{"id":36530,"date":"2024-09-23T11:01:35","date_gmt":"2024-09-23T17:01:35","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=36530"},"modified":"2024-09-25T16:25:41","modified_gmt":"2024-09-25T22:25:41","slug":"trecho-de-puro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2024\/09\/trecho-de-puro\/","title":{"rendered":"Trecho de Puro"},"content":{"rendered":"<p><b>Nota del editor:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00e3o tr\u00eas mulheres velhas que moram em uma casa grande, tamb\u00e9m velha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 no casar\u00e3o um menino de mais ou menos quinze anos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00e1zaro n\u00e3o \u00e9 filho e nem neto de nenhuma delas. Estuda em casa. D\u00e1lia ensina religi\u00e3o e piano. Lob\u00e9lia ensina idiomas. Alp\u00ednia ensina culin\u00e1ria e no\u00e7\u00f5es de anatomia. O volume do r\u00e1dio est\u00e1 sempre alto para as velhas escutarem m\u00fasica e, dizem as crian\u00e7as pela cidade, abafar as vozes do s\u00f3t\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cidade se chama Santa Gra\u00e7a \u2013 refer\u00eancia de virtude e limpeza no territ\u00f3rio nacional. No futuro, negrinho ou doente nenhum foi visto ali.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdCARO ATRAVESSA O OCEANO<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Brasil, d\u00e9cada de 30<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00e1zaro grita:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lava a m\u00e3o, \u00cdris, esfrega. Lava direito pra ver se o preto sai.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdris pensa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Menino mentiroso. L\u00e1zaro fala que veio da Alemanha, mas a velha Alp\u00ednia diz que o moleque n\u00e3o \u00e9 muito confi\u00e1vel e sua origem \u00e9 mais local e precisa: Tr\u00eas Vendas, zona rural de Santa Gra\u00e7a. A m\u00e3e dele, que ningu\u00e9m conheceu, largou a crian\u00e7a na rua. Uma vez, D\u00e1lia e Lob\u00e9lia passavam no povoado para comprar marmelo da fazenda Bela Vista, se depararam com um embrulho de fiapos dentro de balaio. Era o menino muito branco. Olharam para os lados. O ar seguro. Seco. Ningu\u00e9m. Tarde firme. Ningu\u00e9m em lugar nenhum debaixo do calor intenso e alaranjado. Sentaram-se na soleira da capela e esperaram quase a tarde toda que algu\u00e9m chamasse pelo menino. Foi assim que nasceu o L\u00e1zaro. Nasceu de ningu\u00e9m querer.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era branco feito nuvem e era raro achar crian\u00e7a pura assim sem pai e m\u00e3e. Sobrava era pretinho sem fam\u00edlia. Isso tinha aos montes. Andavam em bandos pedindo restos de comida e \u00e1gua nas casas das fam\u00edlias ricas de Santa Gra\u00e7a. Foi assim que eu cresci, foi assim que cresceu o monte de menino do Mata Cavalo e assim teria crescido o meu Joaquim, se tivesse vingado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Numa segunda-feira, depois do menino \u00cdcaro voltar da escola, ele se pendurou na varanda do quarto da m\u00e3e dele e viu passar uns quatro, cinco meninos que pararam no casar\u00e3o. Gente minha: roupas ajambradas em tom alaranjado de terra batida. Pediam um copo d\u2019\u00e1gua. Aqui na casa do \u00cdcaro eu n\u00e3o posso abrir a porta pra eles, a av\u00f3 do \u00cdcaro n\u00e3o me deixa. Quando me veem da grade, gritam meu nome para buscar p\u00e3o velho. Se eu for, dona Rosa me manda embora. O \u00cdcaro e os pretinhos n\u00e3o podem nem conversar. Dona Rosa e a m\u00e3e do menino, a dona Ondina, ensinaram que os negrinhos entravam na casa dos outros para roubar. Eram diferentes dos ciganos que entravam para ler a nossa m\u00e3o e nos contar sobre o futuro; roubavam e a gente nem se dava conta. Os meninos de cor, preciso fosse, batiam nos outros e levavam as coisas compradas com tanto sacrif\u00edcio. A dona Rosa dizia tamb\u00e9m que eram pregui\u00e7osos porque se eles que eram brancos estudavam e trabalhavam para conseguir os confortos da vida, por que os pretos n\u00e3o faziam o mesmo?