{"id":4337,"date":"2021-05-20T00:50:37","date_gmt":"2021-05-20T06:50:37","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2021\/02\/trashpickers-joao-anzanello-carrascoza\/"},"modified":"2024-11-03T19:06:27","modified_gmt":"2024-11-04T01:06:27","slug":"trashpickers-joao-anzanello-carrascoza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2021\/05\/trashpickers-joao-anzanello-carrascoza\/","title":{"rendered":"&#8220;Os Catadores&#8221; de Jo\u00e3o Anzanello Carrascoza"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div class=\"caption\"><\/div>\n<p><strong>Nota do Editor: <\/strong>Este texto est\u00e1 dispon\u00edvel na tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas e no original em portugu\u00eas. 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formigueiro de catadores, eis Jos\u00e9, com a camisa enrolada no pesco\u00e7o, j\u00e1 sem sentir o fedor p\u00fatrido do aterro, o fedor que embebeda as narinas e anestesia at\u00e9 o olhar, e enquanto vai separando as pets de coca-cola e guaran\u00e1 e enfiando-as num saco preto, Jos\u00e9 tenta distinguir, para al\u00e9m daquelas montanhas de restolhos, a silhueta de Maria, que ela n\u00e3o saiba o que Mateus encontrou ainda h\u00e1 pouco, e Maria, como se pudesse sentir que Jos\u00e9, mesmo l\u00e1 distante, a observa, ela espanta a barata que lhe sobe pela perna e sorri com aquele achado especial, que hoje, junto a outras coisas, vai levar para o barraco, e assim eles trabalham, um pensando no outro, enquanto sobre a cabe\u00e7a de ambos planam<br \/>\nos urubus<br \/>\nos urubus<br \/>\nos urubus<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>2<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">O sol,<br \/>\nesgotado,<br \/>\n(tanto quanto os dois)<br \/>\npor se repartir<br \/>\nem incont\u00e1veis raios<br \/>\nque, pelo dia afora,<br \/>\nlutam contra as gretas<br \/>\ne os espa\u00e7os opacos,<br \/>\nj\u00e1 cede lugar \u00e0 noite,<br \/>\nque, sem cerim\u00f4nia, ocupa a sua vaga,<br \/>\ncomo uma pe\u00e7a de reposi\u00e7\u00e3o<br \/>\nna engrenagem do tempo,<br \/>\ne Jos\u00e9, at\u00e9 ent\u00e3o submerso<br \/>\nnum canto dos monturos,<br \/>\narrasta numa sacola o que ali achou,<br \/>\nde valia,<br \/>\nele no m\u00e1ximo proveito<br \/>\ndo que, para outros,<br \/>\n\u00e9 apenas sobra;<br \/>\ne Maria, do lado contr\u00e1rio<br \/>\ndaquele mar mals\u00e3o,<br \/>\ntamb\u00e9m regressa para casa<br \/>\n(mas antes<br \/>\nse volta para si mesma,<br \/>\nque l\u00e1, no aterro,<br \/>\nela, ou qualquer outro,<br \/>\ns\u00f3 pensa nas coisas<br \/>\nque v\u00ea e se apodera,<br \/>\na mulher que Maria \u00e9<br \/>\na abandona<br \/>\nquando ela est\u00e1<br \/>\nciscando<br \/>\nentre os dejetos),<br \/>\nela vai chegar primeiro que Jos\u00e9,<br \/>\nque segue no seu passo<br \/>\nde cansa\u00e7o;<br \/>\nos dois carregam<br \/>\no que o dia lhes deu de mais precioso<br \/>\ne inesperado,<br \/>\nele na mem\u00f3ria,<br \/>\nela nas m\u00e3os<br \/>\n\u2014 essas duas formas<br \/>\nde levarmos o que n\u00e3o cabe,<br \/>\npor direito ou dever,<br \/>\nlargar no caminho \u2014,<br \/>\nembora