{"id":4656,"date":"2021-05-29T19:18:49","date_gmt":"2021-05-30T01:18:49","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2021\/05\/reenchanting-world-indigenous-literature-aline-ngrenhtabare-lopes-kayapo-and-edson-bepkro\/"},"modified":"2024-11-03T19:59:51","modified_gmt":"2024-11-04T01:59:51","slug":"reenchanting-world-indigenous-literature-aline-ngrenhtabare-lopes-kayapo-and-edson-bepkro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2021\/05\/reenchanting-world-indigenous-literature-aline-ngrenhtabare-lopes-kayapo-and-edson-bepkro\/","title":{"rendered":"&#8220;Reencantar el mundo con la literatura ind\u00edgena&#8221; de Aline Ngrenhtabare Lopes Kayap\u00f3 y Edson Bepkro Kayap\u00f3"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div class=\"caption\"><\/div>\n<p dir=\"ltr\">Nota del editor: Este texto se puede leer en el portugu\u00e9s original, y tambi\u00e9n en traducci\u00f3n al espa\u00f1ol y al ingl\u00e9s. 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S\u00e3o tantas as tentativas de calar as nossas vozes que falar em literatura ind\u00edgena, em pleno s\u00e9culo XXI, chega a causar comich\u00e3o nos ouvidos de muitos te\u00f3ricos, que impavidamente cultuam os c\u00e2nones da literatura no Brasil.<\/p>\n<p>Nossas mem\u00f3rias nos conectam com os nossos antepassados, e possibilitam que as nossas express\u00f5es em converg\u00eancia com os sinais da ancestralidade, e assim interagimos com a sociedade do entorno, muitas vezes ressignificando e atualizando conhecimentos e pr\u00e1ticas nas nossas comunidades, mantendo a fronteira dos nossos pertencimentos, os quais est\u00e3o atrelados a outros tempos; ao tempo imemorial, ao tempo das nossas cosmologias.<\/p>\n<p>A literatura que produzimos tem suas especificidades. Quem escreve a literatura ind\u00edgena j\u00e1 se encontrou com sua ancestralidade origin\u00e1ria\u00a0 e consegue \u201cfazer o papel falar\u201d, como dizia o pai da l\u00edder Valdelice Veron, ind\u00edgena pertencente ao povo Guarani Kaiow\u00e1. \u00c9 uma escrita espiritualmente posicionada e est\u00e1 vinculada aos saberes dos nossos antepassados.<\/p>\n<p>Acredito que a literatura que os escritores ind\u00edgenas produzem colabora de forma significativa para dimensionarmos a vida no planeta, para depurarmos os rastros de escombros deixados pela racionalidade humana \u2014que p\u00f5e em risco a continuidade da vida no planeta\u2014. Usamos as mesmas ferramentas: canetas, pap\u00e9is, computadores e a escrita na l\u00edngua portuguesa (al\u00e9m da escrita nas l\u00ednguas origin\u00e1rias), realizando um movimento em favor do reencantamento das rela\u00e7\u00f5es socioambientais, em favor da supera\u00e7\u00e3o da crise que assola a comunidade mundial.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ressaltar que durante s\u00e9culos a escrita e a l\u00edngua portuguesa foram impostas aos nossos povos de forma violenta, sem considerar nossos conhecimentos, l\u00ednguas e espiritualidades pr\u00f3prias. Mission\u00e1rios e curr\u00edculos escolares invadiram nossos espa\u00e7os com os discursos de salvar almas e civilizar, e o resultado foi o desaprendizado, a expropria\u00e7\u00e3o, a extin\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas\u00a0e saberes.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o da literatura ind\u00edgena \u00e9 um desafio para n\u00f3s, ind\u00edgenas. Tanto por ser uma forma de escrita questionada por muitos acad\u00eamicos atualmente, quanto pelo fato de termos que transformar conhecimentos advindos da oralidade, historicamente desprezados e endemonizados, em textos escritos.