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tenho sa\u00fade e agrade\u00e7o ao Deus Pai a cada noite. Tenho tamb\u00e9m vontade de matar a dona Rosa. Padre Arcanjo me ensinou a rezar para Deus e Jesus. \u00c9 um santo homem; me ensinou tamb\u00e9m a n\u00e3o me entristecer por servir os outros. Tudo \u00e9 vontade de Deus e Ele sabe o que faz. Pertence a mim o reino dos c\u00e9us. Padre Arcanjo me lembrava da vida boa que eu tinha. Minhas av\u00f3s de certo foram escravas e, gra\u00e7as a Deus, tudo melhorou muito.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sa\u00ed da janela para que os meninos n\u00e3o me vissem e espiei quando bateram palma e tocaram a campainha das tr\u00eas bruxas. \u00cdcaro l\u00e1, de olho neles. Coitado, queria era brincar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lob\u00e9lia abriu a porta. Fez sinal para esperarem na varanda e vi quando chamou algu\u00e9m de casa. D\u00e1lia foi at\u00e9 a varanda, deu batidinhas leves nas cabe\u00e7as dos meninos que abriram a boca e mostraram os dentes, mas n\u00e3o era sorriso.\u00a0 Alp\u00ednia chegou com \u00e1gua e biscoito e uma toalha que D\u00e1lia usou para limpar as m\u00e3os depois de encostar nas crian\u00e7as. Ela mandou que voltassem no dia seguinte para comerem p\u00e3o, mesmo hor\u00e1rio. Os meninos desceram os degraus da varanda que dava para a rua. Pareciam alegres. As m\u00e3os sujas de terra agarravam os caramelos pretos que ganharam, aqueles com gosto de queimado, que grudam nos dentes. Um dos pretinhos achou o \u00cdcaro. Ele sorriu seus dentes todos, os mesmos que tinha mostrado h\u00e1 pouco \u00e0s donas do casar\u00e3o. \u00cdcaro teve medo, n\u00e3o do menino, mas da av\u00f3 ver ele sorrir pro moleque. Ele se escondeu atr\u00e1s da cortina. Uma pontada bem perto da orelha direita. Olhei para o ch\u00e3o. Procurei o neguinho. Ele sorriu de novo, abanou a m\u00e3o e foi embora. Apanhei do sinteco encerado o caramelo que ele jogou pro \u00cdcaro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ter\u00e7a, quarta e quinta a mesma coisa se repetiu. Os meninos do Mata Cavalo batiam na porta do casar\u00e3o, Alp\u00ednia ou Lob\u00e9lia davam p\u00e3o e \u00e1gua. D\u00e1lia dava leves batidas nas cabe\u00e7as deles, enchia-lhes as m\u00e3os sujas de caramelos e eles iam embora. O mesmo menino que jogou a bala para \u00cdcaro, jogou v\u00e1rios outros at\u00e9 chegar sexta-feira que foi quando eu vi pela \u00faltima vez o menino da Ester.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdcaro pensa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A \u00cdris lava prato, lava roupa, lava o ch\u00e3o e a m\u00e3o dela continua preta. Ela esfrega a trouxa no tanque, \u00e1gua sanit\u00e1ria no ch\u00e3o da varanda. N\u00e3o adianta: a m\u00e3o dela \u00e9 sempre preta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu vi que o menino dos caramelos e mais quatro bateram palma no casar\u00e3o e dessa vez entraram. Eram quase sete da noite e o cheiro da sopa vindo do casar\u00e3o era sinal de que os meninos tinham sido convidados a se sentarem \u00e0 mesa, comer feito gente. Talvez um naco de p\u00e3o fresco para acompanhar o creme de milho que eu cheirava da varanda do quarto da m\u00e3e.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu me pendurei na janela at\u00e9 \u00e0s oito quando a m\u00e3e me gritou que a janta estava pronta. Das sete at\u00e9 \u00e0s oito nem sinal deles. Deviam estar se enchendo de comida de verdade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Custei a dormir. A rua calada j\u00e1 h\u00e1 horas e eu sem conseguir pegar no sono. Pensava no menino do caramelo; preto n\u00e3o podia ser meu amigo. A v\u00f3 nunca que ia deixar. Nem a m\u00e3e e nem o pai. Durante a semana brincamos de arremessar caramelo um para o outro, ele l\u00e1 e eu aqui. Olhei debaixo da cortina, por todo o ch\u00e3o de sinteco alaranjado, mas n\u00e3o achei nada.