{"id":41692,"date":"2025-09-11T11:44:16","date_gmt":"2025-09-11T17:44:16","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=41692"},"modified":"2025-09-29T08:45:51","modified_gmt":"2025-09-29T14:45:51","slug":"a-amante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2025\/09\/a-amante\/","title":{"rendered":"A amante"},"content":{"rendered":"<p><b><i>Nota del editor:<\/i><\/b><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Publicamos este texto en el portugu\u00e9s original y en traducci\u00f3n al ingl\u00e9s. Despl\u00e1zate hacia abajo para leer en portugu\u00e9s, y haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Engulo. O eu te amo. Vem junto: ar com um resto de champanhe e saliva. Ambos, o eu te amo e a saliva, s\u00e3o do meu amante. Engasgo. E tento me desvencilhar da boca na minha boca, viro o rosto para o lado esquerdo, empurro o peito dele com as minhas m\u00e3os. Minhas unhas vermelhas sobre pelos grisalhos, a camisa aberta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Espera \u2013 digo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 dif\u00edcil afastar meu corpo; o dele, rente, me pressiona, n\u00e3o \u00e9 que use da for\u00e7a, nem precisa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Quero me virar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele recua o m\u00ednimo necess\u00e1rio para que eu possa girar sobre os calcanhares, sorri, sinto uma fisgada no calc\u00e2neo, dou as costas. Estamos na varanda do nosso quarto no 13\u00b0 andar do hotel. Sempre o mesmo quarto, no mesmo hotel, o mesmo homem, h\u00e1 cinco anos. Sou sua amante. Imprensada entre o seu peito e o parapeito, vejo a cidade l\u00e1 embaixo. Presa como num sonho ruim no qual sei que sonho, mas n\u00e3o consigo acordar, calculo: cada andar tem em m\u00e9dia tr\u00eas metros; tr\u00eas vezes treze, trinta e nove. Ou\u00e7o um sussurro \u2013 \u201crespira!\u201d \u2013 e o som vem da minha pr\u00f3pria boca.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Precisamos conversar \u2013 digo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sinto uma m\u00e3o espalmada nas minhas costas, a outra, na nuca, o membro \u2013 ereto \u2013 entre as minhas n\u00e1degas. O tronco contra o meu, que se inclina cada vez mais para fora do parapeito \u00e0 altura do meu umbigo. Treze andares vezes cinco anos, sexo no carro, em banheiros, no hotel, a minha esperan\u00e7a, euforias e decep\u00e7\u00f5es. Aos meus ultimatos, seguiram-se res- postas esquivas, promessas n\u00e3o cumpridas, pedidos de tr\u00e9gua, amea\u00e7as, e sempre, sempre: o eu te amo. Quero anunciar a minha retirada do campo de batalha, a capitula\u00e7\u00e3o. Engulo, calculo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Fala.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O bafo quente bem pr\u00f3ximo ao meu ouvido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 \u00c9 que&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os dentes no gl\u00f3bulo da minha orelha, uma mordidinha, o bico do meu seio se crispa.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Ai&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A m\u00e3o grande, h\u00e1bil, sabedora de mim, desliza e se coloca em concha por cima do seio, apalpa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Que tal mais um champanhe?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Por que n\u00e3o? \u2013 respondo, preciso respirar. Ele me solta, enfim, vai pedir a bebida. Ou\u00e7o-o ao telefone, pede a marca mais cara. A camareira chega rapidamente, ele a chama pelo nome escrito no crach\u00e1, olhando nos seus olhos, muito obrigado, Suely, pode ficar com o troco. Um homem gentil e charmoso. Observo-o abrir a garrafa. Ele deixa a rolha voar, ri muito, p\u00f5e a bebida nas duas ta\u00e7as e vem na minha dire\u00e7\u00e3o, o andar levemente inclinado para frente, os ombros balan\u00e7ando, os passos firmes. Foi assim que o vi pela primeira vez, caminhando em minha dire\u00e7\u00e3o. Foi na empresa em que eu trabalho como recepcionista. Est\u00e1vamos \u00e0 sua espera, eu disse. Ele entrou, demorou-se l\u00e1 dentro e voltou com seu sempre-sorriso. Passou a aparecer e a sorrir com frequ\u00eancia. Falava baixo, se olhava para o meu corpo, fazia-o com discri\u00e7\u00e3o, mas de forma a eu notar que o fazia discretamente. Ent\u00e3o, o seu cart\u00e3o de visitas com um n\u00famero privado de celular escrito atr\u00e1s, na minha m\u00e3o. Retribu\u00ed com o meu. Uma chamada e um convite para jantar. Deduzi que vivia sozinho. Era bonito, bem- -sucedido, educado, por que n\u00e3o? J\u00e1 v\u00e3o cinco anos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enganei-me, por\u00e9m, era casado. Apesar disso, a noite foi agrad\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Ent\u00e3o, voc\u00ea quer conversar \u2013 ele deixa as ta\u00e7as sobre a mesa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Quero.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Eu te amo \u2013 e aperta o corpo contra o meu. Pensei ser uma quest\u00e3o de tempo, de paci\u00eancia. N\u00e3o que n\u00e3o me trate bem, pelo contr\u00e1rio. Mas chega uma hora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 N\u00e3o posso mais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O homem segura a minha cabe\u00e7a contra o seu peito, abafa minha fala.