{"id":28893,"date":"2023-12-02T01:01:54","date_gmt":"2023-12-02T07:01:54","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=28893"},"modified":"2023-12-17T19:43:56","modified_gmt":"2023-12-18T01:43:56","slug":"o-relato-da-fanatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2023\/12\/o-relato-da-fanatica\/","title":{"rendered":"O relato da fan\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p><b>Nota del editor:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Disseram que naquela terra havia um homem que guardava nomes. Na noite anterior, ansiosa, planejara avan\u00e7ar certa, casa adentro, e se sentar convicta diante do nomeador. Imaginou-se, com o ter\u00e7o entre os dedos e as m\u00e3os no rega\u00e7o do vestido de bolinhas brancas, narrando, sem rodeios, os motivos da visita e as\u00a0 esperan\u00e7as que no guardi\u00e3o de nomes depositava. Nada al\u00e9m. Ao cruzar a porta, contudo, uma enorme e desconhecida curiosidade obrigou-a a observar atentamente os detalhes da entrada \u2014 a mesinha de madeira maci\u00e7a adornada em relevo, os tr\u00eas ganchinhos na parede a sustentar as chaves, o palet\u00f3 e o chap\u00e9u fora de moda \u2014 para depois perceber a bem-organizada sequ\u00eancia de grossos volumes em capa dura que, do outro lado da sala, a observavam, s\u00f3brios. \u00c0 frente dos livros estava o guardi\u00e3o de nomes: os cabelos esbranqui\u00e7ados, curvado demais para a idade. Caneta na m\u00e3o, diante de si o enorme livro aberto. N\u00e3o ergueu os olhos, indiferente a quem entrava: era exatamente como o haviam descrito. Finalmente avan\u00e7ou, os passos cuidadosos como se temesse ser atacada, os olhos fixos no nomeador. Nunca imaginara estar ali&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sentou-se e percebeu a boca seca, um n\u00f3 a maltratar-lhe a garganta. Estava assustadoramente pr\u00f3xima, capaz de reparar no formato do nariz e na pele das m\u00e3os do nomeador. Apertou o ter\u00e7o entre os dedos, machucando-se, antes de come\u00e7ar a falar. A voz saiu com dificuldade, as palavras tentando fixar-se sobre a l\u00edngua \u00e1spera: precisava de um gole d\u2019\u00e1gua, mas n\u00e3o pediria nem aceitaria nada dali. Respirou profundamente, esfor\u00e7ando-se pela saliva\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel, contraindo o abd\u00f4men como se fosse este um ponto de apoio. Enfim, anunciou que vinha em busca de um nome, mas n\u00e3o para si. Confessou o imenso esfor\u00e7o que isso lhe exigia, a imensa resigna\u00e7\u00e3o, pois muito ouvira e muito se falara sobre aquela casa. Era um imenso amor que a levava at\u00e9 ali, esclareceu. Um amor absoluto. Um amor de sacrif\u00edcio:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Aqui venho por um amor como o do Cristo, uma verdadeira Paix\u00e3o. Venho aqui atendendo a um chamado Dele \u2014 e fez o sinal da cruz \u2014 Que fique claro: aqui estou em miss\u00e3o sagrada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olhava fixamente, segura, na presen\u00e7a do nomeador, que ainda n\u00e3o erguera os olhos. Aguardou um instante por qualquer rea\u00e7\u00e3o; n\u00e3o a encontrando \u2014 era mesmo um velho bruxo, alguma esp\u00e9cie de animal \u2014 iniciou a narrativa da forma como ensaiara. A compaix\u00e3o era o sentimento que a definia, a voz que lhe guiava os dias. Criara os filhos, cuidava do marido, e de todos os demais filhos e maridos que pediam ajuda. Com ela contavam em cada festividade eclesi\u00e1stica: era incans\u00e1vel, en\u00e9rgica, auxiliava at\u00e9 na casa paroquial. Era catequista, vendia rifas, dispunha-se a auxiliar tanto na contabilidade quanto na limpeza da igreja. A vizinhan\u00e7a sabia que se um mantimento faltasse, ou uma crian\u00e7a adoecesse, ou fosse preciso ir \u00e0 pol\u00edcia prestar queixa, podiam contar com