<\/p>\n<p>Mais do que apenas escrever, projetamos que nossa literatura colabore no repensar do antropocentrismo,\u00a0 das a\u00e7\u00f5es da racionalidade humana e da ideia de progresso levada a cabo pela comunidade mundial. O projeto humano de desenvolvimento gerou uma situa\u00e7\u00e3o em que as pessoas e grupos sociais caminhassem para uma situa\u00e7\u00e3o de absoluto desencantamento e crise, agravada ainda mais pela ambi\u00e7\u00e3o, pelas vaidades e pela busca do poder a qualquer pre\u00e7o. Diga-se que esse comportamento civilizat\u00f3rio vem desumanizando os nossos povos, rotulando-nos historicamente de seres sem alma, infi\u00e9is, pregui\u00e7osos, mentirosos, b\u00e1rbaros e inimigos do progresso.<\/p>\n<p>Desde que os invasores pisaram nesse territ\u00f3rio sagrado, que para n\u00f3s s\u00e3o os \u201cjardins sagrados herdados por nossos antepassados\u201d, como diz o l\u00edder Ailton Krenak,\u00a0 resistir para existir \u00e9 o que tem movido gera\u00e7\u00f5es, uma ap\u00f3s a outra, e na nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>A escritora ind\u00edgena Eliane Potiguara, nos ensina que devemos \u201cflorescer em meio ao lixo\u201d. Ensinamentos como este, \u00e9 o que n\u00e3o nos deixa paralisar ou sucumbir. E pensando na trajet\u00f3ria de crises da humanidade, florescer no meio do lixo \u00e9 um dos fundamentos da literatura ind\u00edgena nos dias de hoje.<\/p>\n<p>No ato de escrever, estamos atentos a certas armadilhas, como as deixadas por um certo romantismo liter\u00e1rio brasileiro, que romantiza nossas mem\u00f3rias hist\u00f3ricas e transforma a nossa gente em sujeitos passivos diante da viol\u00eancia colonizadora. A n\u00f3s n\u00e3o interessa romantizar nossas hist\u00f3rias e mem\u00f3rias, mas sim, expressar nossas ang\u00fastias, dores, demandas, avan\u00e7os, conquistas e alegrias. Mais uma vez evocamos a escrita de Eliane Potiguara, que bem expressa a escrita liter\u00e1ria a que nos reportamos:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">\u00d3 mulher, vem c\u00e1<br \/>\nque fizeram do teu falar?<br \/>\n\u00d3 mulher conta a\u00ed\u2026<br \/>\nConta a\u00ed da tua trouxa<br \/>\nFala das barras sujas<br \/>\ndos teus calos na m\u00e3o<br \/>\nO que te faz viver, mulher?<br \/>\nBota a\u00ed o teu armamento.<br \/>\nDiz a\u00ed o que te faz calar\u2026<br \/>\nAh! Mulher enganada<br \/>\nQuem diria que tu sabias falar!<\/p>\n<p>Estamos aqui, afirmando que\u00a0 somos a continuidade de Iracema, a guerreira Tabajara que o romantismo de Jos\u00e9 de Alencar domesticou e colocou a servi\u00e7o da domina\u00e7\u00e3o, matando-a de paix\u00e3o pelo colonizador ao fim de sua rebuscada narrativa, marcada fortemente pela apologia aos ideais colonizadores.<\/p>\n<p>Em nome de Moema, a \u00edndia morta, que nunca morrer\u00e1; de Iracema e de tantas outras guerreiras e guerreiros que tombaram, cumpriremos a tarefa\u00a0 que nos foi conferida pelo mundo invis\u00edvel. \u00c9 essa for\u00e7a que nos energiza para seguirmos a caminhada regando a terra, ainda que nossos vastos territ\u00f3rios tenham sido expropriados para construir uma na\u00e7\u00e3o sobre os nossos cemit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Mesmo com tantas hist\u00f3rias de atrocidades, a literatura que escrevemos \u00e9 um evidente sinal de que temos disposi\u00e7\u00e3o para dialogar, colaborando na reconstru\u00e7\u00e3o de tudo o que foi destru\u00eddo em nome do progresso. Produzimos uma literatura que pode auxiliar os leitores a conhecer e sentir a leveza de uma mem\u00f3ria ancestral, comprometida com a vida em todas as suas dimens\u00f5es \u2014seres humanos, rios, montanhas, vegetais, animais e os esp\u00edritos da floresta\u2014. Nossa literatura se manifesta prioritariamente pela oralidade, e se desdobra de diversas formas como dan\u00e7as, grafismos, cantorias, den\u00fancias, lamentos, alegrias, ang\u00fastias, afetos e escritas, entre outras manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, a literatura ind\u00edgena \u00e9 uma voz de continuidade \u00e0 luta dos nossos antepassados, mostrando ao mundo que outras formas e modos de organiza\u00e7\u00e3o social s\u00e3o poss\u00edveis, que \u00e9 poss\u00edvel e necess\u00e1rio viver bem com menos.