leve seja o achado de Maria,<br \/>\nquase nem pesa<br \/>\ndaquele jeito que ela o leva,<br \/>\ndobrado,<br \/>\no que n\u00e3o se pode dizer de Jos\u00e9,<br \/>\n\u00e9 rocha,<br \/>\nde tonelada,<br \/>\ne ainda lacerante,<br \/>\no que Mateus achou<br \/>\ne, contando a ele,<br \/>\nacabou por lhe fincar<br \/>\nbrutalmente<br \/>\nna mem\u00f3ria,<br \/>\ne essa nunca desliga,<br \/>\n\u00e0s vezes ainda,<br \/>\ndo nada,<br \/>\nna sanha de selecionar as lembran\u00e7as<br \/>\ntorna ainda mais fren\u00e9tica<br \/>\na sua voltagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>3<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">\u00c0quela hora, o casal j\u00e1 havia jantado.<br \/>\nMaria lavava a lou\u00e7a na bacia com \u00e1gua,<br \/>\ne Jos\u00e9, sentado no banquinho, com o prato de alum\u00ednio na m\u00e3o, mirava, pelo v\u00e3o entre as t\u00e1buas,<br \/>\n\u2014 janela provis\u00f3ria \u2014<br \/>\nas sombras da noite l\u00e1 fora,<br \/>\nquando ouviu,<br \/>\nacima do rumor do c\u00f3rrego<br \/>\nque flu\u00eda atr\u00e1s do barraco,<br \/>\no som do Plant\u00e3o da Globo<br \/>\nvindo l\u00e1 do boteco do Jo\u00e3o.<br \/>\nS\u00f3 podia ser coisa ruim, alguma desgra\u00e7a no Brasil ou pelo mundo.<br \/>\n(Jos\u00e9 recordou do que se dera, \u00e0 tarde, no aterro)<br \/>\nE se aquele som assustava num instante,<br \/>\nno seguinte o boteco se entupia de gente diante da tev\u00ea,<br \/>\n\u2014 a \u00fanica daquele lugar \u2014<br \/>\ncom a fome dos fatos na cara, nos olhos fixos, nas bocas abertas.<br \/>\nH\u00e1 poucas semanas, Jos\u00e9 fora l\u00e1 farejar:<br \/>\nera um terremoto no Chile \u2013 umas cidades destru\u00eddas, mil mortos, outras mil pessoas desaparecidas&#8230;<br \/>\nNoutra noite, j\u00e1 no colch\u00e3o, exausto, reconheceu aquele som macabro, mas n\u00e3o se moveu. O corpo era s\u00f3 dor, dor.<br \/>\nMas Maria foi. E voltou com a not\u00edcia: tsunami no Jap\u00e3o.<br \/>\nUns dias atr\u00e1s, o som se repetira: a morte do doutor S\u00f3crates, ex-jogador do Corinthians e da sele\u00e7\u00e3o brasileira.<br \/>\nAgora, o que seria?<br \/>\nJos\u00e9 pensou no que havia acontecido,<br \/>\n\u00e0 tarde,<br \/>\nno aterro.<br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o iria passar na tev\u00ea. Ningu\u00e9m ligava para o que ocorria l\u00e1, no lix\u00e3o da cidade.<br \/>\nA recorda\u00e7\u00e3o dentro dele fervilhava. N\u00e3o queria ficar sozinho, com aquilo, na mem\u00f3ria. Pesava, e demais.<br \/>\nSe falasse, dividiria o espanto.<br \/>\nMas n\u00e3o era justo despejar mais carga<br \/>\nnas costas de Maria.<br \/>\nOs \u00faltimos acordes do Plant\u00e3o da Globo soaram, quando ela se virou e disse,<br \/>\n<em>L\u00e1 vem mais uma trag\u00e9dia!\u00a0<\/em><br \/>\nApanhou o prato da m\u00e3o dele e emendou:<br \/>\n<em>O que ser\u00e1 dessa vez?<\/em><br \/>\nJos\u00e9 permaneceu calado.<br \/>\nQue ficasse s\u00f3 em sua mente<br \/>\naquele acontecimento,<br \/>\ncomo uma semente seca,<br \/>\npra n\u00e3o se arvorar nunca.