{"id":4807,"date":"2021-08-27T22:53:59","date_gmt":"2021-08-28T04:53:59","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2021\/08\/leticias-marriage-nara-vidal\/"},"modified":"2024-11-03T20:25:39","modified_gmt":"2024-11-04T02:25:39","slug":"leticias-marriage-nara-vidal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2021\/08\/leticias-marriage-nara-vidal\/","title":{"rendered":"&#8220;O Casamento de Let\u00edcia&#8221; de Nara Vidal"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p><strong>Nota del editor:\u00a0<\/strong>Este texto se presenta en ingl\u00e9s y portugu\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Somos quatro em casa. Durmo muito tarde porque\u00a0sou insone. \u00c0s vezes, s\u00f3 consigo descansar depois\u00a0das quatro da manh\u00e3. \u00c0s seis j\u00e1 estou de frente\u00a0para o espelho fazendo a barba. Do canto do olho,\u00a0noto Let\u00edcia em seu sono profundo, aos poucos\u00a0voltando para a consci\u00eancia. At\u00e9 eu terminar de fazer a barba, ela vai acordar, se espregui\u00e7ar, me desejar bom dia, reclamar da dor nas costas, espirrar\u00a0tr\u00eas, quatro vezes, reclamar da poeira desta parte da cidade. Vou ouvi-la, sorrir, me desculpar por\u00a0n\u00e3o conversar porque estou fazendo a barba. Vou soprar-lhe um beijo e ela vai me sorrir de volta.<\/p>\n<p>Conheci a Let\u00edcia na faculdade. Fizemos alguns\u00a0per\u00edodos juntos, mas n\u00e3o \u00e9ramos amigos. Uma noite, durante uma festa, levei um fora e acabei ficando\u00a0com ela. Na verdade, n\u00e3o levei um fora; fui rejeitado. Levar fora \u00e9 comum a qualquer homem, era o\u00a0que o pai sempre nos disse, aos tr\u00eas irm\u00e3os. Crescemos entendendo que as mulheres v\u00e3o nos humilhar, v\u00e3o nos escolher, que devemos ter sucesso para ter\u00a0a chance de sermos escolhidos pelas mais bonitas,\u00a0mais inteligentes, mais ricas. Levar fora faz parte da vida de um homem. A rejei\u00e7\u00e3o \u00e9 outra coisa.\u00a0 Rejeita-se algu\u00e9m pelo que \u00e9 ou deixa de ser, e levar\u00a0fora vai mais na linha do ter ou deixar de ter.<\/p>\n<p>No meu pr\u00f3prio sil\u00eancio, uma hist\u00f3ria se formava. Antes de a Let\u00edcia entrar na minha vida, eu estava apaixonado, entregue, rendido. A Let\u00edcia veio, ent\u00e3o, em boa hora. Me tirou de um rolo que crescia na cabe\u00e7a. Me fez entrar na linha, deixar aquele amor desesperado para outra ocasi\u00e3o.\u00a0 Uma paix\u00e3o daquelas n\u00e3o daria certo, era exagerada, um erro.<\/p>\n<p>Todos os predicados poss\u00edveis eram encontrados na Let\u00edcia. Eu nunca teria oportunidade melhor e depois de um ano juntos, pedi ela em casamento. Ela tinha trinta. Eu tinha vinte e nove.<\/p>\n<p>Quem mais ficou feliz com a chegada da Let\u00edcia foi a m\u00e3e. Depois, o pai. Meus irm\u00e3os tamb\u00e9m se interessaram pela possibilidade de a Let\u00edcia ter\u00a0um monte de amigas feito ela. Mas n\u00e3o tinha. Let\u00edcia era e sempre vai ser diferente, \u00fanica. Nosso\u00a0casamento \u00e9 para sempre.