ela. \u201cDe uma incans\u00e1vel compaix\u00e3o\u201d, assim o padre a descrevera, na missa de anivers\u00e1rio, e era incapaz de se lembrar destas palavras sem sorrir. Sua compaix\u00e3o era, fato, infinita: em suas ora\u00e7\u00f5es, nada pedia al\u00e9m de vida longa e sa\u00fade para ajudar os outros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Jamais teria se furtado, dessa forma, ao importante chamado que o di\u00e1cono fizera, nos an\u00fancios \u00e0 comunidade. Mais do que desafiador, era empolgante, a possibilidade de estender a compaix\u00e3o al\u00e9m das estreitas fronteiras de suas rela\u00e7\u00f5es. Apesar da idade, foi a primeira volunt\u00e1ria, a primeira a marcar o nome no grupo que viajaria de \u00f4nibus at\u00e9 a aldeia: quinze horas de estrada para auxiliar na catequese. As cenas que o di\u00e1cono descreveu a impressionaram: um grupo de mais de duzentos \u00edndios nus, sem contato com o mundo exterior. N\u00f4mades, sequer sabiam plantar. Viviam sujeitos aos humores da natureza, ao clima hostil, \u00e0s feras, e agora aos madeireiros que, amea\u00e7adoramente, se aproximavam. O conflito era iminente. Como m\u00e3e, como esposa, como crist\u00e3 e catequista, n\u00e3o poderia sentir nada a n\u00e3o ser uma absoluta compaix\u00e3o. Diziam que exagerava, que n\u00e3o era servi\u00e7o para uma mulher da sua idade. A comunidade era grande, havia outros. N\u00e3o quis ouvir aquilo: imaginava mesmo os duzentos \u00edndios em sua casa, em sua mesa, e ela se desdobrando para lhes ensinar tudo. Diziam que sequer sabiam usar o banheiro! Imaginava-se cuidando de todos durante a semana para, no domingo, lev\u00e1-los enfileirados at\u00e9 a igreja, dando-lhes lugar na primeira fila. O chamado do di\u00e1cono pegou-a do fundo da alma, sentiu que Deus falava diretamente com ela naquele momento. \u00c0quela aldeia e \u00e0quela gente bruta levaria o seu melhor, o melhor da civiliza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sequer viu passar os dois dias de viagem, rezando o tempo todo. As quinze horas previstas se baseavam na dist\u00e2ncia dividida pela imaginada velocidade m\u00e9dia, o c\u00e1lculo de um di\u00e1cono, n\u00e3o de um motorista. Evitando as crateras da rodovia, escolhendo as estradas vicinais para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Florestal, a viagem tornou-se um desafio maior do que a catequese. O banheiro do \u00f4nibus n\u00e3o dava conta dos passageiros, faltavam mantimentos. Quando os jovens, cheios de energia e decis\u00e3o na partida, quiseram desistir e retornar, ela se fez mais firme. N\u00e3o esmoreceu, rezou o tempo todo, grata pela inabal\u00e1vel convic\u00e7\u00e3o com que o Senhor a havia ungido. Quando enfim encontraram o ponto de apoio, e a mata fechada atr\u00e1s dele, os outros respiraram aliviados pela conclus\u00e3o da viagem: ela fez o sinal da cruz, pediu uma vez mais for\u00e7a e vida longa, pois sabia que, na verdade, a jornada apenas se iniciava. Aquele era o grande momento de sua vida. Ali estava atendendo a um chamado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao inv\u00e9s de, como os demais, descansar da viagem, esticar as costas, fazer uma boa refei\u00e7\u00e3o ou aguardar o hor\u00e1rio da missa, ela pediu para ir de uma vez \u00e0 aldeia. Ali estava para servir: j\u00e1 descansara, almo\u00e7ara ou rezara o suficiente nesta vida. Era a pessoa certa sendo capacitada: queria que as vizinhas, o padre e toda a comunidade a visse ali, esbanjando disposi\u00e7\u00e3o. Rejuvenescia! Eram os dias mais felizes de sua vida! Nas tr\u00eas horas seguintes, montada na caminhonete, selva adentro, esticava por todo instante o pesco\u00e7o, ansiosa por divisar as malocas, conforme as imaginava. Sorriu ao dizer que se via como a pr\u00f3pria colonizadora, erguendo a cruz em meio aos \u00edndios nus, observada