente brasileira, o que \u00e9 not\u00e1vel, por exemplo, na coloca\u00e7\u00e3o pronominal. Mas, a despeito de seus tra\u00e7os regionalistas, o livro agradou os leitores de Portugal, onde foi inicialmente publicado, ap\u00f3s receber o Pr\u00eamio liter\u00e1rio LeYa. O fato \u00e9 que <i>Torto Arado<\/i> n\u00e3o recorre tanto a voc\u00e1bulos regionais, nem tenta mimetizar a fala local, o que certamente o faz menos \u00e1rido para o leitor n\u00e3o-brasileiro, e contribui para sua \u201ctraduzibilidade\u201d: ali\u00e1s, seus direitos de publica\u00e7\u00e3o j\u00e1 foram vendidos para uma dezena de pa\u00edses, incluindo os Estados Unidos.<\/p>\n<p>O autor anunciou que <i>Torto Arado<\/i> \u00e9 o primeiro livro de uma trilogia que escrever\u00e1 sobre a rela\u00e7\u00e3o do povo com a terra. \u00c9 natural que o problema da terra seja especialmente caro a um ge\u00f3grafo dedicado \u00e0 reforma agr\u00e1ria, que trabalhou para garantir \u00e0s popula\u00e7\u00f5es quilombolas o direito \u00e0 terra. Sem d\u00favida, a principal met\u00e1fora em <i>Torto Arado<\/i> \u00e9 a terra. S\u00edmbolo de morte e de vida, \u00e9 o solo que os descendentes de expatriados africanos aprenderiam a amar e arar, recobrindo a semente \u201cpara que o movimento do mundo se encarregasse do resto\u201d (III-13), e tamb\u00e9m a interpretar: \u201c Tentava escutar os sons mais \u00edntimos, dos lugares mais rec\u00f4nditos do interior da terra, para livrar o plantio da praga\u201d (III-13). \u00c9 a terra que os une em parentesco, expresso no romance na rela\u00e7\u00e3o entre as duas irm\u00e3s, e tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es filiais estabelecidas dentro da pr\u00e1tica religiosa do jar\u00ea.<\/p>\n<p>Mas a terra tamb\u00e9m simboliza a morte. O pr\u00f3prio t\u00edtulo da obra vem de um verso sobre morte. Podemos observar que a morte marcou a trajet\u00f3ria de <i>Torto Arado. En<\/i>quanto escrevia a obra, o autor recebeu a not\u00edcia de que trabalhadores rurais com quem teve contato haviam sido assassinados numa chacina (ind\u00edcio da triste realidade de viol\u00eancia no campo que ainda persiste). Al\u00e9m disso, o momento de alegria pelo recebimento do pr\u00eamio LeYa foi sucedido de perto pela morte do pai do autor.<\/p>\n<p>Dentro da obra, como sabemos, \u00e9 a interdi\u00e7\u00e3o de enterrar os mortos na terra natal que desencadeia o conflito com os patr\u00f5es: \u201cSe n\u00e3o pud\u00e9ssemos deitar nossos mortos na Vira\u00e7\u00e3o era porque, em breve, tamb\u00e9m n\u00e3o poder\u00edamos estar sobre a mesma terra\u201d (II-19). O livro recorda as \u201cMulheres que retiravam seus filhos ainda no ventre para que n\u00e3o nascessem escravos\u201d (III-2): paradoxalmente, a dor da perda se mistura \u00e0 luta pela sobreviv\u00eancia, o que tamb\u00e9m enche o livro de vitalidade. Belon\u00edsia sente seu corpo f\u00e9rtil \u201ccomo a terra \u00famida\u201d (II-4). \u00c9 naquela terra que enterravam os cord\u00f5es umbilicais de seus rec\u00e9m-nascidos. O nome Bibiana (originado de Viviana) vem do latim \u201cvividus\u201d que significa \u201cvivo\u201d: n\u00e3o por acaso, a personagem exalta a vida sobre aquela terra:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">[\u2026] esta terra mora em mim, bateu com for\u00e7a em seu peito, brotou em mim e enraizou. Aqui, bateu novamente no peito, \u00e9 a morada da terra. Mora aqui em meu peito porque dela se fez minha vida, com meu povo todinho. No meu peito mora \u00c1gua Negra, n\u00e3o no documento da fazenda da senhora e de seu marido. Voc\u00eas podem at\u00e9 me arrancar dela como uma erva ruim, mas nunca ir\u00e3o arrancar a terra de mim (III-7).