{"id":34713,"date":"2024-06-11T13:01:21","date_gmt":"2024-06-11T19:01:21","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=34713"},"modified":"2024-06-26T02:35:10","modified_gmt":"2024-06-26T08:35:10","slug":"pai-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2024\/06\/pai-preto\/","title":{"rendered":"Pai preto"},"content":{"rendered":"<p><b>Nota del editor: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><i><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\nPara ele<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu pai \u00e9 preto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu tinha onze, fomos morar na adolesc\u00eancia dele, do lado do campinho das peladas, no Morro Dunga, Jardim M\u00edriam. Ele saiu de l\u00e1 ainda tinha black power, mas quando eu fiz onze ele j\u00e1 era calvo, botava a culpa em mim e eu ria at\u00e9 ficar vermelha. Eu indo para a escola passava na frente e via a adolesc\u00eancia do meu pai gritando para passarem a bola no campinho, \u201ca gente era uns dez, o Tavinho est\u00e1 vivo\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu pai trabalhava no centro de S\u00e3o Paulo desde muito antes de conseguir parcelar o gol branco, quadrado, que levava e trazia a gente do Guaruj\u00e1. Meu pai ia para o centro de \u00f4nibus, descia at\u00e9 a avenida Cupec\u00ea para pegar o primeiro, \u201cvoc\u00ea lembra da ditadura, pai?\u201d, \u201csim, naquela \u00e9poca eles pediam a carteira de trabalho antes de bater\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu perguntava da luta contra os militares e ele s\u00f3 me falava do frio nas orelhas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu perguntava das passeatas, dos segredos, mas ele falava das m\u00e3os dele congelando e doendo e dele n\u00e3o sentindo mais nada at\u00e9 a ponta, \u201cnas passeatas?\u201d, \u201cn\u00e3o, indo pro trabalho\u201d. O frio, um frio terr\u00edvel nas orelhas porque n\u00e3o podia usar touca, \u201cn\u00e3o podia usar porque voc\u00ea era comunista?\u201d, \u201cn\u00e3o, n\u00e3o era por isso\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O moleque meu pai ia trabalhar de madrugada, a cabe\u00e7a descoberta, as m\u00e3os cruzadas no peito, ia duro de frio pra n\u00e3o morrer de apanhar. Os l\u00e1bios mortos, a marmita tremendo na bolsa, um passo depois do outro tentando com raiva n\u00e3o desfazer o sil\u00eancio, \u201cfala, vagabundo, vai para onde essa hora?\u201d, \u201ctrabalhar, senhor\u201d, \u201ctrabalhar? Com essa cara de favelado?\u201d, \u201csim, senhor\u201d, \u201ccad\u00ea a carteira de trabalho?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O moleque meu pai n\u00e3o podia usar touca e nem enfiar a m\u00e3o no bolso, ele ia devagar e apontava o bolso da cal\u00e7a para n\u00e3o levar um tiro. Meu pai ainda n\u00e3o enfia as m\u00e3os no bolso, \u00e0s vezes ele \u00e9 s\u00f3 um moleque e quando caminhamos juntos at\u00e9 o mercadinho eu pergunto: \u201cn\u00e3o est\u00e1 com frio nas m\u00e3os, pai?\u201d, eu pergunto e ele esfrega uma m\u00e3o na outra, duas pedras tentando fazer fogo, \u201cnesse calor?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu pai \u00e9 preto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu tinha onze a gente ia pro Guaruj\u00e1 no gol branco, ia e voltava no mesmo dia, eu querendo sentar na frente e ele \u201cainda n\u00e3o\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A gente descia a Imigrantes e paravam a gente e olhavam o carro e pediam meu documento, \u201c\u00e9 sua filha?\u201d, \u201c\u00e9, parece comigo?\u201d, os policiais riam e eu ria tamb\u00e9m e o policial ficava s\u00e9rio olhando minha certid\u00e3o de nascimento. Devolvia o documento para o meu pai terminar de dobrar e falava que ele parecia algu\u00e9m, todas as vezes, \u201cum conhecido nosso, policial\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">[&#8212;-]<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dia eu tomei coragem e perguntei para o meu pai: \u201cpor que voc\u00ea sempre parece com algum policial?\u201d. Ele sorriu e eu nunca vi meu pai t\u00e3o triste.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu pai \u00e9 preto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu fiz treze e fomos morar na minha adolesc\u00eancia. Sentei no banco da frente com raiva, \u00edamos de novo para o Guaruj\u00e1, sempre o Guaruj\u00e1, \u201cn\u00e3o vai levar nada?\u201d, meu pai pergunta, \u201cj\u00e1 falei que n\u00e3o\u201d. O policial \u201cpara, para, para\u201d, sempre a mesma dan\u00e7a, o mesmo ped\u00e1gio, \u201c\u00e9 sua filha?