com espanto. Ansiava por se doar, por ensinar. Queria salvar-lhes a alma, mesmo que fosse seu \u00faltimo sacrif\u00edcio. Estava pronta para entregar tudo, se tudo fosse exigido. Quando finalmente chegou, era muito diferente do que concebera, mas se sentiu ainda mais confiante. Indignou-se com o motorista, que se manteve pr\u00f3ximo do carro, a m\u00e3o na arma. Ali estava para am\u00e1-los, como Cristo os amava. Desprezando todos os conselhos, entrou na aldeia com os bra\u00e7os abertos, rezando, convidando-os para a entrega, para a f\u00e9. Era o Senhor que agia atrav\u00e9s dela. Dos duzentos \u00edndios anunciados, contudo, s\u00f3 encontrou uma vintena&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com os olhos marejados, narrou ao guardi\u00e3o de nomes a emo\u00e7\u00e3o que foi ser aceita, ver aquela gente brincar com seus brincos \u2014 t\u00e3o simples, nem era joia \u2014 e gesticularem curiosos com suas roupas e o tom da pele. Ao ensinar-lhes a juntar as m\u00e3os em s\u00faplica e conduzir a ora\u00e7\u00e3o que Jesus pregara, sentia que cumpria sua miss\u00e3o de vida. Eram t\u00e3o puros&#8230; Mexiam em seus cabelos e, se ela se interessava por algo, simplesmente a entregavam. A morte os rondava; mantinham-se d\u00f3ceis. Eram um campo f\u00e9rtil a aguardar pela semente: l\u00e1 estava ela, com o privil\u00e9gio de, pela primeira vez, levar-lhes a Palavra Sagrada. S\u00f3 podia ser grata! Viviam como animais, ignorando tudo: o motorista contou que n\u00e3o plantavam, que morriam cedo, que adoravam uma esp\u00e9cie de tronco, que n\u00e3o entendiam as fam\u00edlias, os casais se trocando com liberdade, as mulheres se dispondo a muitos maridos. Ningu\u00e9m ensinava nada \u00e0s crian\u00e7as, n\u00e3o sabiam ler e escrever, n\u00e3o havia uma palavra a ser aprendida. Para ela, as cr\u00edticas do motorista s\u00f3 tornavam aquela oportunidade ainda mais incr\u00edvel. Seria ela a levar-lhes o mundo, a civilidade, a vinda do Cristo. O guardi\u00e3o de nomes podia compreender o que aquilo significava? Cabia-lhe dar a not\u00edcia de que o filho de Deus viera \u00e0 terra e por eles morrera!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O nomeador ergueu os olhos, mas nada disse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Eu sabia que eram canibais: o di\u00e1cono e o motorista haviam me alertado. Contaram tamb\u00e9m que enterravam vivas as crian\u00e7as deficientes e os g\u00eameos, tudo para me assustar. Se faziam isso com crian\u00e7as, o que n\u00e3o fariam comigo? Claro que era assustador, nem posso imaginar \u2014 chacoalhou a cabe\u00e7a, benzeu-se \u2014, por\u00e9m, era a incans\u00e1vel compaix\u00e3o que me movia. Estavam sozinhos, abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, depois da fronteira do fim do mundo. Cabia-me salv\u00e1-los&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma jovem \u00edndia, em especial, chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o. Sabia que o padre reprovaria tais ideias, mas confessou em voz baixa que, ainda assim, teve-as: era como se fosse sua filha, de outras vidas, t\u00e3o forte e imediata a liga\u00e7\u00e3o. Estava ali por todos, mas antes por ela, soube-o de imediato. Tinha quatorze anos e dois homens a ladeavam. Perguntou se eram seus irm\u00e3os: descobriu que eram seus maridos; ambos! Era linda, delicada, a mais pura dentre aqueles puros. O tempo todo pegava-a pelo bra\u00e7o, mexia em suas coisas. Era ador\u00e1vel&#8230; Aconteceu como se planejado, mas, se ensaiado, n\u00e3o teria funcionado t\u00e3o bem: chamou a mocinha para ver como o carro funcionava, trocou um olhar com o motorista. Deixou-a mexer nos espelhos e ligar o r\u00e1dio \u2014 encantava-a a luzinha. Num instante, bateram as portas e arrancaram: ela se assustou, gritou por socorro enquanto os