<br \/>\nMaria suportava as mordidas dos ratos,<br \/>\nos cacos de vidro,<br \/>\na coceira e a fedentina do lixo,<br \/>\nmas, \u00e0s vezes,<br \/>\nbastava uma palavra,<br \/>\ne ela com os olhos d\u2019\u00e1gua,<br \/>\na resist\u00eancia derretida num segundo.<br \/>\nDevia poup\u00e1-la, sobretudo pelo seu sonho: na conversa di\u00e1ria, Maria rabiscava,<br \/>\npara os dois,<br \/>\numa crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>4<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Jos\u00e9 se ergueu.<br \/>\nFoi atr\u00e1s do barraco urinar no c\u00f3rrego.<br \/>\nFicou ali por um tempo, sendo ele tamb\u00e9m<br \/>\no mundo de fora.<br \/>\nEle s\u00f3.<br \/>\nSeparado das coisas,<br \/>\ncomo as que catava no lixo.<br \/>\nDesmisturado de tudo o mais.<br \/>\nNa sua apenas, e \u00edntima, exist\u00eancia.<br \/>\nE a noite \u2013 sem lua e estrelas.<br \/>\nMaria, deitada no colch\u00e3o, lia,<br \/>\n\u00e0 luz morti\u00e7a,<br \/>\numa revista,<br \/>\no cheiro<br \/>\ne as manchas<br \/>\ndo chorume<br \/>\nnas p\u00e1ginas<br \/>\n(que, por mais que se lavasse, persistiam).<br \/>\nJos\u00e9 retornou ao barraco.<br \/>\nEscovou os dentes com a \u00e1gua do balde.<br \/>\nTirou a bermuda e a camiseta<br \/>\ne, antes de se deitar ao lado dela,<br \/>\nde cueca,<br \/>\npegou o despertador<br \/>\n(que, como quase tudo ali, recolhera do lixo)<br \/>\ne programou o alarme para \u00e0s seis da manh\u00e3.<br \/>\n<em>N\u00e3o precisa<\/em>, Maria disse, <em>Voc\u00ea sabe que eu nunca perco hora.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 s\u00f3 pra garantir<\/em>, Jos\u00e9 comentou.<br \/>\nEla moveu a cabe\u00e7a, concordando,<br \/>\n<em>Meu corpo j\u00e1 se acostumou<\/em>,<br \/>\ne ele,<br \/>\n<em>Eu sei<\/em>,<br \/>\ne colocou o rel\u00f3gio no ch\u00e3o:<br \/>\n<em>Mas tem dias que a gente t\u00e1 um baga\u00e7o!<\/em><br \/>\nEla, virando a p\u00e1gina da revista, disse,<br \/>\n<em>Mesmo assim, sempre acordei antes dele tocar&#8230;<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 verdade!<\/em>, concordou Jos\u00e9.<br \/>\nDe longe, muito longe,<br \/>\nvinha o eco de um pagode.<br \/>\nO volume aumentou, aumentou,<br \/>\nchegou ao auge, t\u00e3o pr\u00f3ximo,<br \/>\ne, depois, foi diminuindo,<br \/>\ndiminuindo,<br \/>\nat\u00e9 sumir.<br \/>\nAlgum carro passara na estrada.<br \/>\nO ru\u00eddo da vida ali,<br \/>\nnaquela montoeira de barracos, \u00e0 margem do aterro,<br \/>\nse sujou<br \/>\nnovamente<br \/>\nde sil\u00eancio.<br \/>\nMaria fechou a revista e perguntou:<br \/>\n<em>O que aconteceu hoje, l\u00e1, no seu lado?<\/em><br \/>\nJos\u00e9, inerte.<br \/>\nMas r\u00e1pido em suas resolu\u00e7\u00f5es:<br \/>\nse ela n\u00e3o souber por mim, vai saber por outro.<br \/>\nComo em qualquer lugar, as not\u00edcias, entre os monturos, tamb\u00e9m se espalhavam.<br \/>\nEnt\u00e3o, era melhor dizer. Com o liso das palavras.<br \/>\nPorque a imagina\u00e7\u00e3o dela, por si s\u00f3, ia meter mesmo pontas no fato<br \/>\ne encrespar seus pormenores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>5<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\"><em>O que foi que aconteceu?<\/em>, Maria perguntou outra vez.