<\/p>\n<p>Ainda que nos rotulem de \u201cfalsos \u00edndios\u201d, por ressignificamos a escola, a universidade, a literatura e tantas outras institui\u00e7\u00f5es, seguiremos firmes, certos de que romperemos com as barreiras postas pela colonialidade e pelo racismo estrutural e institucional que quer se perpetuar, e caminharemos no rumo de nossas microrrevolu\u00e7\u00f5es, inclusive na literatura.<\/p>\n<p>Vale atestar que um grande avan\u00e7o para a visibilidade e audibilidade dos nossos povos foi a Lei 11.645\/08, que estabelece a obrigatoriedade do estudo\/ ensino da cultura e hist\u00f3ria afrobrasileira e ind\u00edgena nos estabelecimentos de ensino. Neste contexto, a literatura ind\u00edgena \u00e9 um dos principais instrumentos para a implementa\u00e7\u00e3o da referida lei.<\/p>\n<p>\u00c9 oportuno destacar o artigo 231 da constitui\u00e7\u00e3o federal de 1988, que estabelece os direitos origin\u00e1rios:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Art. 231. S\u00e3o reconhecidos aos \u00edndios sua organiza\u00e7\u00e3o social, costumes, l\u00ednguas, cren\u00e7as e tradi\u00e7\u00f5es, e os direitos origin\u00e1rios sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo \u00e0 Uni\u00e3o demarc\u00e1-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.<\/p>\n<p>A constitui\u00e7\u00e3o tornou-se um importante instrumento para n\u00f3s, \u00e0 medida que reconheceu a nossa exist\u00eancia e dos nossos direitos. Por um breve momento nos enchemos de esperan\u00e7as, imaginando que as coisas poderiam ser diferentes de um passado de pagamentos e opress\u00e3o, por\u00e9m, desde a data da sua promulga\u00e7\u00e3o o que temos visto s\u00e3o relampejos de aplicabilidade, em que as formalidades e burocracias dificultam os avan\u00e7os dos nossos direitos dentro e fora das aldeias.<\/p>\n<p>O desafio colocado para a nossa literatura \u00e9 fazer com que nossas mem\u00f3rias hist\u00f3ricas e saberes alcancem\u00a0 a sociedade brasileira, e que mesmo feridos pelo racismo estrutural,\u00a0 possamos realizar di\u00e1logos e intera\u00e7\u00f5es que possam auxiliar na constru\u00e7\u00e3o da igualdade social que dever\u00e1 observar e respeitar a diversidade sociolingu\u00edstica dos nossos povos.<\/p>\n<p>O momento em que vivemos \u00e9 de falar. Antes t\u00ednhamos que ser discretos e fazer sil\u00eancio para vivermos, hoje podemos, n\u00e3o queremos e nem temos mais condi\u00e7\u00f5es ancestrais de continuar sem expor os nossos projetos societ\u00e1rios, pois a alma grita e ecoa. A literatura ind\u00edgena tem sido a caixa de resson\u00e2ncia nesse rumo, e o que escrevemos \u00e9 o espelho das nossas mem\u00f3rias coletivas.<\/p>\n<p>A nossa luta priorit\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 para que sejamos inclu\u00eddos ou integrados nas academias de letras. Primeiramente,\u00a0 essas palavras \u201cinclus\u00e3o\u201d e \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d causam o que os odontologistas chamam de bruxismo, ranger dos dentes. N\u00f3s ind\u00edgenas, jamais seremos integrados, pois se nos integrarmos \u00e0 sociedade nacional, nos desintegraremos da nossa sociedade origin\u00e1ria e vice-versa. O que propomos \u00e9 a intera\u00e7\u00e3o, pois, quando interagimos conseguimos compartilhar o que \u00e9 nosso e absorver o que \u00e9 do outro sem deixar de lado os nossos pertencimentos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Frequentemente desanimamos diante de tantos desafios e portas que se fecham, mas quando olhamos ao nosso entorno, pessoas entendendo a import\u00e2ncia de cuidar de nossa majestosa M\u00e3e Terra, e se propondo a romper com o passado de opress\u00e3o, expropria\u00e7\u00e3o, explora\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o, somos nutridos e motivadas a continuar a jornada.