\u201d, \u201c\u00e9\u201d, o policial olha o carro por dentro como um dentista, eu e meu pai dentro da boca aberta, \u201ccad\u00ea o documento?\u201d, olho para o meu pai, vim s\u00f3 com a roupa do corpo, o policial p\u00f5e a m\u00e3o na arma, \u201csai do carro\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu pai \u00e9 preto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O policial me chama e eu n\u00e3o entendo, \u201csenhorita?\u201d, eu vou com ele tremendo, eu n\u00e3o entendo, \u201ceu preciso que voc\u00ea fique calma e fique olhando pra mim, combinado?\u201d, eu n\u00e3o entendo, eu tento procurar os olhos do meu pai e pedir socorro e pedir desculpas mas o policial entra na frente, \u201cele n\u00e3o tem como ouvir voc\u00ea\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu enterro meu corpo dentro da blusa e sinto o frio do meu pai sem camisa l\u00e1 atr\u00e1s, sinto o frio do corpo dele de novo um moleque s\u00f3 de bermuda, o peito aberto diante da arma.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu abaixo a cabe\u00e7a procurando meu pai aqui dentro e n\u00e3o falo nada com medo de as palavras derrubarem algo no ch\u00e3o, quebrarem, mas o policial insiste, \u201cpode me contar a verdade\u201d, eu s\u00f3 quero o meu pai, o abra\u00e7o dele, \u201ccalma, n\u00e3o precisa ficar nervosa, eu sei que deve ser dif\u00edcil para voc\u00ea\u201d, o policial me provoca, \u201cele mandou voc\u00ea dizer que \u00e9 filha dele, n\u00e3o foi?\u201d.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele fala e eu levanto a cabe\u00e7a com medo, com raiva, fazendo os c\u00e1lculos, \u201cfica calma\u201d, a arma, o cacetete, a m\u00e3o, \u201cn\u00f3s vamos proteger voc\u00ea\u201d, eu n\u00e3o entendo, eu n\u00e3o quero entender, \u201cpode falar a verdade agora\u201d, eu fico quieta como meu pai me ensinou, \u201cele amea\u00e7ou voc\u00ea, n\u00e3o foi? Eu sei, mas n\u00e3o precisa ter medo, voc\u00ea est\u00e1 com d\u00f3?\u201d. Eu fico tentando ouvir a respira\u00e7\u00e3o do meu pai l\u00e1 longe e o pol\u00edcia: \u201ceu vou facilitar para voc\u00ea, n\u00e3o precisa nem falar, \u00e9 s\u00f3 acenar a cabe\u00e7a, \u00e9 s\u00f3 piscar, um sinal, \u00e9 s\u00f3 me dar um sinal e eu vou saber que ele est\u00e1 mesmo sequestrando a senhorita\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Meu pai \u00e9 preto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu sou branca, percebo.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\t\t<div data-elementor-type=\"page\" data-elementor-id=\"34983\" class=\"elementor elementor-34983\" data-elementor-post-type=\"elementor_library\">\n\t\t\t\t\t\t<section class=\"has_ae_slider elementor-section elementor-top-section elementor-element elementor-element-2f32464 elementor-section-content-middle elementor-section-boxed elementor-section-height-default elementor-section-height-default ae-bg-gallery-type-default\" data-id=\"2f32464\" data-element_type=\"section\" data-e-type=\"section\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-container elementor-column-gap-default\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"has_ae_slider elementor-column elementor-col-100 elementor-top-column elementor-element elementor-element-0c361a2 ae-bg-gallery-type-default\" data-id=\"0c361a2\" data-element_type=\"column\" data-e-type=\"column\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-widget-wrap elementor-element-populated\">\n\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7bf5823 elementor-align-center elementor-widget__width-initial elementor-widget elementor-widget-button\" data-id=\"7bf5823\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"button.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-button-wrapper\">\n\t\t\t\t\t<a class=\"elementor-button elementor-button-link elementor-size-sm\" href=\"https:\/\/bookshop.org\/lists\/issue-30\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\n\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-button-content-wrapper\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<span class=\"elementor-button-text\">COMPRA LOS LIBROS DESTACADOS EN ESTE N\u00daMERO EN NUESTRA P\u00c1GINA DE BOOKSHOP<\/span>\n\t\t\t\t\t<\/span>\n\t\t\t\t\t<\/a>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/section>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Marcos Paulo Prado, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del editor: Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. 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