<br \/>\nJos\u00e9 abaixou a cabe\u00e7a e respondeu:<br \/>\n<em>Acharam um beb\u00ea!<\/em><br \/>\nE, para represar, ao menos por um instante,<br \/>\no espanto dela,<br \/>\nemendou,<br \/>\n<em>Veio num dos \u00faltimos caminh\u00f5es.<\/em><br \/>\nMaria em sobressalto, quase a expelir a alma. Tanto que, instintiva, tapava a boca com as m\u00e3os:<br \/>\n<em>Meu Deus! Meu Deus!<\/em><br \/>\nOutro esguicho de sil\u00eancio.<br \/>\n<em>E estava vivo?<\/em>, ela perguntou, querendo o milagre.<br \/>\n<em>N\u00e3o!\u00a0<\/em><br \/>\n<em>Como pode algu\u00e9m fazer isso?<\/em><br \/>\n<em>A gente ainda pensa que j\u00e1 viu tudo&#8230;<\/em><br \/>\nMaria precisava de min\u00facias.<br \/>\nN\u00e3o conseguia, por si s\u00f3, erguer em pensamento aquela realidade. O mundo que lhe desse os contornos inteiros: menino ou menina? Branco ou preto? Vestido ou nu? E outras perguntas na fila, pelo assombro de n\u00e3o poder calar. Como se&#8230;<br \/>\nMas Jos\u00e9 apenas respondeu<br \/>\n(porque sabia que um detalhe, por ser detalhe,<br \/>\nextravasa e<br \/>\nsupura),<br \/>\n<em>N\u00e3o sei, n\u00e3o vi, n\u00e3o sei.<\/em><br \/>\nE, para n\u00e3o a deixar no desamparo, na responsabilidade de reinventar para si a hist\u00f3ria toda, ele disse:<br \/>\n<em>O Mateus, o Mateus que viu primeiro. Viu e levou pra cooperativa.<\/em><br \/>\nA noite calada, l\u00e1 dentro, se interpunha.<br \/>\nE o sussurro do c\u00f3rrego.<br \/>\nOs dois ali, sem culpas, num momento que n\u00e3o lhes pertencia, embora a dor alheia fosse como se deles.<br \/>\nEnt\u00e3o, por acreditar que s\u00f3 se responde ao fim com um come\u00e7o, Maria esbo\u00e7ou um sorriso, a voz de quem se reencanta:<br \/>\n<em>E o nosso beb\u00ea?<\/em><br \/>\nJos\u00e9 pegou o despertador, s\u00f3 para ter algo nas m\u00e3os, sob o seu controle.<br \/>\n<em>J\u00e1 disse, tudo tem a sua hora<\/em>, ele respondeu, tentando ser macio o m\u00e1ximo que podia.<br \/>\n<em>Eu sei!<\/em>, ela disse.<br \/>\n<em>N\u00e3o vai demorar muito, ele completou. Logo vou arranjar algum servi\u00e7o melhor.<\/em><br \/>\nE Maria:<br \/>\n<em>Temos de acabar a casinha&#8230;\u00a0<\/em><br \/>\n<em>No fim de semana, levanto mais uma parede l\u00e1.\u00a0<\/em><br \/>\nJos\u00e9 se ajeitou no colch\u00e3o, mais perto dela, para que comprovasse a verdade do que dizia.<br \/>\n<em>Mas vamos de ter de parar a obra, ele continuou: o cimento est\u00e1 acabando.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>6<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Maria se ergueu,<br \/>\nt\u00e3o lenta e leve<br \/>\nque nem dava para se notar a sua vida<br \/>\ninteira<br \/>\nnaquele seu gesto,<br \/>\n(mesmo Jos\u00e9, que a via, transl\u00facida,<br \/>\ncomo se por um vidro,<br \/>\no percebia),<br \/>\ne, retirando de uma sacola o objeto, disse,<br \/>\n<em>Olha o que eu achei!<\/em><br \/>\nEle olhou, e re-olhou, sem entender:<br \/>\n<em>O que \u00e9 isso?\u00a0<\/em><br \/>\nEla desdobrou \u00e0 sua frente,<br \/>\nat\u00e9 alcan\u00e7ar os pr\u00f3prios p\u00e9s,<br \/>\no que um dia fora,<br \/>\ntodo branco,<br \/>\nem par com sua grinalda,<br \/>\num vestido de noiva!