<\/p>\n<p>Outro exemplo que nos inspira vem das anci\u00e3s, dos curandeiros, das parteiras, das benzedeiras e das lideran\u00e7as. S\u00e3o pessoas que como as crian\u00e7as, conversam com os esp\u00edritos, falam com os animais e com as plantas. Muitos acham que as plantas n\u00e3o falam, que bobos, afinal de contas, como nossas curandeiras iriam saber os mist\u00e9rios da cura se n\u00e3o conversassem com as nossas irm\u00e3s plantas?<\/p>\n<p>A literatura ind\u00edgena \u00e9 isso, n\u00f3s ouvimos os mais velhos, os s\u00e1bios, observamos a din\u00e2mica da floresta, o curso dos rios e dos animais. Aprendemos que n\u00e3o precisamos nos tornar o que n\u00e3o somos para que possamos interagir com as outras literaturas e com a sociedade nacional.<\/p>\n<p>Os mais velhos contam nas aldeias que por s\u00e9culos, os nossos antepassados tiveram que negar os seu pertencimento, l\u00ednguas, tradi\u00e7\u00f5es e espiritualidades, tudo em nome do que o Estado chama de \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d. A consequ\u00eancia disso foi o exterm\u00ednio de povos e aldeias inteiras, muitas das quais ressurgindo com for\u00e7a total nos dias de hoje, fazendo o \u201ccaminho de volta\u201d.<\/p>\n<p>Eu mesma (Aline Kayap\u00f3), que n\u00e3o sou mais uma \u201ccrion\u00e7a\u201d e tamb\u00e9m n\u00e3o sou uma anci\u00e3, j\u00e1 tive v\u00e1rias experi\u00eancias com essa intera\u00e7\u00e3o. Certa vez, estava pedindo para que o grande Condor me trouxesse um nome para que n\u00f3s, um grupo de ind\u00edgenas-mulheres, pud\u00e9ssemos nomear o nosso movimento- uma rede ancestral-filos\u00f3fica que criamos. Foi ent\u00e3o que no mesmo momento uma grande ventania abriu a porta da cozinha de casa e falou comigo. Ela disse:<\/p>\n<p>\u2014Ngrenh, voc\u00ea me chamou e eu estou aqui, me chamo ventania, voc\u00ea pode me chamar de Wayra.<\/p>\n<p>Hoje esse \u00e9 o nome do nosso movimento de ind\u00edgenas-mulheres: Wayra, que significa ventania, na l\u00edngua Aymara- povo do qual sou descendente.<\/p>\n<p>Outra vez, uma planta falou comigo, era uma \u00e1rvore de cuieira. Nesse tempo eu queria muito engravidar e disse para ela:<\/p>\n<p>\u2014Um dia vou dar frutos igual a senhora e minha barriga vai ser bem redonda parecida com suas cuias.<\/p>\n<p>Respondeu a Cuieira:<\/p>\n<p>\u2014Fale com sua av\u00f3 Dalmira, ela vai te dizer o que conversamos tempos atr\u00e1s e voc\u00ea saber\u00e1 o rem\u00e9dio para se curar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fechei os olhos e a Wayra trouxe at\u00e9 mim uma mensagem, que uso como rezo e benzimento. Nomeei o rezo com o nome de Cuieira, que diz assim:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\"><b>Cuieira<\/b><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Nossa m\u00e3e<br \/>\nPoder gerador da vida<br \/>\n\u00datero divino<br \/>\nMinha m\u00e3e<br \/>\nMajestosa M\u00e3e Terra<br \/>\nQue nos ensina sobre apar\u00eancias&#8230;<br \/>\nMuitas vezes enganosas<br \/>\nDe fel, vira mel<br \/>\nCurandeira sagrada<br \/>\nO que n\u00e3o tem serventia, faz ter<br \/>\nDo enfeite traz a cura<br \/>\nDo miolo traz o sumo<br \/>\nE o sumo que \u00e9 fel<br \/>\nSem \u00e1gua<br \/>\nvira mel<br \/>\nMel que cura.<br \/>\nMiolo misterioso<br \/>\nO fogo transforma<br \/>\nDe branco amargoso<br \/>\nEm preto saboroso.<br \/>\nManchas n\u00e3o pode ter<br \/>\nA cura n\u00e3o tem m\u00e1culas<br \/>\nTr\u00eas Luas \u00e9 o tempo<br \/>\nQue precisa<br \/>\nO \u00fatero da filha<br \/>\nPara a m\u00e3e curar&#8230;<br \/>\nLouvado seja, Metindjwynh!<br \/>\nMejkumrex minha\u00a0M\u00e3e Terra!<\/p>\n<p>A literatura ind\u00edgena \u00e9 formada por mensagens cosmol\u00f3gicas e est\u00e1 viva. N\u00e3o \u00e9 um prato que se come frio, nem se esfriou com o tempo. Ela \u00e9 o ontem, o agora e o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>A literatura ind\u00edgena \u00e9 quentinha e se renova todas as manh\u00e3s como o sol, e tem aquecido as nossas almas, corpos e esp\u00edritos. Ela \u00e9 a wayra, que traz em sua rede nossas irm\u00e3s p\u00e1ssaras reencantando as manh\u00e3s. A literatura ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 um papel pardo, criado pelo estado, escondido na gaveta e ofuscado pelo tempo, nem um papel branco que se apropriou das mem\u00f3rias de outros povos, ela \u00e9 a alegria da exist\u00eancia de povos que cantam a vit\u00f3ria da exist\u00eancia, tornando\u00a0 mais colorida e encantadas a vida de quem quiser!