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os patos do casar\u00e3o fizeram barulho e j\u00e1 era tarde. Esgoelavam como se algu\u00e9m roubasse a casa. Mas nada acontecia em Santa Gra\u00e7a. Aquilo era s\u00f3 o cachorro com raiva ou com fome. Latido forte que demorou quase meia hora para cessar. Quando o bicho terminou de latir, dormi.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">L\u00e1zaro diz:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A \u00cdris lava prato, lava roupa, lava o ch\u00e3o e a m\u00e3o dela continua preta. Ela esfrega a trouxa no tanque, \u00e1gua sanit\u00e1ria no ch\u00e3o da varanda. N\u00e3o adianta: a m\u00e3o dela \u00e9 preta e suja.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Minha m\u00e3e de sangue era alem\u00e3. Me deu porque n\u00e3o tinha marido. Padre Arcanjo pediu para as tr\u00eas velhas me olharem e me criarem. Meu sangue \u00e9 puro, basta me olhar. N\u00e3o quero brincar com o \u00cdcaro porque ele \u00e9 retardado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dona Rosa manda<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vai brincar com o L\u00e1zaro, \u00cdcaro. Menino bonzinho. A \u00cdris n\u00e3o pode te olhar. Ela tem que limpar a casa, lavar os banheiros, fica toda suja. N\u00e3o vai encostar nela, meu filho. Deus fez cada um de uma cor que \u00e9 para que a gente saiba diferenciar o papel de cada um. E a gente n\u00e3o vai brigar com Deus. Onde j\u00e1 se viu?<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olavo explica:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sou louco pelo meu filho. \u00cdcaro \u00e9 um menino bom, mas tem muitas limita\u00e7\u00f5es. Alguma coisa gen\u00e9tica que a gente n\u00e3o sabe explicar. Eu e a Ondina fazemos tudo por esse menino e queremos que ele tenha uma vida normal. Ele vai \u00e0 escola. \u00c9 muito querido pelos alunos. N\u00e3o sei se sentem pena dele, aquela coisa das pernas bambas que ele tem, coitado do meu filho. Mas as outras crian\u00e7as normais adoram o \u00cdcaro. A gente sente s\u00f3 de ver a carinha dele. Deus \u00e9 pai todo poderoso e nos deu esse menino para cuidar. Temos muitos gastos com o \u00cdcaro, os rem\u00e9dios s\u00e3o caros, mas valem cada centavo para v\u00ea-lo melhor. A Ondina \u00e9 uma companheira \u00fanica. Tirei a sorte grande. Fomos aben\u00e7oados com \u00cdcaro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olavo pensa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como essa crian\u00e7a baba, trope\u00e7a, me d\u00e1 vergonha. Voa, \u00cdcaro, voa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdcaro pensa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De casa, todos os s\u00e1bados, ao meio-dia, a rua inteira ouve as aulas de piano do L\u00e1zaro. Emenda piano com canto e a li\u00e7\u00e3o chega a durar uma hora e meia. \u00c9 tamb\u00e9m a hora em que o cachorro enlouquece. Piano, latido, canto atravessam a rua. Do meu quarto d\u00e1 pra sentir tremer o ch\u00e3o. O rel\u00f3gio bate uma e meia e volta \u00e0 casa o sil\u00eancio. O som alto vindo da casa me incomoda. Quando fica dif\u00edcil ouvir tanta confus\u00e3o, eu bato a cabe\u00e7a na parede para ver se sai aquele barulho todo de mim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sem escola para ir naquele dia, passei o tempo todo na janela procurando ver os meninos do caramelo. Nada. Devem ter sa\u00eddo do casar\u00e3o enquanto eu jantava. Nos desencontramos. \u00cdris tamb\u00e9m n\u00e3o viu quando sa\u00edram. Talvez passassem por ali depois das seis. Era certo que sentiriam fome e sede e bateriam as campainhas das casas at\u00e9 algu\u00e9m dar a eles um resto de comida. O menino do olho preto brilhante me procuraria e jogaria no ch\u00e3o do quarto da m\u00e3e, mais um caramelo para a gente brincar.\u00a0 Mas ele n\u00e3o passou nem \u00e0s seis, nem \u00e0s sete, nem hora nenhuma.