{"id":26370,"date":"2023-09-17T01:02:34","date_gmt":"2023-09-17T07:02:34","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=26370"},"modified":"2023-09-21T00:17:30","modified_gmt":"2023-09-21T06:17:30","slug":"professor-pulquerio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2023\/09\/professor-pulquerio\/","title":{"rendered":"Professor Pulqu\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<p><b>Nota del editor:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\nQuando eu era menino e morava numa vila do interior, assisti a um epis\u00f3dio bastante estranho, envolvendo um professor e sua fam\u00edlia. Embora sejam passados muitos anos, tenho ainda vivos na mem\u00f3ria os detalhes do acontecimento, ou pelo menos aqueles que mais me impressionaram; e como ningu\u00e9m mais que viveu ali naquele per\u00edodo parece se lembrar, muitos chegando mesmo a duvidar que tais coisas tenham acontecido\u2014a pr\u00f3pria filha do professor, que vi aflita correndo de um lado para o outro chorando e pedindo socorro, quando lhe falei no assunto h\u00e1 uns dois ou tr\u00eas anos olhou-me espantada e jurou que n\u00e3o se lembrava de nada\u2014resolvi p\u00f4r por escrito tudo o que ainda me lembro, antes que a minha mem\u00f3ria tamb\u00e9m comece a falhar. Se o meu testemunho cair um dia nas m\u00e3os de algum investigador pachorrento, \u00e9 poss\u00edvel que aquela ocorr\u00eancia j\u00e1 t\u00e3o antiga e, pelo que vejo, tamb\u00e9m completamente esquecida, exceto por mim, seja afinal desenterrada, debatida e esclarecida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naturalmente minhas esperan\u00e7as s\u00e3o muito prec\u00e1rias; conto apenas com a colabora\u00e7\u00e3o do acaso e, como sabemos, se a hist\u00f3ria \u00e9 rica de triunfos devidos unicamente ao acaso, tamb\u00e9m est\u00e1 cheia de derrotas s\u00f3 explic\u00e1veis pela interfer\u00eancia desse fator imprevis\u00edvel. Assim, vou fazer como o viajante que encontra um p\u00e1ssaro ferido na estrada, coloca-o em cima de um toco e segue o seu caminho. Se o p\u00e1ssaro aprumar e voar de novo, estar\u00e1 salvo\u2014embora o viajante n\u00e3o esteja ali para ver: se morrer, j\u00e1 estava de qualquer forma condenado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esse professor de quem falo era um homem magro e triste, morava em uma casa de arrabalde de ch\u00e3o batido. Fora professor em outros tempos, antes da cria\u00e7\u00e3o do grupo escolar servido por normalistas. Para sustentar a mulher e os v\u00e1rios filhos ele n\u00e3o apalpava servi\u00e7os: vendia frangos e ovos, tran\u00e7ava r\u00e9deas de sedenho, cobrava contas encruadas, procurava animas desaparecidos, e vez por outra matava um porco ou retalhava uma vaca. Vendo-o desdobrar-se em tantas e t\u00e3o variadas atividades, era dif\u00edcil compreender como ainda conseguia tempo para escrever artigos hist\u00f3ricos para o jornalzinho de Pouso de Serra Acima, localidade a doze l\u00e9guas de nossa vila para o sul. A bem da verdade devo dizer que seus artigos nunca davam o que falar. Sabia-se vagamente que ele escrevia, mas pouca gente se dava ao trabalho de ver o que era. Tamb\u00e9m nunca se incomodou com a indiferen\u00e7a do p\u00fablico, nem nunca deixou de mandar a sua colabora\u00e7\u00e3o sempre que um assunto o entusiasmava. Pulqu\u00e9rio se chamava esse homem esfor\u00e7ado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De vez em quando eu encontrava um n\u00famero do jornalzinho de Serra Acima rolando l\u00e1 por casa, mas confesso que nunca li um