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Reencantar el mundo con la literatura ind\u00edgena<\/b><\/p>\n<p>La historia oficial y la literatura brasile\u00f1a han producido y reproducido silencios y estereotipos de los pueblos ind\u00edgenas. Son tantos los intentos de acallar nuestras voces que hablar de literatura ind\u00edgena, en pleno siglo XXI, llega a causar una comez\u00f3n en los o\u00eddos de muchos te\u00f3ricos, que impasiblemente idolatran los c\u00e1nones de la literatura en Brasil.<\/p>\n<p>Nuestras memorias nos conectan con nuestros antepasados y permiten que nuestras expresiones se unan con nuestras marcas de identidad. De este modo interactuamos con la sociedad de nuestro entorno, muchas veces resignificando y actualizando conocimientos y pr\u00e1cticas de nuestras comunidades, manteniendo las fronteras de aquello que nos pertenece y que est\u00e1 unido a otros tiempos, el tiempo inmemorial, el tiempo de nuestras cosmolog\u00edas.<\/p>\n<p>La literatura que producimos tiene sus particularidades. Quien escribe literatura ind\u00edgena ya se ha encontrado con su ancestralidad originaria y puede \u201chacer hablar al papel\u201d, como dec\u00eda el padre de Valdelice Veron, ind\u00edgena del pueblo Guaran\u00ed Kaiow\u00e1. Esta es una escritura espiritualmente posicionada y est\u00e1 vinculada a los saberes de nuestros antepasados.<\/p>\n<p>Consideramos que la literatura producida por escritores ind\u00edgena contribuye de forma significativa para posicionar nuestra vida en el mundo, para limpiarnos de las ruinas dejadas por la racionalidad humana \u2014que pone en riesgo la continuidad de la vida en el planeta\u2014. Usamos las mismas herramientas: lapiceros, papeles, computadoras y la escritura en lengua portuguesa (adem\u00e1s de escribir en lenguas originarias), realizando un esfuerzo para conseguir el reencantamiento de las relaciones socio-ambientales, para superar la crisis que asola la comunidad mundial.<\/p>\n<p>Es importante resaltar que durante siglos la escritura y la lengua portuguesa fueron impuestas a nuestros pueblos de manera violenta, sin tener en cuenta nuestros propios saberes, lenguas y espiritualidades. Misionarios y curr\u00edculos escolares invadieron nuestros espacios con los discursos de salvar almas y civilizar. El resultado fue el desaprendizaje, la expropiaci\u00f3n, la extinci\u00f3n de nuestras lenguas y conocimientos.<\/p>\n<p>Para nosotros, los ind\u00edgenas, la producci\u00f3n literaria es un desaf\u00edo. Esto se debe a que nuestra forma de escribir es cuestionada por muchos acad\u00e9micos actualmente y tambi\u00e9n por el hecho de transformar conocimientos propios de la oralidad, hist\u00f3ricamente despreciados y demonizados en textos escritos.<\/p>\n<p>Pero m\u00e1s que solo escribir, nosotros planeamos que nuestra literatura colabore a repensar el antropocentrismo, las acciones de la racionalidad humana y la idea del progreso promovida a nivel mundial. El proyecto humano de desarrollo gener\u00f3 una situaci\u00f3n donde las personas y grupos sociales avanzan hacia un camino de absoluto desencantamiento y crisis, agravado por la ambici\u00f3n, las vanidades y la b\u00fasqueda de poder a cualquier precio. Es importante revelar que esa conducta civilizatoria viene deshumanizando a nuestros pueblos, clasific\u00e1ndonos, hist\u00f3ricamente, como seres sin alma, id\u00f3latras, perezosos, mentirosos, primitivos y enemigos del progreso.