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 N\u00e3o diga isso \u2013 sussurra. Ele nunca eleva a voz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Fica quietinha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Eu te amo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nunca age precipitadamente. Talvez n\u00e3o tenha no\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria for\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Eu te amo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do pr\u00f3prio peso quando deita o corpo inteiro sobre o meu corpo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Vai ficar tudo bem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 N\u00e3o posso mais esperar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Mas por que n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A voz agora, ainda mais baixa, enternecida, quase como um \u00faltimo aceno sobre o parapeito, como s\u00e3o bonitas as luzes da cidade l\u00e1 embaixo, murmura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Eu te amo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O quadril se encaixa entre as minhas pernas, sinto a barra do corrim\u00e3o contra minhas costas, um material frio, provavelmente a\u00e7o ou ferro. Os bra\u00e7os peludos e musculosos, os bra\u00e7os s\u00e1bios, apoiados firmes dos dois lados do meu corpo, na minha cintura, quase me erguem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013 Voc\u00ea est\u00e1 me&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele pede desculpas, foram desculpas?, mas continua me empurrando, eu disse \u201cempurrando?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a mulher dele me ligou, pedindo um encontro, achei que algo ia entrar em movimento, me preparei para tudo. Menos para aquela eleg\u00e2ncia. Ela n\u00e3o devia estar muito bem, mas n\u00e3o deixou transparecer. Convidou para um drink num bom restaurante, as unhas tamb\u00e9m vermelhas, por\u00e9m num tom um pouco mais suave do que as minhas. A desenvoltura com os nomes dos coquet\u00e9is no card\u00e1pio, a cabe\u00e7a levemente inclinada para o gar\u00e7om, o sorriso. N\u00e3o me ofendeu, n\u00e3o exigiu nem ofereceu nada, e foi justamente aquela superioridade o que mais me humilhou. Ficou claro que nunca poderei tomar o seu lugar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu corpo agora pende mais da metade para fora. Puxo o ar com a boca escancarada, engasgo, sinto a m\u00e3o se enfiando pela minha saia e vejo uma perna j\u00e1 a meio caminho do ar. \u00c9 minha, essa perna?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o tenho mais interesse por sexo, ela me disse, bebericando seu drink. N\u00e3o por sexo com homens. O olhar pousado em mim, emancipado, suave.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, era isso, o sexo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A outra tenta se enroscar nas do meu amante, mas n\u00e3o as encontra. Um p\u00e9 esbarra na barra de metal, o sapato escarpin de couro vermelho \u2013 presente dele \u2013 escorrega e voa num arco, mas n\u00e3o ou\u00e7o o ru\u00eddo do baque porque tamb\u00e9m voo. Assim como n\u00e3o ou\u00e7o a voz, mas sei que ele repete, vai repetir para sempre, Eu te amo, leio os seus l\u00e1bios que se afastam dos meus, a \u00faltima coisa que vejo: esses l\u00e1bios entreabertos formando as tr\u00eas palavras.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sempre achei que iria pensar em minha filha na hora da minha morte. Que ia me preocupar por deix\u00e1-la sozinha, entristecer-me por ela. Mas n\u00e3o. Penso \u00e9 num professor de F\u00edsica do gin\u00e1sio, eu tinha a idade que ela tem hoje. Achava que era apaixonada por ele, por seus cabelos enrolados, sua voz suave. Gosto de homens que falam baixo. Transamos num hotel no centro da cidade, muito parecido com esse, ali\u00e1s, foi a minha primeira vez. Galileu Galilei provou que dois corpos abandona- dos da mesma altura chegam ao solo ao mesmo instante, ou\u00e7o a voz do professor sussurrando ao meu ouvido. O tempo de queda \u00e9 igual, a despeito das diferentes massas, todos os corpos sofrem acelera\u00e7\u00e3o da gravidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o chegarei l\u00e1 embaixo junto com o meu sapato, calculo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu amante \u00e9 praticante de paraquedismo. Uma vez, ele me disse: \u00e9 dif\u00edcil transmitir o que se sente no momento da queda. A cabe\u00e7a vai a mil, os pensamentos ficam confusos, voc\u00ea sente um medo profundo e imensa satisfa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Realmente, \u00e9 muito bom.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Publicado originalmente em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Todas Umas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Rio de Janeiro: Confraria dos Ventos, 2022)<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Leandro Pereira, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del editor: Publicamos este texto en el portugu\u00e9s original y en traducci\u00f3n al ingl\u00e9s. Despl\u00e1zate hacia abajo para leer en portugu\u00e9s, y haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s. Engulo. O eu te amo. Vem junto: ar com um resto de champanhe e saliva. 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