artigo do professor Pulqu\u00e9rio at\u00e9 o fim; achava-os ma\u00e7antes, cheios de datas e nomes de padres, parece que a fonte principal de sua erudi\u00e7\u00e3o eram as monografias de um frei Santiago de Alarc\u00f3n, dominicano que estudara a hist\u00f3ria de nosso estado e publicara seus trabalhos numa tipografia de Toledo. Meu pai guardava alguns desses folhetos, que me lembro de ter manuseado sem grande interesse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o obstante a falta de interesse por seus artigos, o professor Pulqu\u00e9rio ficou sendo o consultor hist\u00f3rico da vila. Sempre que algu\u00e9m queria saber a origem de um pr\u00e9dio, de um estrada velha, de uma fam\u00edlia, era s\u00f3 consult\u00e1-lo que dificilmente ficaria na ignor\u00e2ncia. Eu mesmo, que nunca me interessei por esses assuntos, sentia-me descansado ao pensar que sempre o teria ali \u00e0 m\u00e3o caso houvesse necessidade. E sem lhe dar muita aten\u00e7\u00e3o, por causa de sua prolixidade e de sua lentid\u00e3o no falar, eu o tratava com defer\u00eancia para n\u00e3o correr o risco de ser repelido quando precisasse dele. Quando o encontrava na rua, ou no armaz\u00e9m do meu tio Luc\u00edlio, eu perguntava pela fam\u00edlia, ou pelos neg\u00f3cios, e evitava falar em hist\u00f3ria, porque se cometesse a imprud\u00eancia de falar em seu assunto favorito teria que perder muito tempo ouvindo uma longa explica\u00e7\u00e3o naquela voz pregui\u00e7osa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dia ele estragou o meu truque perguntando-me de chofre, logo ap\u00f3s os cumprimentos habituais, se eu conhecia a hist\u00f3ria do tesouro do austr\u00edaco. Era preciso muita t\u00e1tica para responder. Se eu dissesse que conhecia, pensando abreviar a conversa, o tiro poderia sair pela culatra; ele haveria de querer comparar os meus dados com os dele, e a minha ignor\u00e2ncia denunciaria a minha inten\u00e7\u00e3o; se dissesse que n\u00e3o conhecia, teria que ouvi-la do princ\u00edpio ao fim, com todos os afluentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Vejo que n\u00e3o sabe\u2014 disse ele. \u2014Ali\u00e1s n\u00e3o \u00e9 de admirar, porque a mocidade de hoje n\u00e3o perde tempo com o passado. Mas n\u00e3o pense que estou censurando. \u00c9 um fen\u00f4meno facilmente constat\u00e1vel, aqui e em toda parte. As causas s\u00e3o in\u00fameras. Em primeiro lugar\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nesse ponto ele deve ter notado algum sinal de impaci\u00eancia em mim, porque deteve-se e desculpou-se:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Desculpe a minha divaga\u00e7\u00e3o. Eu queria falar do tesouro do austr\u00edaco, e j\u00e1 ia me enfiando por outro caminho. Se voc\u00ea quiser ouvir a hist\u00f3ria, vamos ali ao armaz\u00e9m de seu tio. \u00c9 assunto fascinante para um jovem. Quem sabe voc\u00ea n\u00e3o se anima a ir buscar o tesouro? Ficaria rico para o resto da vida!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sentado num saco de feij\u00e3o no fundo do armaz\u00e9m, o professor Pulqu\u00e9rio falou-me de um tesouro incalcul\u00e1vel que estaria enterrado na crista de um dos nossos morros. Eram sacos e mais sacos de ouro enterrados na pr\u00f3pria mina por um engenheiro austr\u00edaco que a explorava secretamente. O fil\u00e3o era t\u00e3o rico que ele mandara chamar um filho na \u00c1ustria para ajud\u00e1-lo. Quando o rapaz chegou, anos depois devido \u00e0s dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o, e surgiu de repente em cima do barranco, o pai