<br \/>\nAinda gerava <em>ohs<\/em> de admira\u00e7\u00e3o,<br \/>\nmesmo imundo e amassado,<br \/>\nassim como um homem velho<br \/>\nenlameado de tempo<br \/>\nainda \u00e9<br \/>\n(se cuidou de preservar)<br \/>\no menino de antes.<br \/>\nMaria nada disse,<br \/>\ne o exibia,<br \/>\ncomo se o vestisse,<br \/>\num tudo o vestido dizia por si mesmo,<br \/>\ncom seu longo<br \/>\ne seus babados,<br \/>\nembora n\u00e3o tanto quanto antes,<br \/>\nao receber<br \/>\nalvo e virgem<br \/>\no ajuste final da costureira,<br \/>\ne, ainda assim,<br \/>\natra\u00eda a aten\u00e7\u00e3o de qualquer um,<br \/>\nat\u00e9 Jos\u00e9,<br \/>\nn\u00e3o porque ele n\u00e3o tivesse nos olhos,<br \/>\npr\u00e9via,<br \/>\na beleza<br \/>\nque h\u00e1 nas coisas lindas,<br \/>\nou n\u00e3o a levasse primeiro em si<br \/>\npara depois descobri-la,<br \/>\nmas porque ele estava surpreso com aquilo.<br \/>\nAssim era em seus dias,<br \/>\ncavoucando os escombros do lixo \u2013<br \/>\nde repente dava com uma mochila ainda boa,<br \/>\num \u00f3culos escuro, um porta-retrato,<br \/>\ne, ent\u00e3o, se acendia aquela luz de desconfian\u00e7a<br \/>\nque a verdade,<br \/>\nem seguida,<br \/>\napagava.<br \/>\n<em>Que tal?<\/em>, Maria perguntou, <em>N\u00e3o \u00e9 bonito?<\/em><br \/>\nJos\u00e9 moveu a cabe\u00e7a,<br \/>\nnum sim parcial,<br \/>\n<em>Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 pensando&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Claro que n\u00e3o<\/em>, disse ela.<br \/>\nE completou:<br \/>\n<em>Vou vender, e a\u00ed teremos dinheiro pro cimento.<\/em><br \/>\nEle a mirou forte,<br \/>\nc\u00e9tico mas com o desejo de ser crente.<br \/>\n<em>Vender pra quem? Quem vai comprar isso?<\/em><br \/>\nEla dobrou o vestido,<br \/>\ndevolvendo-o ao que ele era,<br \/>\n\u2014 uma esperan\u00e7a guardada \u2014<br \/>\ne respondeu:<br \/>\n<em>A Marta, do brech\u00f3. Ela compra tudo. Lava e depois vende. Aquela sua cal\u00e7a, eu comprei l\u00e1.<br \/>\nE vale alguma coisa?<br \/>\nVale, vale muito!<br \/>\nTomara!<br \/>\n\u00c9 um vestido de noiva. Ainda t\u00e1 bom. E d\u00e1 pra reformar&#8230;\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>7<\/strong><\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">Jos\u00e9 colocou o despertador de lado e se ajeitou no colch\u00e3o. A vida j\u00e1 estava para transbordar naquele dia. Era hora de seren\u00e1-la com a tampa do sono.<br \/>\n<em>Vem, Maria!<\/em>, ele chamou.<br \/>\nEla foi.<br \/>\nApagou a luz<br \/>\ne o universo l\u00e1 fora.<br \/>\nS\u00f3 o c\u00f3rrego, na noite, insistia com suas \u00e1guas.<br \/>\nOs dois perfilados, afundavam-se, devagar, nos seus quietos.<br \/>\nEla o abra\u00e7ou por tr\u00e1s, como se precisasse do corpo dele para sentir o seu pr\u00f3prio.<br \/>\nTirou o beb\u00ea morto de sua mente e se p\u00f4s a rascunhar o rosto do seu, desejado e vivo, no futuro.