<\/p>\n<p>Los invasores llegaron a nuestras tierras ancestrales, que para nosotros son los \u201cjardines sagrados que heredamos de nuestros antepasados\u201d, como dice el l\u00edder Ailton Krenak. Desde aquella invasi\u00f3n, resistir para existir ha sido un motivo que ha inspirado a muchas generaciones, una tras de otra. Nuestra actual generaci\u00f3n no es indiferente a esa lucha.<\/p>\n<p>La escritora ind\u00edgena Eliane Potiguara nos ense\u00f1a que debemos \u201cflorecer en medio de las ruinas\u201d. Ense\u00f1anzas como esta es lo que nos impide ser derrotados o quedar paralizados. Y pensando en el trayecto de las crisis de la humanidad, florecer en medio de las ruinas es uno de los pilares de la literatura ind\u00edgena hoy en d\u00eda.<\/p>\n<p>Mientras escribimos estamos atentos a ciertas trampas, como las que dej\u00f3 el romanticismo literario brasile\u00f1o, que tergiversaron nuestras memorias hist\u00f3ricas y transformaron a nuestros pueblos en sujetos pasivos ante la violencia de la colonizaci\u00f3n. Nosotros no queremos romantizar nuestras historias y memorias, sino que buscamos expresar nuestras angustias, dolores, denuncias, avances, conquistas y alegr\u00edas. Una vez m\u00e1s recordamos aqu\u00ed la obra de Eliane Potiguara, que bien expresa el tipo de literatura al que nos referimos:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Ven ac\u00e1, mujer,<br \/>\n\u00bfQu\u00e9 hicieron de tu voz?<br \/>\nDime, mujer<br \/>\nCu\u00e9ntame ahora de tus desenga\u00f1os<br \/>\nHabla de las rejas sucias<br \/>\nDe tus callos en la mano<br \/>\n\u00bfQu\u00e9 te hace vivir, mujer?<br \/>\nDeja caer tu armadura<br \/>\nDime lo que te hace callar<br \/>\nAh! Mujer enga\u00f1ada,<br \/>\nQuien dir\u00eda que sab\u00edas hablar.<\/p>\n<p>Estamos aqu\u00ed, afirmando que somos la continuidad de Iracema, la guerrera Tabajara, que el rom\u00e1ntico Jos\u00e9 de Alencar domestic\u00f3 y puso al servicio de la dominaci\u00f3n. Al final de su narraci\u00f3n grandilocuente, Alencar hace que ella muera de amor por el invasor, notoriamente influenciado por una apolog\u00eda a la racionalidad colonizadora.<\/p>\n<p>En nombre de Moena, la ind\u00edgena muerta que nunca morir\u00e1; de Iracema y de tantas otras guerreras y guerreros asesinados, cumpliremos la tarea que nos fue delegada por el mundo invisible. Esa es la fuerza que nos motiva a seguir el camino, fertilizando la tierra, aunque nuestros territorios hayan sido expropiados para construir una naci\u00f3n sobre nuestros cementerios.<\/p>\n<p>A pesar de tantas historias de atrocidades, la literatura que escribimos es una se\u00f1al evidente de que estamos dispuestos a dialogar, colaborando en la reconstrucci\u00f3n de todo aquello que fue destruido en nombre del progreso. Producimos una literatura que puede ayudar a los lectores a conocer y sentir la delicadeza de una memoria ancestral, comprometida con la vida en todas sus dimensiones \u2014seres humanos, r\u00edos, monta\u00f1as, vegetales, animales, y los esp\u00edritus de la selva\u2014. Nuestra literatura se manifiesta, principalmente, mediante la oralidad y se extiende a trav\u00e9s de diversas expresiones como danzas, grafismos, cantos, denuncias, lamentos, alegr\u00edas, angustias, afectos y escrituras, entre otras formas.<\/p>\n<p>Por lo tanto, la literatura ind\u00edgena es una voz de continuidad de la lucha de nuestros antepasados, mostrando al mundo que otras formas y modos de organizaci\u00f3n social son posibles, que es posible y necesario vivir bien con menos.<\/p>\n<p>Nos llaman \u201cfalsos indios\u201d por haber resignificado la escuela, la universidad, el sistema literario, y tantas otras instituciones. A pesar de esto, seguiremos firmes, seguros de que romperemos los obst\u00e1culos puestos por la colonialidad y el racismo estructural, institucional, que quiere perpetuarse. Caminaremos en la ruta de nuestras micro-revoluciones, incluso en la literatura.