matou-o com um tiro julgando tratar-se de algum assaltante. Verificado o engano, o engenheiro resolveu dar ao filho o t\u00famulo mais rico do mundo: enterrou-o na mina com todo o ouro j\u00e1 extra\u00eddo e deixou um roteiro propositalmente complicado. O professor conseguira o roteiro e agora procurava localizar a mina. Impressionava-o a frase final do roteiro, depois de muitos circunl\u00f3quios e pistas falsas: \u201cChegando nessas alturas, procure da cinta para a cabe\u00e7a que encontrar\u00e1 ouro grosso e riqueza nunca vista.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas ningu\u00e9m deve supor que o professor Pulqu\u00e9rio fosse homem ambicioso. Ele n\u00e3o queria ficar com todo o tesouro, estava pronto a dividi-lo com quantos quisessem participar da busca, e at\u00e9 achava que quanto mais gente melhor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Existiria mesmo o tal tesouro? Parece que o povo n\u00e3o estava acreditando muito. A nossa febre do ouro havia passado, deixando todos com a sensa\u00e7\u00e3o de logro. Quase n\u00e3o havia na vila e imedia\u00e7\u00f5es um curral velho, um peda\u00e7o de alicerce, um moir\u00e3o de aroeira no meio de um p\u00e1tio, que n\u00e3o tivesse sido tomado como apelo mudo de um tesouro. Cavoucado o lugar e revolvida a terra, o \u00fanico resultado positivo eram os calos nas m\u00e3os do cavouqueiro. O povo andava muito desinteressado de tesouros quando o professor apareceu com o seu roteiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A mania do tesouro poderia ter passado com o tempo, sem gerar transtorno, se a linguagem enigm\u00e1tica do roteiro n\u00e3o tivesse fascinado o professor. Ele passava tardes ou manh\u00e3s inteiras no armaz\u00e9m de meu tio, atrapalhando o servi\u00e7o e os fregueses, revolvendo mentalmente o roteiro, procurando penetrar no sentido oculto das frases, descuidando de suas obriga\u00e7\u00f5es. Muitas vezes a mulher precisava mandar um dos meninos busc\u00e1-lo para atender a algum neg\u00f3cio que n\u00e3o podia esperar, ou pedir dinheiro para alguma despesa urgente. Mas devo dizer que o professor era interrompido em suas medita\u00e7\u00f5es, e at\u00e9 pedia a meu tio que fornecesse umas balas ao garoto para pagar depois.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto ele se limitou a falar no roteiro e nas investiga\u00e7\u00f5es que estava fazendo para localizar a mina, n\u00e3o t\u00ednhamos motivo de queixa. Era uma nova mania inofensiva, at\u00e9 servia para desviar-lhe a cabe\u00e7a de seus problemas dom\u00e9sticos. Gost\u00e1vamos de v\u00ea-lo fazer c\u00e1lculos sobre o n\u00famero de sacos de ouro que devia haver na mina, tomando por base o tempo que o austr\u00edaco trabalhou sozinho, a quantidade de cascalho que um homem pode batear em um dia, e o teor de ouro que devia haver em cada bateada. Depois vinham os c\u00e1lculos do n\u00famero de pessoas que seria necess\u00e1rio para desenterrar o tesouro no menor prazo poss\u00edvel, a quantidade e o tipo de ferramenta, por fim o n\u00famero de burros para transportar a carga morro abaixo. O professor tinha tudo muito bem calculado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ele queria que todos os habitantes da vila, ou o maior n\u00famero poss\u00edvel, contribu\u00edssem para as despesas, e o tesouro seria repartido proporcionalmente \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es, depois de deduzida uma percentagem para ele como organizador dos trabalhos. Embora todos achassem o esquema razo\u00e1vel, as contribui\u00e7\u00f5es