demais se agitaram, atiraram coisas, correram. Nada fez sen\u00e3o manter a mo\u00e7a entre os bra\u00e7os, sussurrando \u201cfilhinha, filhinha\u201d em seus ouvidos, confortando-a como uma m\u00e3e que leva o filho ao m\u00e9dico para um procedimento dolorido. \u201cFilhinha, filhinha\u201d, repetia carinhosamente, enquanto o motorista acelerava rumo \u00e0 cidade, onde estariam em seguran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O guardi\u00e3o de nomes jamais poder\u00e1 imaginar a imensid\u00e3o do desafio que \u00e9 criar uma jovem \u00edndia. J\u00e1 nas primeiras horas, ela compreendeu a loucura que era sonhar em ter toda a aldeia em sua casa: aquela \u00fanica alma selvagem dava-lhe mais trabalho do que todos os maridos e filhos de toda a comunidade! Imaginara ensinar o catecismo, gui\u00e1-la pelas ora\u00e7\u00f5es, esclarecer os mist\u00e9rios, mas, durante as primeiras semanas, nada fazia sen\u00e3o insistir para que a mo\u00e7a usasse o banheiro, comesse, se sentasse e dormisse da maneira correta. Cada vez que ela deixava o banheiro, estava imundo, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do vaso, que nunca era utilizado. Comia com as m\u00e3os, dormia no ch\u00e3o: era imposs\u00edvel demov\u00ea-la do h\u00e1bito. N\u00e3o conseguia se sentar na cadeira, nem dizer as palavras mais simples. N\u00e3o conseguia que a chamasse de mam\u00e3e de maneira alguma. Qual a dificuldade de balbuciar ma-m\u00e3e? Ainda assim, n\u00e3o conseguia&#8230; Um dia, finalmente entendeu que se chamava Zoeh, e tratou de logo lhe mudar o nome: talvez assim as coisas fossem mais f\u00e1ceis. Batizou-a Maria, como a m\u00e3e de Deus, e ao lado dela todos os dias rezava o ter\u00e7o, esperando que, pelo nome e imita\u00e7\u00e3o, o Esp\u00edrito a alcan\u00e7asse. A incans\u00e1vel compaix\u00e3o, da qual se orgulhava, parecia testada ao limite com aquela \u00fanica convers\u00e3o, mas n\u00e3o desistiria&#8230; Deus era testemunha da imensa dificuldade daquela \u00fanica convers\u00e3o&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Conseguiu pequenos progressos, modestos diante dos seus planos, mas que a encorajavam. Em algumas semanas, a filhinha aprendeu a usar o banheiro e a comer, ainda que de c\u00f3coras e usando apenas o garfo. Continuava dormindo e acordando muito cedo e preferindo o ch\u00e3o, por\u00e9m j\u00e1 se aprontava para as ora\u00e7\u00f5es, parando ao seu lado, mantendo as m\u00e3os em palma, fechando os olhos enquanto as Ave-Maria e os Pai-Nosso ressoavam pelo c\u00f4modo. N\u00e3o a deixava sair, jamais, mesmo porque as roupas eram uma barreira dif\u00edcil de ser vencida: uma simples calcinha, uma camiseta larga incomodava-a horrivelmente. E nem se podia falar em sapatos! Eram modestos os progressos, animados por nada al\u00e9m da f\u00e9 que renovava a cada dia com fervorosas ora\u00e7\u00f5es, sempre intensas, nas quais pedia que a filha Maria aceitasse Deus em seu cora\u00e7\u00e3o. Era o centro de tudo, o guardi\u00e3o de nomes podia entender? Parecia-lhe que todas as crian\u00e7as \u00e0s quais ensinara as ora\u00e7\u00f5es, todas as bandeirinhas que costurara para festas de sucesso, os jejuns, as novenas, os recordes de rifas vendidas, os grupos organizados de senhoras nada valiam se n\u00e3o conseguisse salvar aquela alma. Aquela alminha. Entendia agora o epis\u00f3dio do Cristo com o diabo no deserto: tentava-a declarar que, se a filhinha resistia, deveria voltar \u00e0 aldeia. Queria declarar que fizera o seu melhor e que a decis\u00e3o cabia \u00e0 mo\u00e7a. Sabia, por\u00e9m, que estas ideias n\u00e3o provinham de si: era o outro quem pedia que desistisse. Ela era a incans\u00e1vel compaix\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Arranjou as coisas para a partida definitiva, crente de que a proximidade da selva prejudicava o