<\/p>\n<p>Quando nosso primeiro filho nasceu, eu e Let\u00edcia combinamos de ela ficar em casa e cuidar do beb\u00ea que logo teve um irm\u00e3o. Let\u00edcia deixou a carreira de advogada e foi ser m\u00e3e. Ela sempre foi dessas que acredita que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel estar em um lugar, se estiver em dois ao mesmo tempo. Para\u00a0mim, uma \u00f3tima solu\u00e7\u00e3o. Eu sempre ganhei muito\u00a0dinheiro. Dinheiro do trabalho, dinheiro da fam\u00edlia, dinheiro nunca faltou. Let\u00edcia nunca reclamou\u00a0de ser m\u00e3e e dona da casa. Sempre tivemos uma\u00a0vida que pouca gente tem: n\u00e3o brigamos, sa\u00edmos\u00a0para jantar nos melhores restaurantes da cidade,\u00a0vamos ao cinema, ao teatro, temos uma biblioteca\u00a0ampla e l\u00e1 ficamos boa parte do fim de semana\u00a0juntos, o ro\u00e7ar dos ombros, \u00e0s vezes os cotovelos, a m\u00fasica de fundo. S\u00e3o provas do nosso amor.<\/p>\n<p>De fato, nosso casamento \u00e9 praticamente perfeito. Nossos filhos s\u00e3o saud\u00e1veis, s\u00e3o lindos e inteligent\u00edssimos. Est\u00e3o agora com dezenove e vinte\u00a0anos. Saem muito nos finais de semana, t\u00eam um\u00a0grande e leal c\u00edrculo de amigos. Let\u00edcia e eu estamos bem, fazemos exames regulares com os\u00a0melhores m\u00e9dicos da Am\u00e9rica Latina. A vida n\u00e3o tem como melhorar. Nas repetidas noites de ins\u00f4nia, imagino, em hist\u00f3rias mirabolantes, alguma bomba caindo no nosso telhado, furando a casa,\u00a0nossos corpos explodindo e se transformando em p\u00f3 em quest\u00e3o de segundos. Ou talvez um sil\u00eancio\u00a0revelado, algum sigilo submerso, fossilizado, que se manifesta.<\/p>\n<p>N\u00e3o penso tanto na rejei\u00e7\u00e3o que sofri antes de come\u00e7ar a namorar a Let\u00edcia. Todos os dias, invisto alguns minutos no carro, no metr\u00f4, no escrit\u00f3rio tentando me esquecer daquilo.<\/p>\n<p>Gustavo, meu filho mais velho, \u00e0s vezes, puxa\u00a0conversa querendo saber de antigas namoradas, quer saber quem eu fui antes de ser pai, antes da Let\u00edcia. A minha resposta \u00e9 a mesma ao Lucas, o\u00a0mais novo que tamb\u00e9m tem uma grande curiosidade em me conhecer. Mas n\u00e3o h\u00e1 nada a saber. O\u00a0que quer que tenha acontecido antes de Let\u00edcia, n\u00e3o\u00a0era importante. Nunca fui t\u00e3o feliz na vida quanto com a m\u00e3e de voc\u00eas. Imaginem. Qualquer outra\u00a0vida poss\u00edvel teria sido infeliz se \u00e9 com esta aqui que me sinto pleno, um homem de sorte, concordam?<\/p>\n<p>Lucas, outro dia, trouxe a namorada. Uma mo\u00e7a muito bonita, bem nascida, bem criada, estuda Letras, quer ser tradutora e escritora. Pensei,\u00a0mas n\u00e3o cheguei a comentar, que era uma pena,\u00a0mas ningu\u00e9m \u00e9 perfeito. Ainda assim, muito agrad\u00e1vel, trazia posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas neutras, nunca\u00a0ofenderia esquerda ou direita. Gustavo n\u00e3o suportava a mo\u00e7a. Meu filho mais velho tem imensa paix\u00e3o por pol\u00edtica e, como resultado, \u00e9 um radical de esquerda. N\u00e3o brigamos ou temos discuss\u00f5es mais acaloradas, mas com o irm\u00e3o, \u00e0s vezes se desentende. Gustavo costuma dizer que a mo\u00e7a, Valentina, se n\u00e3o \u00e9 nem de esquerda e nem de direita, \u00e9\u00a0porque \u00e9 de direita. N\u00e3o gosta do sorriso sempre\u00a0sob controle, n\u00e3o gosta do bom comportamento.