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No casar\u00e3o, um cheiro forte de comida. Cozinhavam a carne de domingo. As tr\u00eas irm\u00e3s cozinhavam juntas. Dava para ver do quarto dos fundos da minha casa, uma ponta do fog\u00e3o \u00e0 lenha delas. Potes enormes. O fogo constante, uma fun\u00e7\u00e3o sem fim de comida, talheres, ervas colhidas no quintal. A cozinha era escura, velha. Todo domingo faziam carnes temperadas, arom\u00e1ticas, corte de primeira como Alp\u00ednia mesma dizia quando me via na janela dos fundos olhando a vida deles.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ondina pensa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todo domingo, antes de almo\u00e7ar, as tr\u00eas vizinhas do casar\u00e3o v\u00e3o \u00e0 missa. Eu tamb\u00e9m vou. Olavo e mam\u00e3e me acompanham. Levamos o \u00cdcaro porque meu menino precisa muito de ora\u00e7\u00e3o. Nossa Senhora dos Milagres h\u00e1 de interceder e dar a ele as pernas fortes que ele merece, uma fala clara e l\u00edmpida, a cabe\u00e7a certa, tadinho.\u00a0 Compartilhamos o p\u00e3o que \u00e9 o corpo de Cristo e engolimos o bolo empapado que vira a h\u00f3stia depois de breve prece. Deus que me perdoe, mas aquilo me embrulha o est\u00f4mago desde o catecismo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">V\u00e3o as velhas e o menino L\u00e1zaro. Voltam as velhas, L\u00e1zaro e o padre Arcanjo que almo\u00e7a no casar\u00e3o todos os domingos sem falta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O domingo inteiro passa e o padre Arcanjo sai do casar\u00e3o \u00e0s quatro da tarde. Carrega uma bolsa e uma marmita. As velhas do casar\u00e3o o mimam o quanto podem. S\u00e3o muito devotas e mant\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o de estreita amizade com o padre. De vez em quando, padre Arcanjo leva o L\u00e1zaro com ele para a igreja. Quando coincide de eu estar na varanda e ver eles sa\u00edrem, o padre explicava que L\u00e1zaro toma aulas de Latim com ele e domingo \u00e0 tarde, hor\u00e1rio de folga das rezas.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ondina comenta:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aulas de latim&#8230; Sei.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdris faz<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Caf\u00e9 pro Olavo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olavo olha<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdris lava a colher ensaboada pra cima, pra baixo, pra cima, pra baixo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00cdcaro pensa:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquele domingo, esperei mais uma vez que os meninos da rua fossem no casar\u00e3o pedir comida, mas n\u00e3o foram. Meus pais insistiam para que eu brincasse com L\u00e1zaro esquisito. Dizia ser m\u00e9dico e cortava bichos pela metade. Costurava e colava pernas de aranhas em corpo de formiga. Tinha tamb\u00e9m uma cole\u00e7\u00e3o de ossos que ele encontrava debaixo da terra. Lob\u00e9lia contava que antes de comprar o terreno do casar\u00e3o, ali tinha sido um cemit\u00e9rio de cachorros. Mas aquilo era hist\u00f3ria para assustar crian\u00e7a. O que tinha debaixo da terra era gente mesmo que h\u00e1 muitos anos estava enterrada virando adubo e lenda. L\u00e1zaro achava ossos e constru\u00eda esqueletos de seres imagin\u00e1rios. Monstros que ele via.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 noite, l\u00e1 pelas seis, o cachorro latiu com toda a sua for\u00e7a. O r\u00e1dio em volume m\u00e1ximo por causa das velhas surdas. Uma hora depois, sil\u00eancio. A calada do in\u00edcio da noite de domingo foi quebrada com o ranger do port\u00e3o de ferro coberto por lodo e ferrugem. Padre Arcanjo trazia L\u00e1zaro de volta. Elogiou o progresso do menino no Latim e avisou que L\u00e1zaro j\u00e1 estava de banho tomado. O menino tinha se deliciado com doce de leite e se lambuzado mais que o aceit\u00e1vel para um rapazinho daquele porte. O santo padre sugeriu, ent\u00e3o, que se limpasse na casa paroquial antes de voltar para casa. Sem mais conversa, Alp\u00ednia se despediu do padre que subiu o morro segurando a batina para n\u00e3o trope\u00e7ar, cabe\u00e7a baixa, sempre humilde.