projeto. Pediu ao marido ordem de pagamento, combinou com o motorista a viagem at\u00e9 a cidade natal na caminhonete e pelas mesmas estradas secund\u00e1rias, abandonando o \u00f4nibus e demais membros da miss\u00e3o. Ajeitando uma trouxa com o pouco que ali havia, explicou para a filha Maria que fariam uma grande viagem, uma viagem definitiva, e que precisavam rezar mais do que nunca, rezar at\u00e9 doerem os joelhos para que tudo corresse bem. Movia-a a incans\u00e1vel compaix\u00e3o, sentimento sem lugar no mundo: o motorista cobrou caro e a alertou que poderiam ser acusados de sequestro. As pessoas n\u00e3o entendiam&#8230; Era sua filha, sua filha Maria, e a resgatava da barb\u00e1rie. O que uma m\u00e3e n\u00e3o faz por uma filha? As m\u00e3es s\u00e3o sagradas, s\u00f3 as m\u00e3es. A filha, a filhinha Maria, tinha s\u00f3 quatorze anos: sonhava lev\u00e1-la para casa e organizar um baile para o anivers\u00e1rio seguinte. Um belo vestido, as quinze valsas&#8230; Antes, precisava convencer a filha a usar uma \u00fanica pe\u00e7a de roupa, mas, como m\u00e3e, sonhava.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando recebeu o aviso da disponibilidade da ordem de pagamento, agradeceu ao sagrado efusivamente. Pediu \u00e0 filhinha que estivesse quieta no quarto por no m\u00e1ximo uma hora. Explicou-lhe com gestos e palavras doces, como se falasse com um beb\u00ea, que a mam\u00e3e j\u00e1 voltava, que deveria aguard\u00e1-la de joelhos, rezando \u00e0 Nossa Senhora dos Navegantes para que tivessem uma boa viagem. Fechou a porta delicadamente, olhando-a at\u00e9 o limite da fresta, uma anjinha, toda nua, com as m\u00e3os em s\u00faplica e olhos fechados, de joelhos. Voltou-se ent\u00e3o e acelerou os passos, decidida a cumprir as obriga\u00e7\u00f5es e retornar o mais depressa poss\u00edvel, temerosa de que a filha se machucasse ou chorasse, pois era a primeira vez em que ficava sozinha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pelas ruas da pequena cidade, na fila do banco, enquanto pagava o motorista e comprava os mantimentos para a longa viagem, rezava, repetindo o Pai-Nosso, a Ave-Maria e can\u00e7\u00f5es religiosas para pedir que o Senhor guardasse a filha sozinha, t\u00e3o pr\u00f3xima a partida e salva\u00e7\u00e3o daquela alma, que a guardasse s\u00f3 mais alguns minutinhos, pois logo estaria de volta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando retornou, percebeu algo no olhar do recepcionista, e sentiu o cora\u00e7\u00e3o acelerar. Subiu as escadas mais depressa do que os joelhos permitiam, ofegante, desesperada. O segundo a mais pelo qual o recepcionista a encarou indicou que as ora\u00e7\u00f5es n\u00e3o haviam bastado. Encontrou a porta do quarto escancarada: as pernas perderam for\u00e7a. Quando cruzou o p\u00f3rtico, ofendeu-a o quarto completamente destru\u00eddo: roupas e cortinas rasgadas, o r\u00e1dio esmigalhado contra a parede, fezes e urina por todos os lados, a mala atirada da janela para o p\u00e1tio interno, o vaso sanit\u00e1rio quebrado \u2014 como tivera for\u00e7as?! \u2014, peda\u00e7os da B\u00edblia Sagrada rasgados a flutuar em meio \u00e0quele cen\u00e1rio apocal\u00edptico. Nenhum sinal da filha. Sentiu a pele gelada, a respira\u00e7\u00e3o falhar, e depois disso, mais nada&#8230; Acordou com o recepcionista a aban\u00e1-la, chamando-a enquanto ela balbuciava, sem que fosse entendida, \u201cfilhinha, filhinha\u201d, sofrendo aquela perda como nenhuma outra em sua vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Minha filhinha&#8230; Ainda posso v\u00ea-la ali, rezando com as m\u00e3os juntinhas, um anjinho que Deus me deu para criar e deixei escapar&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O motorista a ajudou a organizar o quarto e resgatar o que era poss\u00edvel. Negociou a repara\u00e7\u00e3o com o