nunca se materializaram. Uns diziam que esperasse mais para diante, outros que estavam aguardando um pagamento, outros que iam pensar. Seria por descren\u00e7a no \u00eaxito da expedi\u00e7\u00e3o, ou d\u00favida quanto \u00e0 honestidade do professor? Parece que ele optou pela segunda hip\u00f3tese, e naturalmente sentiu-se muito ofendido. E como j\u00e1 est\u00e1vamos cansados de ouvi-lo, sempre arranj\u00e1vamos uma desculpa para fugir dele, muitos nem iam mais ao armaz\u00e9m para n\u00e3o encontr\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois de in\u00fameras tentativas de explicar a um e outro a lisura de seu projeto, o professor resolveu faz\u00ea-lo por escrito com um memorial em quatro folhas abertas de papel-almo\u00e7o\u2014\u201cAos cidad\u00e3os honestos desta vila\u201d\u2014pregadas na porta da cadeia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o creio que muitas pessoas tenham lido o memorial. Tentei l\u00ea-lo por mera curiosidade, e tamb\u00e9m por uma esp\u00e9cie de repara\u00e7\u00e3o ao professor; mas quando cheguei ao fim da primeira banda e vi que faltavam sete, numa letra fina e sem par\u00e1grafos, resolvi fazer uma cruz a l\u00e1pis no ponto onde havia parado e deixar o resto para ler depois. Mas esse dia nunca chegou, porque a meninada estragou o memorial, fazendo garatujas a carv\u00e3o por cima do escrito e mesmo rasgando o papel em v\u00e1rios pontos. Foi outro golpe para o professor, que cismou que o vandalismo infantil tinha sido dirigido pelos pais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o obtendo aten\u00e7\u00e3o entre os particulares, o professor tentou interessar a Intend\u00eancia\u2014mas tamb\u00e9m a\u00ed n\u00e3o foi feliz. Parece que uma praga muito forte condenava o tesouro a jamais sair da crista do morro. Sendo homem sem delicadeza, mais afeito a lidar com animais do que com gente\u2014uma vez entortou com um murro o pesco\u00e7o de uma \u00e9gua que o mordera na hora de apertar a barrigueira\u2014o intendente nem quis ouvir a proposta, e riu na cara do professor na frente das outras pessoas. Dizem que o professor saiu da Intend\u00eancia com l\u00e1grimas nos olhos, o que n\u00e3o seria de estranhar em um homem do seu temperamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dava pena v\u00ea-lo nas ruas, cada vez mais magro, trancado em si mesmo, sem ter com quem conversar. Achei que est\u00e1vamos sendo maldosos demais com ele, e pensei em fazer alguma coisa, se n\u00e3o para ajud\u00e1-lo ao menos para distra\u00ed-lo. Foi ent\u00e3o que vi o quanto a nossa indiferen\u00e7a o havia afetado. Quando tentei falar com ele na rua, ele lan\u00e7ou-me um olhar ressentido e continuou o seu caminho. N\u00e3o me sentindo isento de culpa, resolvi engolir o orgulho e procur\u00e1-lo em sua casa \u00e0 noite. Atendeu-me a mulher, d. Venira, com as m\u00e3os suas de massa do bolo de arroz que estava fazendo para ser vendido em tabuleiro de manh\u00e3 bem cedo, a tempo de alcan\u00e7ar o caf\u00e9 da vila. Pelo embara\u00e7o de d. Venira percebi que o meu nome fora referido naquela casa, e n\u00e3o favoravelmente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Pupu est\u00e1 escrevendo\u2014 disse ela por fim. \u2014N\u00e3o sei se ele\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ouvi o professor cham\u00e1-la da varanda, de onde o lampi\u00e3o lan\u00e7ava sombras desproporcionadas no corredor. Teria ele ouvido a minha voz, ou fora coincid\u00eancia? Da porta eu via a sombra de d. Venira argumentando, agitando os bra\u00e7os, e