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fui dormir sem me esquecer do menino do caramelo. O menino que, pelo jeito, estava desaparecido.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fragmento de la novela <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Puro<\/span><\/i><\/h5>\n<h6 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, 2023; Todavia, 2024<\/span><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: center;\"><span class=\"s1\">\t\t<div data-elementor-type=\"page\" data-elementor-id=\"36702\" class=\"elementor elementor-36702 elementor-36698\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"has_ae_slider elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-2f32464 elementor-section-content-middle elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default ae-bg-gallery-type-default\" data-id=\"2f32464\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"has_ae_slider elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-0c361a2 ae-bg-gallery-type-default\" data-id=\"0c361a2\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7bf5823 elementor-align-center elementor-widget__width-initial elementor-widget elementor-widget-button\" data-id=\"7bf5823\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"button.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-button-wrapper\">\n\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-button elementor-button-link elementor-size-sm\" href=\"https:\/\/bookshop.org\/lists\/issue-31\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\n\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-button-content-wrapper\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-button-text\">COMPRA LOS LIBROS DESTACADOS EN ESTE N\u00daMERO EN NUESTRA P\u00c1GINA DE BOOKSHOP<\/span>\n\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Rafaela Biazi, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del editor: Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s. &nbsp; S\u00e3o tr\u00eas mulheres velhas que moram em uma casa grande, tamb\u00e9m velha. H\u00e1 no casar\u00e3o um menino de mais ou menos quinze anos.\u00a0 L\u00e1zaro n\u00e3o \u00e9 filho e nem neto de nenhuma delas. Estuda em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":36315,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[2886],"tags":[5093],"genre":[],"pretext":[],"section":[],"translator":[],"lal_author":[3477],"class_list":["post-36530","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-brasilena","tag-numero-31","lal_author-nara-vidal-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36530","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=36530"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36530\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":37177,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/36530\/revisions\/37177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/36315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=36530"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=36530"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=36530"},{"taxonomy":"genre","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/genre?post=36530"},{"taxonomy":"pretext","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/pretext?post=36530"},{"taxonomy":"section","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/section?post=36530"},{"taxonomy":"translator","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/translator?post=36530"},{"taxonomy":"lal_author","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/lal_author?post=36530"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}