<\/p>\n<p>Associada \u00e0 terra, a ambiguidade entre morte e vida est\u00e1 resumida no barro com que constru\u00edam suas casas, isto \u00e9, no paradoxo de \u201ccriar ra\u00edzes\u201d naquele territ\u00f3rio sem ter o direito de construir utilizando materiais dur\u00e1veis como a alvenaria; com o abandono e o tempo, o barro das casas termina por se dissolver e retornar \u00e0 terra. A mesma ambiguidade permeia outros momentos do romance: \u00e9 na dor da perda que Belon\u00edsia recupera a fala: \u201cem anos, foram os primeiros gemidos que deixei escapar de minha boca mutilada\u201d (II-15) \u2013 este murm\u00fario \u00e9 tamb\u00e9m um renascimento, como o choro de um rec\u00e9m-nascido. Esta ambiguidade pode ser encontrada ainda na express\u00e3o \u201crios de sangue\u201d, que primeiro aparece representando o exterm\u00ednio e, depois, o fluxo sangu\u00edneo vital de um ser que renasce: \u201cera bom estar de novo envolvida nos rios de sangue\u201d (III-14). Morte e vida se alternam em <i>Torto Arado<\/i>, num ciclo em que av\u00f3, filhas e netas se reconhecem \u2013 \u201cela \u00e9 curiosa como n\u00f3s \u00e9ramos\u201d (III-8) \u2013 achando \u201cengra\u00e7ado poder ver a vida se repetir como uma hist\u00f3ria antiga\u201d (II-14).<\/p>\n<p>O termo genoc\u00eddio \u2013 geralmente utilizado para se referir ao passado \u2013 \u00e9 atualmente evocado tamb\u00e9m para definir o tempo presente. Os n\u00fameros mostram que a epidemia de Covid-19 mata mais negros e perif\u00e9ricos. Nos tristes tempos que vivemos, marcados pela morte \u2013 que em breve ter\u00e1 atingido meio milh\u00e3o de brasileiros \u2013 <i>Torto Arado<\/i> \u00e9 uma dose de esperan\u00e7a muito bem-vinda.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, parte do impacto editorial do livro se deve ao di\u00e1logo que estabelece com o momento de retrocesso que vivemos, quando ficam evidentes as cicatrizes do passado escravocrata. Assim como a casa nova constru\u00edda ao lado da antiga, abandonada at\u00e9 se dissolver \u2013 \u201cenquanto faz\u00edamos a nova, deix\u00e1vamos a antiga tombar ali\u201d (II-11) \u2013 tamb\u00e9m nossa sociedade est\u00e1 sendo constru\u00edda ao lado das ru\u00ednas de um passado ainda vis\u00edvel. Assim sendo, parece significativo que o autor tenha optado por n\u00e3o situar cronologicamente a narrativa de forma clara. A leitura do livro termina com uma nota que desconcerta o leitor: \u201cEsta \u00e9 uma obra de fic\u00e7\u00e3o. Embora inspirada na vida real\u201d. Ainda que o tempo de <i>Torto Arado<\/i> seja p\u00f3s-escravista, n\u00e3o h\u00e1 nada que permita afirmar que se trata de um tempo passado e superado.<\/p>\n<p>\u00c9 triste constatar que todos os problemas retratados no livro t\u00eam eco no Brasil atual. O trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o ainda \u00e9 uma triste realidade, tanto rural quanto urbana, e a recente reforma trabalhista n\u00e3o parece ter contribu\u00eddo para melhorar a dignidade dos trabalhadores. <i>Torto Arado<\/i> nos chama a aten\u00e7\u00e3o para a persist\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es de trabalho an\u00e1logas \u00e0s do per\u00edodo da escravid\u00e3o, como