{"id":4138,"date":"2020-11-11T18:58:14","date_gmt":"2020-11-12T00:58:14","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2020\/11\/poems-menino-do-mato-manoel-de-barros\/"},"modified":"2023-06-02T13:31:56","modified_gmt":"2023-06-02T19:31:56","slug":"poems-menino-do-mato-manoel-de-barros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2020\/11\/poems-menino-do-mato-manoel-de-barros\/","title":{"rendered":"Poemas de Menino do Mato de Manoel de Barros"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p>Nota del editor: Este texto est\u00e1 publicado en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz clic en &#8220;English&#8221; para leer en ingl\u00e9s.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>I.<\/strong><\/p>\n<p>Eu queria usar palavras de ave para escrever.<br \/>\nOnde a gente morava era um lugar imensamente e sem nomea\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAli a gente brincava de brincar com as palavras<br \/>\ntipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra!<br \/>\nA M\u00e3e que ouvira a brincadeira falou:<br \/>\nJ\u00e1 vem voc\u00ea com suas vis\u00f5es!<br \/>\nPorque formigas nem t\u00eam joelhos ajoelh\u00e1veis<br \/>\ne nem h\u00e1 pedras de sacristia por aqui.<br \/>\nIsso \u00e9 traquinagem da sua imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO menino tinha no olhar um sil\u00eancio de ch\u00e3o<br \/>\ne na sua voz uma candura de Fontes.<br \/>\nO Pai achava que a gente queria desver o mundo<br \/>\npara encontrar nas palavras novas coisas de ver<br \/>\nassim: eu via a manh\u00e3 pousada sobre as margens do<br \/>\nrio do mesmo modo que uma gar\u00e7a aberta na solid\u00e3o de uma pedra.<br \/>\nEram novidades que os meninos criavam com suas palavras.<br \/>\nAssim Bernardo emendou nova cria\u00e7\u00e3o: Eu hoje vi um<br \/>\nsapo com olhar de \u00e1rvore.<br \/>\nEnt\u00e3o era preciso desver o mundo para sair daquele<br \/>\nlugar imensamente e sem lado.<br \/>\nA gente queria encontrar imagens de aves aben\u00e7oadas pela inoc\u00eancia.<br \/>\nO que a gente aprendia naquele lugar era s\u00f3 ignor\u00e2ncias<br \/>\npara a gente bem entender a voz das \u00e1gua e<br \/>\ndos carac\u00f3is.<br \/>\nA gente gostava das palavras quando elas perturbavam<br \/>\no sentido normal das ideias.<br \/>\nPorque a gente tamb\u00e9m sabia que s\u00f3 os absurdos<br \/>\nenriquecem a poesia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>IV.<\/strong><\/p>\n<p>Lugar mais bonito de um passarinho ficar \u00e9 a palavra.<br \/>\nNas minhas palavras ainda viv\u00edamos meninos do mato,<br \/>\num tonto e mim.<br \/>\nEu vivia embara\u00e7ado nos meus escombros verbais.<br \/>\nO menino caminhava incluso em passarinhos.<br \/>\nE uma \u00e1rvore progredia em ser Bernardo.<br \/>\nAli at\u00e9 santos davam flor nas pedras.<br \/>\nPorque todos est\u00e1vamos abrigados pelas palavras.<br \/>\nUs\u00e1vamos todos uma linguagem de primavera.<br \/>\nEu viajava com as palavras ao modo de um dicion\u00e1rio.<br \/>\nA gente bem quisera escutar o sil\u00eancio do orvalho<br \/>\nsobre as pedras.<br \/>\nTu bem quiser tamb\u00e9m saber que os passarinhos<br \/>\nsabem sobre os ventos.<br \/>\nA gente s\u00f3 gostava de usar palavras de aves porque<br \/>\neram palavras aben\u00e7oadas pela inoc\u00eancia.<br \/>\nBernardo disse que ouvira um vento quase encostado<br \/>\nnas vestes da tarde.<br \/>\nEu sonhava de escrever um livro com a mesma<br \/>\ninoc\u00eancia com que as crian\u00e7as fabricam seus navios<br \/>\nde papel.<br \/>\nEu queria pegar com as m\u00e3os no corpo da manh\u00e3.<br \/>\nPorque eu achava que a vis\u00e3o fosse um ato po\u00e9tico<br \/>\ndo ver.<br \/>\nTu n\u00e3o gostaste do caminho comum das palavras.<br \/>\nAntes melhor eu gostasse dos absurdos.<br \/>\nE se eu fosse um caracol, uma \u00e1rvore, uma pedra?<br \/>\nE se eu fosse?<br \/>\nEu n\u00e3o queria ocupar o meu tempo usando palavras<br \/>\nbichadas de costumes.<br \/>\nEu queria mesmo descer o mundo. Tipo assim: eu vi<br \/>\num urubu dejetar nas vestes da manh\u00e3.<br \/>\nIsso n\u00e3o seria de expulsar o t\u00e9dio?<br \/>\nE como eu poderia saber que o sonho do sil\u00eancio era<br \/>\nser pedra!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>V.<\/strong><\/p>\n<p>O lugar onde a gente morava quase s\u00f3 tinha bicho<br \/>\nsolid\u00e3o e \u00e1rvores.<br \/>\nMeu av\u00f4 namorava a solid\u00e3o.<br \/>\nEle era um floril\u00e9gio de abandono.<br \/>\nDe tudo que me restou sobre aquele av\u00f4 foi esta<br \/>\nimagem: ele deitado na rede com a sua namorada, mas<br \/>\nse a gente o retirasse da rede por alguma necessidade,<br \/>\na solid\u00e3o ficava destampada.<br \/>\nOh, a solid\u00e3o destampada!