\u00a0 Gustavo \u00e9 uma for\u00e7a. Rapaz de muita intelig\u00eancia, mas sinto que existe nele alguma coisa velada, uma\u00a0esp\u00e9cie de tristeza, n\u00e3o sei bem o que \u00e9. \u00c0s vezes,\u00a0me lembra eu mesmo quando mo\u00e7o. Como se algo n\u00e3o se encaixasse na sua personalidade. \u00c9 uma bobagem, mas me d\u00e1 essa impress\u00e3o de deslocamento. Tamb\u00e9m como eu fui, Gustavo \u00e9 muito discreto\u00a0com suas rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o nos apresenta suas namoradas \u2013 e sabemos que teve v\u00e1rias.<\/p>\n<p>O melhor amigo \u00e9 um rapaz da comunidade, poeta. \u00c9 negro, algo que incomoda Let\u00edcia, que precisa se explicar com as amigas. Gustavo \u00e9 muito diferente. \u00c9 a nossa ovelha negra. Uma hora ele entra nos eixos.<\/p>\n<p>Quando Gustavo era crian\u00e7a, vivia brincando\u00a0com o filho da Ang\u00e9lica, a nossa ajudante aqui em\u00a0casa. Mesma idade. O menino, feito o amigo recente de Gustavo, tamb\u00e9m era negro. Na \u00e9poca em que brincavam, eu e Let\u00edcia ach\u00e1vamos bom expor\u00a0as crian\u00e7as a outra realidade, a se misturarem um pouquinho e sair um pouco da redoma de vidro que sempre nos cercou. Dar \u00e0s crian\u00e7as um pouco\u00a0de viv\u00eancia. O Gustavo acabou se afei\u00e7oando de mais ao Bruninho. Faziam tudo juntos. Nas festas de anivers\u00e1rio aqui no pr\u00e9dio era um transtorno:\u00a0 a primeira fatia de bolo ia sempre para o filho da empregada. Para o Lucas, nada. Depois veio a in conveni\u00eancia e o estresse de ter que levar o Gustavo nas festas de anivers\u00e1rio do Bruninho na favela, que hoje trocou de nome, mas continua sendo a mesma calamidade. Eu e Let\u00edcia sub\u00edamos o morro s\u00f3 para levar o Gustavo, que era uma felicidade s\u00f3.\u00a0 Ang\u00e9lica ficava meio sem lugar com a gente l\u00e1 e at\u00e9 dizia que pod\u00edamos ir embora que ela tomava conta dos meninos. Mas Let\u00edcia tinha muito medo de sequestro. Fic\u00e1vamos todos l\u00e1, entre as pessoas que\u00a0nos olhavam com muita desconfian\u00e7a como se f\u00f4ssemos algum tipo de problema. Chegamos a convencer Ang\u00e9lica a fazer as festinhas do filho aqui no condom\u00ednio, no sal\u00e3o gourmet, na brinquedoteca.\u00a0 De repente, at\u00e9 a piscina os moradores concordariam em liberar. Foi uma vez para nunca mais. S\u00f3 compareceram o Gustavo, o Lucas e o amiguinho\u00a0do Lucas. Ningu\u00e9m da comunidade veio. Ang\u00e9lica\u00a0acabou dando outra festa na semana seguinte j\u00e1 que o menino ficou triste com a aus\u00eancia de tanta gente. Eu e Let\u00edcia ficamos surpresos. Imaginamos que o pr\u00e9dio fosse lotar daquela gente l\u00e1 do endere\u00e7o da Ang\u00e9lica. Se n\u00e3o viessem por amizade ao menino, viriam pela curiosidade de ver um dos melhores\u00a0condom\u00ednios da cidade. Ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>J\u00e1 estavam os dois virando adolescentes e a Let\u00edcia come\u00e7ou a se incomodar. Pensou em\u00a0mandar a Ang\u00e9lica embora, mas n\u00e3o conseguiu ningu\u00e9m que se dispusesse a trabalhar as horas longas que a nossa fiel ajudante trabalhava. Ang\u00e9lica foi ficando, Bruninho foi crescendo e j\u00e1 era\u00a0praticamente da fam\u00edlia. Gustavo n\u00e3o largava o menino. Emprestava livro para ele ler, come\u00e7ou a ensinar ingl\u00eas para o amiguinho. Eu tive uma\u00a0conversa com Gustavo para ele parar de colocar o rapaz para sonhar. At\u00e9 roupa o Gustavo dava de\u00a0presente para o menino. Let\u00edcia separava sacolas\u00a0e sacolas de roupa velha para passar para Bruno, e Gustavo se ofendia, dizia que ele n\u00e3o era sem\u00a0teto, sem roupa, sem amor, sem intelig\u00eancia. Dizia at\u00e9 que era igual a n\u00f3s. Gustavo sempre teve esses rompantes, essa paix\u00e3o, esses excessos. Eu avisei que, n\u00e3o ia demorar, o rapaz ia come\u00e7ar a querer frequentar faculdade, ser m\u00e9dico, advogado. J\u00e1 o Lucas sempre teve a cabe\u00e7a no lugar. Nunca se envolveu com o Bruninho. Era muito educado, mas sempre manteve a dist\u00e2ncia necess\u00e1ria. O Gustavo \u00e9 que \u00e9 meio diferente.<\/p>\n<p>Foi no dia da inscri\u00e7\u00e3o para os exames universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Gustavo foi com Bruninho fazer a inscri\u00e7\u00e3o. O rapaz negro com aquela quest\u00e3o de cota, aquele absurdo todo. Enfim, parece que era direito dele.\u00a0 Naquele dia, s\u00f3 Gustavo, gra\u00e7as a Deus o Gustavo, voltou para casa. A pol\u00edcia deu uma batida\u00a0num grupo de jovens que estava fazendo uma balb\u00fardia na rua, falando alto, rindo, atrapalhando a ordem. Muitos eram gente feito Gustavo. Mas tinha um amontoado feito o Bruninho tamb\u00e9m. A\u00a0confus\u00e3o foi tanta que a pol\u00edcia, para manter a calma, acabou atirando naquela desordem toda. Uma pena aquele acidente, a bala dentro do Bruninho. Gustavo ainda est\u00e1 sob um terr\u00edvel trauma. Temos\u00a0sorte de ele poder se tratar com os melhores psicanalistas da cidade. A Ang\u00e9lica a gente precisou dispensar. Coitada, j\u00e1 n\u00e3o sabia o que era a\u00e7\u00facar e o\u00a0que era sal. Chorava muito quando via o Gustavo, tamb\u00e9m embrulhado em sombra, pelos corredores\u00a0da casa. N\u00f3s entendemos o sofrimento da coitada,\u00a0mas precisamos de ajuda. A Let\u00edcia n\u00e3o d\u00e1 conta\u00a0de tudo sozinha numa casa deste tamanho e a presen\u00e7a da Ang\u00e9lica estava atrapalhando o Gustavo a se recuperar do abalo.<\/p>\n<p>O acidente com o Bruninho j\u00e1 tem uns dois anos. Gustavo ainda n\u00e3o toca no assunto. Tem l\u00e1 no quarto dele uma foto dos dois escalando\u00a0uma montanha em Minas Gerais. Deve ter mais fotos em algum canto, mas n\u00e3o vou procurar, deixa o rapaz.