at\u00e9 mexendo o queixo: mas falavam baixo, e nada pude ouvir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dona Venira voltou encabulada e pediu mil desculpas em nome do marido, disse que ele n\u00e3o podia ver-me aquela noite. Estava escrevendo uma exposi\u00e7\u00e3o ao presidente do estado. (Quando ela mencionou a exposi\u00e7\u00e3o ao presidente, notei uma entona\u00e7\u00e3o diferente em sua voz, mas fiquei sem saber se ela estava zombando da ingenuidade do marido ou querendo impressionar-me, como se dissesse \u201cAgora espere o resultado\u201d.)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ap\u00f3s esse tratamento eu podia abrir a boca contra o professor sem ser acusado de injusto, mas preferi n\u00e3o contar a ningu\u00e9m a novidade da exposi\u00e7\u00e3o ao presidente; eu ainda tinha uma certa simpatia pelo pobre homem e n\u00e3o queria v\u00ea-lo em rid\u00edculo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para despachar a exposi\u00e7\u00e3o o professor teve a cautela de pretextar uma viagem \u00e0 vila vizinha, com certeza receando alguma molecagem do nosso agente postal. Foi por isso que ningu\u00e9m soube explicar o motivo do nervosismo que tomou conta dele naquela \u00e9poca. N\u00e3o se demorava mais em parte alguma, nem no armaz\u00e9m. Entrava, cheirava a ponta do rolo de fumo em cima do balc\u00e3o, esfregava na m\u00e3o um punhado de cereal de algum saco que estivesse perto, jogava uns gr\u00e3os na boca, sem notar o que estava fazendo, pedia para ver uma coisa ou outra, e antes que meu tio o atendesse ele cancelava o pedido e sa\u00eda apressado. No mercado era a mesma coisa, e em casa deu para descarregar a impaci\u00eancia nos meninos. Onde ele se demorava era na ag\u00eancia do correio, com certeza para vigiar a abertura das malas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Evidentemente o professor nada sabia dos caminhos da burocracia. Com certeza imaginava que a sua exposi\u00e7\u00e3o seria recebida pessoalmente pelo presidente, lida no mesmo dia, ou o mais tardar no dia seguinte, e uma resposta redigida imediatamente em papel oficial, intimando-o a tocar para a frente com a expedi\u00e7\u00e3o, com poderes para entrar na Coletoria e requisitar a verba necess\u00e1ria, enquanto n\u00f3s, os descrentes, ficar\u00edamos olhando admirados e envergonhados, doidos para ser inclu\u00eddos na expedi\u00e7\u00e3o, nem que fosse como cargueiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em vez de enfraquecer-lhe a esperan\u00e7a, parece que a demora deu ao professor mais disposi\u00e7\u00e3o para agir. Depois de alguns dias de espera ele passou um longo telegrama ao presidente, chamando-lhe respeitosamente a aten\u00e7\u00e3o para a exposi\u00e7\u00e3o e pedindo resposta urgente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando a resposta chegou, o telegrafista foi lev\u00e1-la pessoalmente, mas n\u00e3o encontrou o professor em casa. A mulher tamb\u00e9m tinha ido entregar costura em casa de uma freguesa. O telegrafista voltou \u00e0 cidade, nessa altura acompanhado por um bando de curiosos. Passaram no mercado, no armaz\u00e9m, na farm\u00e1cia, mas ningu\u00e9m tinha visto o professor. Por fim um menino que passava puxando um cargueiro de lenha informou que ele estava na beira do rio pelando um porco. Corremos para l\u00e1, aquele bando de gente entupindo as ruas, pisando os p\u00e9s uns dos outros, atraindo mulheres \u00e0s janelas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O professor estava de chap\u00e9u de palha de roceiro