<br \/>\nJos\u00e9, imaginoso,<br \/>\nde olhos fechados,<br \/>\npegava outro tijolo,<br \/>\nia subindo, sem pressa,<br \/>\noutra parede da casinha;<br \/>\ne a casinha ia aparecendo, toda,<br \/>\nvinda l\u00e1 do fundo<br \/>\ndo l\u00edquido revelador,<br \/>\no sonho verde<br \/>\ndos dois,<br \/>\nque a crian\u00e7a,<br \/>\ne um trabalho digno<br \/>\nfora do aterro,<br \/>\ncompletaria.<br \/>\nDepois, aos poucos, eles foram adormecendo, enquanto ouviam, acima do barraco, o esvoa\u00e7ar de umas asas, e outras, e mais outras:<br \/>\nos urubus<br \/>\nos urubus<br \/>\nos urubus<\/p>\n<p style=\"margin-left: 40px;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>latas, pl\u00e1sticos, comida, papel, roupas, vidros, latas, comida, latas, ratos, garrafas, comida, pl\u00e1sticos, cascas, miolos, pl\u00e1sticos, tocos, metais, tudo lambuzado de um mel nauseante que escorre pela terra, as m\u00e3os catando o que j\u00e1 foi descartado, e entre tantos e tantos homens e mulheres ali, que buscam sob o sol, nos dejetos, a sua comida, l\u00e1 est\u00e1 Maria, cercada de imund\u00edcie, de onde ela retira o seu sustento, e, numa pir\u00e2mide de entulhos, l\u00e1 na frente, remexendo na sujeira que um caminh\u00e3o basculante vomitou acima de outras tantas camadas de res\u00edduos, entre o formigueiro de catadores, eis Jos\u00e9, com a camisa enrolada no pesco\u00e7o, j\u00e1 sem sentir o fedor p\u00fatrido do aterro, o fedor que embebeda as narinas e anestesia at\u00e9 o olhar, e enquanto vai separando as pets de coca-cola e guaran\u00e1 e enfiando-as num saco preto, Jos\u00e9 tenta distinguir, para al\u00e9m daquelas montanhas de restolhos, a silhueta de Maria, que ela n\u00e3o saiba o que Mateus encontrou ainda h\u00e1 pouco, e Maria, como se pudesse sentir que Jos\u00e9, mesmo l\u00e1 distante, a observa, ela espanta a barata que lhe sobe pela perna e sorri com aquele achado especial, que hoje, junto a outras coisas, vai levar para o barraco, e assim eles trabalham, um pensando no outro, enquanto sobre a cabe\u00e7a de ambos planam<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4334,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[2995,4446],"genre":[2024],"pretext":[],"section":[2392],"translator":[],"lal_author":[3067],"class_list":["post-4337","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tag-brazil-es","tag-numero-18","genre-brazilian-literature-es","section-brazilian-literature-es","lal_author-joao-anzanello-carrascoza-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4337"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4337\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37441,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4337\/revisions\/37441"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4337"},{"taxonomy":"genre","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/genre?post=4337"},{"taxonomy":"pretext","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/pretext?post=4337"},{"taxonomy":"section","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/section?post=4337"},{"taxonomy":"translator","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/translator?post=4337"},{"taxonomy":"lal_author","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/lal_author?post=4337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}