a de \u201cdiarista de servi\u00e7os dom\u00e9sticos, cuidando de crian\u00e7as\u201d (III-4), e remete \u00e0 (ainda atual) luta por moradia e por terra, pelo \u201cdireito de morar\u201d (III-13). Lembra ainda do racismo e do \u201cpreconceito no posto de sa\u00fade, no mercado ou nos cart\u00f3rios da cidade\u201d (III-10). A rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edtica de repress\u00e3o \u00e0s drogas e o exterm\u00ednio negro tamb\u00e9m \u00e9 apontada: \u201cmesma desculpa de drogas para entrar nas casas, matando o povo preto [\u2026]. N\u00f3s sab\u00edamos que n\u00e3o era troca de tiros. Que era exterm\u00ednio\u201d (III-5). H\u00e1 ainda em <i>Torto Arado<\/i> uma defesa da causa ecol\u00f3gica: um exemplo est\u00e1 no caso de um rio que antes tinha abund\u00e2ncia, \u201cMas a minera\u00e7\u00e3o trouxe muita areia para o leito\u201d (III-6).<\/p>\n<p>O livro come\u00e7ou a ser escrito h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, portanto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender sua g\u00eanese como uma rea\u00e7\u00e3o ao contexto pol\u00edtico recente. Por\u00e9m, no per\u00edodo em que o autor retoma e termina <i>Torto Arado,<\/i> j\u00e1 viv\u00edamos o per\u00edodo de crise institucional que culmina com a elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro para a presid\u00eancia em 2018. \u00c9 emblem\u00e1tico que o autor de <i>Torto Arado<\/i> tenha recebido o pr\u00eamio LeYa exatamente nos dias entre o primeiro e o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es. O presidente eleito \u00e9 conhecido por suas falas preconceituosas em rela\u00e7\u00e3o aos quilombolas e \u00e0s mulheres, e \u00e9 abertamente contr\u00e1rio \u00e0 paridade de sal\u00e1rios. Ele j\u00e1 declarou que \u201cas minorias t\u00eam que se curvar para as maiorias\u201d, e vocaliza certo movimento evang\u00e9lico que persegue os cultos afro-brasileiros. \u00c9 tamb\u00e9m cr\u00edtico da luta ecologista e defende a minera\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Apesar dos pesares, Itamar Vieira Junior \u00e9 otimista, e tem esperan\u00e7as de que o Brasil superar\u00e1 em breve esta fase. Este otimismo transborda em <i>Torto Arado<\/i>, ancorado na ideia de solidariedade (que no livro aparece associada ao jar\u00ea). O sucesso editorial de <i>Torto Arado<\/i> \u00e9 um \u00f3timo sinal para o Brasil atual: um raio de esperan\u00e7a de que no futuro sejam superados de vez o passado escravista e o presente nefasto.<\/p>\n<p><sup>1<\/sup>\u00a0Vieira Junior, Itamar. <em>Torto Arado<\/em>. S\u00e3o Paulo: Todavia, 2019.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup>\u00a0As cita\u00e7\u00f5es de <em>Torto Arado<\/em> se remetem a cada uma das tr\u00eas partes do romance (I, II e III) e, em seguida, ao n\u00famero do cap\u00edtulo. Os coment\u00e1rios do autor v\u00eam da entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 15 de fevereiro de 2021.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O maior fen\u00f4meno liter\u00e1rio brasileiro recente \u00e9 <i>Torto Arado<\/i>, romance de Itamar Vieira Junior, sucesso de cr\u00edtica e p\u00fablico. Ambientado em uma comunidade quilombola da Chapada Diamantina (Bahia), a narrativa acompanha duas irm\u00e3s, Bibiana e Belon\u00edsia, que se envolvem num acidente que retira de uma delas a capacidade de comunica\u00e7\u00e3o. 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