<br \/>\nEssa imagem da solid\u00e3o que ficara dentro de mim por anos.<br \/>\nAh, o pai! O pai vaquejava e vaquejava.<br \/>\nEle tinha um olhar soberbo de ave.<br \/>\nE nos ensinava a liberdade.<br \/>\nA gente ent\u00e3o sa\u00eda vagabundeando pelos matos sem aba.<br \/>\nChegou que alcan\u00e7amos a beira de um rio.<br \/>\nA manh\u00e3 estava pousada na beira do rio desaperta moda<br \/>\num p\u00e1ssaro.<br \/>\nNessa hora j\u00e1 o morro encostava no sol.<br \/>\nLogo adiante vimos um quati a lamber um osso de ema.<br \/>\nA tarde crescia por dentro do mato.<br \/>\nO lugar nos perdera de rumo.<br \/>\nA gente se sentia como uma peda\u00e7o de formiga perdida<br \/>\nna estrada.<br \/>\nBernardo completava o abandono.<br \/>\nLogo encontramos uma criame de carac\u00f3is nas areias<br \/>\ndo rio.<br \/>\nQuase todos os carac\u00f3is eram vi\u00favos de suas lesmas.<br \/>\nContam que os urubus, fin\u00f3rios, desciam naquele lugar<br \/>\npara degustar as lesmas ainda vivas.<br \/>\nSe diz ainda que este recanto teria sido um peda\u00e7o do<br \/>\nMar de Xarai\u00e9s.<br \/>\nNa beira da noite a gente estava sem rumo.<br \/>\nBernardo apareceu e disse que vento \u00e9 cavalo.<br \/>\nEnt\u00e3o montamos na garupa do vento e logo chegamos<br \/>\nem casa.<br \/>\nA m\u00e3e aflit\u00edssima estava.<br \/>\nEla cuidava de todos: lavava, passava e cozinhava<br \/>\npara todos.<br \/>\nPor\u00e9m \u00e0 noite a m\u00e3e ainda encontrava uma horinha<br \/>\npara o seu violino.<br \/>\nEla tocava para n\u00f3s Vivaldi.<br \/>\nE a gente ficava pendurado em l\u00e1grimas.<br \/>\nUm dia que outro eu contei para a M\u00e3e que tinha visto<br \/>\num passarinho a mastigar um peda\u00e7o de vento. A M\u00e3e<br \/>\ndisse outra vez: J\u00e1 vem voc\u00ea com suas vis\u00f5es! Isso \u00e9<br \/>\ntravessura da sua imagina\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 a voz de Deus que habita nas crian\u00e7as, nos passarinhos<br \/>\ne nos tontos.<br \/>\nA inf\u00e2ncia da palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>18.<\/strong><\/p>\n<p>Bernardo armou sua barraca na beira<br \/>\nde um sapo.<br \/>\nEle era beato de sapo.<br \/>\nNatureza retrata ele.<br \/>\nBernardo \u00e9 criador.<br \/>\nEle viu um passarinho sentado no ombro do arrebol.<br \/>\nLagarto encostava nele para dormir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>25.<\/strong><\/p>\n<p>Ponho por caso um tonto.<br \/>\nUm que natureza progredisse<br \/>\npara \u00e1rvore.<br \/>\nUm que vadiasse de ave como<br \/>\nas pedras vadiam de orvalho.<br \/>\nUm que soubesse de flor<br \/>\ncomo as abelhas sabem.<br \/>\nIsso isso!<br \/>\nEra um tonto que quisesse<br \/>\nadquirir uma linguagem de r\u00e3.<br \/>\nPara se escrever em r\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\">De\u00a0<em>Menino do Mato<\/em>. Editora Alfaguara, Rio de Janeiro, 2015.<\/p>\n<h5 dir=\"ltr\">Foto: Ponte, Nova Roma do Sul, Brasil, por <a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@nandovish\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernando Brasil, Unsplash<\/a>.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu queria usar palavras de ave para escrever. \/ Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem nomea\u00e7\u00e3o.&nbsp; \/ Ali a gente brincava de brincar com as palavras \/ tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra! \/ A M\u00e3e que ouvira a brincadeira falou: \/ J\u00e1 vem voc\u00ea com suas vis\u00f5es!<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":4135,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2995,4448],"genre":[2024],"pretext":[],"section":[2392],"translator":[],"lal_author":[3400],"class_list":["post-4138","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","tag-brazil-es","tag-numero-16","genre-brazilian-literature-es","section-brazilian-literature-es","lal_author-manoel-de-barros-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4138","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4138"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4138\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4135"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4138"},{"taxonomy":"genre","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/genre?post=4138"},{"taxonomy":"pretext","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/pretext?post=4138"},{"taxonomy":"section","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/section?post=4138"},{"taxonomy":"translator","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/translator?post=4138"},{"taxonomy":"lal_author","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/lal_author?post=4138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}