dono da pens\u00e3o e a levou at\u00e9 o ponto de apoio, a vila nas franjas da selva. L\u00e1, os mission\u00e1rios a acolheram, sempre t\u00e3o gentis, e choraram junto dela ao escutarem a narrativa da aventura. Fizera todo o poss\u00edvel para salvar aquela alma, mas havia o livre arb\u00edtrio, diziam tentando consol\u00e1-la. N\u00e3o era para ser, devia confiar nos caminhos de Deus, repetiam para ela, que mecanicamente acompanhava as missas e novenas, perguntando-se incessantemente onde errara, se for\u00e7ara demais em algum ponto, condenando-se por ter deixado a filha sozinha. Estava t\u00e3o perto&#8230; Era s\u00f3 t\u00ea-la levado consigo&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da selva, chegavam not\u00edcias: a \u00edndia Zoeh, a bruxa Zoeh, organizava pajelan\u00e7as. Substitu\u00edra o feiticeiro ap\u00f3s a var\u00edola que o incapacitou e tomou para si mais dois maridos quando as respectivas esposas morreram. Conduzira os sobreviventes do grupo para a floresta profunda, onde habitavam as feras, conclamando-os a encontrar o ancestral comum \u2014 aquele que lhes ensinara quais frutos podiam comer \u2014 e a viverem pr\u00f3ximo dele. Vigiava com rigor o cumprimento das tradi\u00e7\u00f5es, desenterrava os mortos para lhes comer as carnes, iniciava os meninos deixando-os com as m\u00e3os dentro do formigueiro. Proibiu a tribo de se aproximar de qualquer branco, de efetuar qualquer troca, de avist\u00e1-los sem perseguir e matar. Dos mateiros que partiram em seu encal\u00e7o, voltou apenas um, sem as orelhas, o nariz cortado fora com uma faca de pedra, a raz\u00e3o perdida para sempre. Assustados, os mission\u00e1rios insistiam em abandonar o projeto, em retornar antes que fossem atacados, temendo que uma investida estivesse sendo organizada. Orando, resistiu o quanto p\u00f4de. Por fim, desistiu, e retornou com os mission\u00e1rios, nunca em toda sua vida t\u00e3o infeliz, a chorar por sua filhinha, sua anjinha que fugira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando de volta \u00e0 cidade, \u00e0 casa, capela, marido e filhos, fez o que p\u00f4de para retomar as atividades com a mesma paix\u00e3o e intensidade anteriores, mas dentro de si algo estava partido. Confessou suas dores ao padre, chorou abra\u00e7ada ao di\u00e1cono, pediu que as senhoras do grupo de ora\u00e7\u00e3o dedicassem-lhe uma Ave Maria todas as noites. Jejuou, embora preocupasse a todos com a perda de peso. Prometeu \u00e0 Santa caminhar mil quil\u00f4metros caso a filhinha voltasse, mas n\u00e3o foi ouvida. Numa manh\u00e3, j\u00e1 desenganada, veio-lhe a ideia de procurar o guardi\u00e3o de nomes, e a primeira rea\u00e7\u00e3o foi fazer o sinal da cruz. N\u00e3o poderia! Jamais se perderia em heresia! Que o nomeador n\u00e3o a julgasse mal, mas havia hist\u00f3rias sobre ele que a assombravam, por certo sabia do que se tratava. A incans\u00e1vel compaix\u00e3o, contudo, era maior do que o temor: eis quem era e o que a sustentava. Para salvar a filha, estava disposta a tudo, inclusive a pecar. Finalmente juntou as m\u00e3os e suplicou ao guardi\u00e3o de nomes, esclarecendo o motivo da visita:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 Preciso que o senhor escreva neste livro o nome da minha filhinha, registre o nome crist\u00e3o dela. \u00c9 minha \u00faltima esperan\u00e7a para que ela volte para casa, para a cristandade, para mim&#8230; \u2014 com o dorso da m\u00e3o secou os olhos e um instante depois retomou a s\u00faplica \u2014 Por favor&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O guardi\u00e3o de nomes olhou-a demoradamente, a ponta de um dos l\u00e1bios discretamente erguida. Alisou a folha corrente do enorme livro, apanhou com naturalidade a caneta tinteiro, posicionou a m\u00e3o a fim de grafar o nome, certo, inequ\u00edvoco. Acompanhando-lhe o