<\/p>\n<p>Es necesario precisar que un importante avance para visibilizar y escuchar a nuestros pueblos fue la Ley 11.645\/08. Esta Ley establece que es obligatorio estudiar y ense\u00f1ar la historia y la cultura de los pueblos ind\u00edgenas y afro-brasile\u00f1os en los centros de educaci\u00f3n. En este contexto, la literatura ind\u00edgena es uno de los principales instrumentos para implementar dicho reglamento.<\/p>\n<p>Tambi\u00e9n es oportuno destacar el art\u00edculo 231 de la constituci\u00f3n federal de 1988, que establece los derechos ancestrales:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Art. 231. Se reconoce a los indios su organizaci\u00f3n social, costumbres, lenguas, creencias y tradiciones, y los derechos originarios sobre las tierras que tradicionalmente habitan, siendo obligaci\u00f3n de la Uni\u00f3n [el Estado brasile\u00f1o] demarcarlas, proteger y respetar todos sus bienes.<\/p>\n<p>Esta constituci\u00f3n se convirti\u00f3 en un instrumento importante para nosotros, ya que reconoci\u00f3 nuestra existencia y nuestros derechos. Por un momento breve nos llenamos de esperanzas, imaginando que las cosas podr\u00edan ser diferentes a un pasado de silenciamientos y opresi\u00f3n. Sin embargo, desde la fecha de su promulgaci\u00f3n, s\u00f3lo hemos visto peque\u00f1os rastros de legalidad, pues las formalidades y actos burocr\u00e1ticos imposibilitan los avances de nuestros derechos dentro y fuera de las aldeas.<\/p>\n<p>El desaf\u00edo que asume nuestra literatura es lograr que nuestras memorias y saberes lleguen a la sociedad. Aunque hemos sido heridos por violencias raciales, queremos producir di\u00e1logos e interacciones que puedan contribuir a la construcci\u00f3n de una justicia social que incluya y respete la diversidad socio-ling\u00fc\u00edstica de nuestros pueblos.<\/p>\n<p>El momento en que vivimos es de hablar. Antes ten\u00edamos que ser discretos y estar callados para vivir. Hoy en d\u00eda, para proseguir con nuestra ancestralidad tenemos que exponer nuestros proyectos de sociedad, pues el alma grita y resuena. La literatura ind\u00edgena ha sido la caja de resonancia en este camino, y lo que escribimos es el espejo de nuestras memorias colectivas.<\/p>\n<p>Nuestra lucha no es para ser incluidos o integrados en las academias de las letras. En primer lugar, esas palabras, \u201cinclusi\u00f3n\u201d, \u201cintegraci\u00f3n\u201d, producen lo que los odont\u00f3logos llaman bruxismo, rechinar los dientes. Nosotros, los ind\u00edgenas, jam\u00e1s seremos integrados, pues si nos integramos a la sociedad nacional, nos separaremos de nuestra cultura originaria y viceversa. Lo que proponemos es una interacci\u00f3n, pues cuando interactuamos logramos compartir aquello que es nuestro y absorbemos lo que es del otro sin olvidar que pertenecemos a nuestros pueblos.<\/p>\n<p>Frecuentemente nos desanimamos ante tantos desaf\u00edos y puertas que se cierran. Sin embargo, nos llenamos de energ\u00eda y continuamos la jornada cada vez que escuchamos a nuestro alrededor, cuando escuchamos a las personas que entienden la importancia de cuidar nuestra majestuosa Madre Tierra, con el firme prop\u00f3sito de quebrar la historia de opresi\u00f3n, desposesi\u00f3n, explotaci\u00f3n y devastaci\u00f3n.<\/p>\n<p>Otro ejemplo que nos inspira viene de las ancianas, los curanderos, las parteras, las que bendicen, las y los l\u00edderes. Son personas que \u2014como los ni\u00f1os\u2014 conversan con los esp\u00edritus, hablan con los animales y con las plantas. Muchos creen que las plantas no hablan, pero que tontos son: finalmente, \u00bfc\u00f3mo nuestras curanderas podr\u00edan saber los misterios sobre curar si no hablasen con nuestras plantas hermanas?<\/p>\n<p>La literatura ind\u00edgena es eso: nosotros escuchamos a los m\u00e1s viejos, a los sabios, observamos el movimiento de la selva, el vaiv\u00e9n de los r\u00edos y los animales. Aprendemos que no necesitamos ser aquello que no somos para poder interactuar con otras literaturas y con la sociedad nacional.