<\/p>\n<p>Fora essa pedra no nosso caminho, a nossa fam\u00edlia \u00e9, tenho at\u00e9 certo receio em dizer isso, um exemplo. Temos apoio e respeito m\u00fatuos aqui em casa. Venho conversando com a Let\u00edcia que talvez\u00a0Gustavo deva ir fazer um Mestrado na Europa.\u00a0 Poderia ir passar um ano ou dois na Inglaterra.\u00a0 Temos amigos por l\u00e1 que podem nos ajudar, caso ele precise de refer\u00eancia. Acho que sair do Brasil\u00a0seria bom para o nosso rapaz. N\u00e3o que o pa\u00eds seja\u00a0um lugar ruim. Pelo contr\u00e1rio. At\u00e9 um certo tempo atr\u00e1s o que havia de roubalheira e corrup\u00e7\u00e3o nesta\u00a0terra, nem vou dizer. Finalmente quebraram o encanto e assumiu um homem que traz um frescor, um sangue novo, cujos valores s\u00e3o mais s\u00f3lidos,\u00a0crist\u00e3os. Sim, \u00e9 um sujeito pol\u00eamico. H\u00e1, \u00e0s vezes, uma autenticidade que choca. Mas \u00e9 um l\u00edder que\u00a0\u00e9 transparente. Nunca escondeu o que pensa. Valorizo demais essa honestidade.<\/p>\n<p>Acho tamb\u00e9m que faria bem para o Gustavo\u00a0respirar outros ares, parar com essas conversas e\u00a0companhias comunistas. Quem sabe uma namorada inglesa? Let\u00edcia ficaria t\u00e3o feliz. Imagina os netinhos bil\u00edngues, loirinhos, que gracinha. Talvez Gustavo esteja deprimido porque Lucas j\u00e1\u00a0est\u00e1 com a Valentina h\u00e1 anos e, pelo jeito, vai ter\u00a0casamento. Conhecemos os pais da mo\u00e7a, gente muito boa. Let\u00edcia ganhou uma amiga. A m\u00e3e de Valentina, a Vanessa, coordena uma caridade que distribui sopa aos pobres e sem teto da cidade. Uma vez por m\u00eas, Vanessa vem aqui buscar a Let\u00edcia e as duas v\u00e3o l\u00e1, distribuir comida, conversar com os pobres, antes de correrem para o clube do vinho que frequentam. \u00c9 uma correria, mas d\u00e1 tempo. Tenho imenso orgulho do bom cora\u00e7\u00e3o da\u00a0minha mulher. Ela faz a parte dela. N\u00e3o \u00e9 como esses sujeitos que ficam teorizando. Let\u00edcia vai l\u00e1 e faz. Conversa e at\u00e9 abra\u00e7a aqueles pobres coitados uma vez por m\u00eas, enche a barriga deles de sopa. E\u00a0ainda tem que aguentar o Gustavo rir da cara dela,\u00a0chamando a pr\u00f3pria m\u00e3e de dondoca, dizendo que\u00a0bom mesmo seria se ela ajudasse esse pessoal a ler,\u00a0a encontrar casa e trabalho. Discutem, \u00e0s vezes. Vis\u00f5es muito diferentes.<\/p>\n<p>Quando tocamos no sucesso de Lucas e Valentina, Gustavo sai, entra no quarto, bate \u00e0 porta\u00a0ou vai para a rua. O poeta, o negro, amigo dele,\u00a0parou de vir aqui em casa. Gustavo diz que a amizade continua, que na verdade \u00e9 ele, o Gustavo, quem tem vergonha da pr\u00f3pria casa. O mundo virou de cabe\u00e7a para baixo. O Gustavo diz que tem vergonha de morar num dos condom\u00ednios\u00a0mais luxuosos da cidade. Eu sempre achei que seria uma boa ideia expor essas pessoas da comunidade \u00e0 nossa realidade para que tenham ambi\u00e7\u00e3o na vida. Como tem gente acomodada e ainda nos faz sentir culpa pelo nosso trabalho e bem-estar.