movimento com os olhos, a senhora sorria sem exibir os dentes, satisfeita, agradecida pelo sucesso no di\u00e1logo com o bruxo. De s\u00fabito, por\u00e9m, a express\u00e3o desmanchou-se, fez-se aterrorizada: n\u00e3o grafara no livro o nome crist\u00e3o, o nome que ela mesma escolhera para a filha, mas o nome ind\u00edgena! O desgra\u00e7ado escrevera Zoeh no livro de registros, ao inv\u00e9s do nome certo! Como fora capaz?! Era muito atrevimento, era zombar de seus sentimentos maternos! Era desprezar todo esfor\u00e7o dela para salvar a filha, e conden\u00e1-la a viver para sempre perdida nas profundezas da selva!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ergueu os olhos e o indicador, pronta para protestar, respirando fortemente, mas encontrou o guardi\u00e3o de nomes a encar\u00e1-la fixamente, ainda com a caneta na m\u00e3o. Sentiu um vazio no est\u00f4mago: e se roubasse seu nome? Levantou-se apressadamente e fugiu da casa, fazendo o caminho de volta entre resmungos e l\u00e1grimas pela filha perdida para sempre. Reparou que deixara cair o ter\u00e7o de madeira: que l\u00e1 ficasse como uma resposta ao bruxo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sozinho, o guardi\u00e3o de nomes observou o nome da \u00edndia rec\u00e9m-grafado, e o acariciou, delicadamente, depois de ter certeza de que a tinta secara. Ent\u00e3o, fechou o enorme livro.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Fragmento do romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Guardi\u00e3o de Nomes<\/span><\/i><br \/>\n<!-- HTML !--><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><center><a class=\"bookshop-button\" role=\"button\" href=\"https:\/\/bookshop.org\/lists\/issue-28?\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Compra los libros destacados en este n\u00famero en nuestra p\u00e1gina de Bookshop<\/a><\/center>&nbsp;<\/p>\n<h6 style=\"text-align: left;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Igreja da Imaculada Conceic\u0327a\u0303o, Curitibanos, Brazil, de Mateus Campos Felipe, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del editor: Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s. &nbsp; Disseram que naquela terra havia um homem que guardava nomes. Na noite anterior, ansiosa, planejara avan\u00e7ar certa, casa adentro, e se sentar convicta diante do nomeador. Imaginou-se, com o ter\u00e7o entre os dedos e as [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":28312,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[2886],"tags":[4780],"genre":[],"pretext":[],"section":[],"translator":[],"lal_author":[4705],"class_list":["post-28893","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-brasilena","tag-numero-28-es","lal_author-leonardo-garzaro-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28893","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28893"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28893\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28899,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28893\/revisions\/28899"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28312"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28893"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28893"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28893"},{"taxonomy":"genre","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/genre?post=28893"},{"taxonomy":"pretext","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/pretext?post=28893"},{"taxonomy":"section","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/section?post=28893"},{"taxonomy":"translator","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/translator?post=28893"},{"taxonomy":"lal_author","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/lal_author?post=28893"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}