<\/p>\n<p>En las aldeas, los m\u00e1s viejos cuentan que durante siglos nuestros antepasados tuvieron que negar sus or\u00edgenes, lenguas, tradiciones y espiritualidades, todo en nombre de lo que el Estado llama \u201cintegraci\u00f3n\u201d. Como consecuencia, pueblos y aldeas enteras fueron exterminadas, muchas de las cuales est\u00e1n resurgiendo con gran fuerza en estos d\u00edas, realizando \u201cel camino de retorno\u201d.<\/p>\n<p>Quien escribe (Aline Kayap\u00f3), quien no es m\u00e1s una \u201cni\u00f1a\u201d y tampoco una anciana, ya tuvo muchas experiencias con ese tipo de interacci\u00f3n. Una vez, estaba pidiendo al gran C\u00f3ndor que me diese un nombre para bautizar a nuestro movimiento &#8211; una red filos\u00f3fica-ancestral que creamos con un grupo de mujeres ind\u00edgenas. Entonces, en ese mismo momento, una borrasca abri\u00f3 la puerta de la cocina y habl\u00f3 conmigo. La borrasca dijo:<\/p>\n<p>\u2014Ngrenh, usted me llam\u00f3 y yo estoy aqu\u00ed. Me llamo borrasca y me puedes llamar Wayra.<\/p>\n<p>Hoy ese es el nombre de nuestro movimiento de mujeres ind\u00edgenas: Wayra, que significa borrasca o viento fuerte en lengua Aymara, pueblo del cual soy descendiente.<\/p>\n<p>En otra ocasi\u00f3n, una planta habl\u00f3 conmigo. Era un \u00e1rbol de Cuieira. En ese tiempo, yo quer\u00eda mucho estar embarazada y dije para la planta:<\/p>\n<p>\u2014Un d\u00eda voy a dar frutos igual a usted y mi barriga va a ser bien redonda, semejante a sus cuias.<\/p>\n<p>La cuieira respondi\u00f3:<\/p>\n<p>\u2014Hable con su abuela Dalmira, ella te va a decir lo que conversamos tiempo atr\u00e1s y t\u00fa sabr\u00e1s el remedio para curar.<\/p>\n<p>Entonces cerr\u00e9 los ojos y Wayra trajo un mensaje para m\u00ed, que utilizo como un rezo y bendici\u00f3n. Nombre la oraci\u00f3n con el nombre de Cuieira, que dice as\u00ed:<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\"><b>Cuieira<\/b><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Madre nuestra<br \/>\nPoder que crea la vida<br \/>\n\u00datero divino<br \/>\nMadre m\u00eda<br \/>\nPoderosa Madre Tierra<br \/>\nQue nos ense\u00f1as sobre las apariencias&#8230;<br \/>\nTantas veces enga\u00f1osas:<br \/>\nDe la hiel crece la miel<br \/>\nSagrada curandera<br \/>\nLo que no sirve se hace \u00fatil<br \/>\nDel adorno traes la cura<br \/>\nDel sustento traes el jugo<br \/>\nY el zumo, que es amargo,<br \/>\nSin agua<br \/>\nvu\u00e9lvese miel<br \/>\nMiel que cura.<br \/>\nAlimento misterioso<br \/>\nEl fuego te transforma<br \/>\nDe blanco agrio<br \/>\nEn oscuro delicioso.<br \/>\nNo puede tener manchas<br \/>\nLa cura no tiene m\u00e1culas.<br \/>\nEl \u00fatero de la hija<br \/>\nNecesita<br \/>\nUn tiempo de tres lunas<br \/>\nPara la madre curar<br \/>\n\u00a1Alabado sea, Metindjwynh!<br \/>\n\u00a1Mejkumrex, mi Madre Tierra!<\/p>\n<p>La literatura ind\u00edgena est\u00e1 formada por mensajes cosmol\u00f3gicos y est\u00e1 viva. No es un plato que se come fr\u00edo, tampoco se enfri\u00f3 con el tiempo. La literatura ind\u00edgena es ayer, es ahora y es futuro.<\/p>\n<p>La literatura ind\u00edgena es calientita, se renueva todas las ma\u00f1anas como el sol y da fervor a nuestras almas, cuerpos y esp\u00edritus. Ella es wayra, y en su red trae a nuestras hermanas p\u00e1jaras para reencantar nuevos d\u00edas. La literatura ind\u00edgena no es un papel pardo, creado por el estado, escondido en el escritorio y marchito por el tiempo, tampoco es un papel blanco que se apropi\u00f3 de la memoria de otras culturas. La literatura ind\u00edgena es el j\u00fabilo de existir, el j\u00fabilo de los pueblos que cantan el triunfo de la vida, volviendo m\u00e1s colorida y m\u00e1gica la existencia de quien as\u00ed lo quiera.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Traducci\u00f3n de Christian Elguera<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>La historia oficial y la literatura brasile\u00f1a han producido y reproducido silencios y estereotipos de los pueblos ind\u00edgenas. 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