\u00a0 Como tem sido dif\u00edcil viver neste mundo que eu\u00a0j\u00e1 n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>Fui dormir \u00e0s quatro. S\u00e3o seis e antes de eu terminar de fazer a barba, minha amada Let\u00edcia\u00a0vai acordar, se espregui\u00e7ar, me desejar bom dia, reclamar da dor nas costas, espirrar tr\u00eas, quatro vezes, reclamar da poeira desta parte da cidade. Vou ouvi-la, sorrir, me desculpar por n\u00e3o conversar porque estou fazendo a barba. Vou soprar-lhe um beijo e ela vai me sorrir de volta.<\/p>\n<p>Vamos tomar caf\u00e9 sem os meninos, que n\u00e3o dormiram em casa. Ela vai conferir se nada est\u00e1 faltando na minha mala para a minha confer\u00eancia no Uruguai. S\u00e3o s\u00f3 tr\u00eas noites fora, mas Let\u00edcia me abra\u00e7a e diz que vai sentir minha falta, para eu ligar sempre, dar not\u00edcias sempre e trazer para ela alguma surpresa. Gosto muito dessas viagens de trabalho. Tem gente que vai ao psic\u00f3logo, tem gente que vai \u00e0s confer\u00eancias.<\/p>\n<p>No t\u00e1xi, a caminho do aeroporto, desembrulho uma balinha oferecida pela motorista. Minhas m\u00e3os desenrolam o papel brilhante e encontram outro, um papel fino. Um papel brilhante t\u00e3o bonito cobre o papel transparente que, de fato, protege a bala. A bala brilha entre os meus dedos que v\u00eam tremendo. Penso que talvez eu morra logo, mas n\u00e3o gosto de pensar em morte antes de pegar um voo. Em vez disso, penso em me esquecer daquela rejei\u00e7\u00e3o que sofri antes de conhecer a Let\u00edcia. O tr\u00e2nsito est\u00e1 dos diabos. Estamos parados e ainda n\u00e3o deixamos um quil\u00f4metro de casa para tr\u00e1s. Eu me distraio olhando l\u00e1 fora e reconhe\u00e7o o Gustavo. Ele n\u00e3o me v\u00ea. Ele est\u00e1 com o tal amigo, o poeta, o negro. Meus olhos baixam at\u00e9\u00a0as m\u00e3os dos dois, que est\u00e3o dadas, juntas, apertadas, certamente suadas de um dia de calor como este. Penso nas namoradas dele que nunca conhecemos. Penso nas minhas namoradas antes da Let\u00edcia que nunca existiram. Penso que Gustavo e eu n\u00e3o nos conhecemos. Penso no que me perguntam meus filhos sobre quem eu era antes de me casar. Olho de novo para a m\u00e3o recheada do Gustavo,\u00a0enrolada com a m\u00e3o daquele homem. Penso que\u00a0uma rejei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fora. Olho as minhas m\u00e3os\u00a0ainda tr\u00eamulas e vazias.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">De\u00a0<em>Mapas para desaparecer<\/em>, Nara Vidal, Faria e Silva Editora, S\u00e3o Paulo, 2020<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6 class=\"caption\">Foto: Pra\u00e7a da Liberdade, Belo Horizonte, Brasil, de <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@tirerphoto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Thaynara Pellerin, Unsplash<\/a>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos quatro em casa. Durmo muito tarde porque&nbsp;sou insone. \u00c0s vezes, s\u00f3 consigo descansar depois&nbsp;das quatro da manh\u00e3. \u00c0s seis j\u00e1 estou de frente&nbsp;para o espelho fazendo a barba. 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