e roupa velha remendada, ati\u00e7ando fogo debaixo de uma lata de \u00e1gua. Um dos meninos mais velhos sa\u00eda de um matinho com uma bra\u00e7ada de gravetos. Ao ver o telegrafista o professor largou o fogo, saltou por cima do porco j\u00e1 morto no ch\u00e3o e avan\u00e7ou limpando as m\u00e3os na cal\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas a resposta estava longe de ser a que ele esperava (naturalmente j\u00e1 sab\u00edamos, s\u00f3 quer\u00edamos ver como ele recebia o telegrama). A mensagem, assinada por um secret\u00e1rio, dizia apenas que Sua Excel\u00eancia ainda n\u00e3o tinha estudado a exposi\u00e7\u00e3o, mas prometia uma decis\u00e3o logo que ela lhe chegasse \u00e0s m\u00e3os acompanhada dos indispens\u00e1veis pareceres.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Deixando cair o papel no capim sujo de sangue, o professor sentou-se em cima do porco e come\u00e7ou a chorar, como se de repente tivesse percebido a realidade. Desconcertados com essa rea\u00e7\u00e3o que n\u00e3o esper\u00e1vamos, afastmo-nos em pequenos grupos e voltamos calados para a cidade, ningu\u00e9m teve coragem de falar no choro do professor. N\u00e3o sei se est\u00e1vamos envergonhados por ele ou por n\u00f3s mesmos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A situa\u00e7\u00e3o agora havia se invertido. Todos procuravam conversar com o professor, distra\u00ed-lo de sua m\u00e1goa, mas ele n\u00e3o queria falar com ningu\u00e9m. Pelo h\u00e1bito ainda frequentava o armaz\u00e9m, mas ficava sentado olhando para o ch\u00e3o e co\u00e7ando os ouvidos com paviozinhos de papel que torcia meticulosamente, como se fosse um trabalho de muita import\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas, se n\u00f3s o conhec\u00eassemos de verdade, ter\u00edamos sabido que ele ainda esperava. Ele havia apenas dado um prazo \u00e0s autoridades, e estava aguardando que o prazo se esgotasse para tomar nova provid\u00eancia. Tanto que, numa segunda-feira de manh\u00e3, entrou de cabe\u00e7a erguida na ag\u00eancia do tel\u00e9grafo e mandou nova mensagem ao presidente, comunicando que \u00e0s dez horas iniciaria um protesto p\u00fablico contra o descaso oficial. A not\u00edcia espalhou-se depressa, e toda a vila passou a vigi\u00e1-lo de longe. Do tel\u00e9grafo ele foi ao armaz\u00e9m e comprou rapadura, farinha, carne-seca, fumo, palha, um ma\u00e7o de f\u00f3sforos, um rolo de corda grossa. Se a corda sugeria desatino, os outros itens nos tranquilizavam. Vimos quando ele saiu do armaz\u00e9m, atravessou o largo, entrou no beco do sapateiro e tomou o rumo de casa. Nesse ponto praticamente toda a popula\u00e7\u00e3o o acompanhava \u00e0 dist\u00e2ncia. Meninos iam e vinham correndo, em busca de informa\u00e7\u00e3o para as m\u00e3es que haviam ficado com panelas no fogo em casa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O professor entrou em casa com o saco das compras e logo apareceu \u00e0 janela, onde ficou debru\u00e7ado fumando tranquilamente, enquanto na rua a multid\u00e3o crescia de minuto a minuto. O povo j\u00e1 estava ficando impaciente, mas o professor parecia o homem mais calmo do mundo. Tinha o seu plano e n\u00e3o ia apress\u00e1-lo para agradar a assist\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando o rel\u00f3gio da cadeia bateu as dez horas, ele veio \u00e0 porta e convidou o povo a entrar para o quintal, haveria espa\u00e7o para todos, s\u00f3 pedia que n\u00e3o estragassem as plantas de d. Venira. Como o corredor era estreito, e todos queriam entrar ao mesmo tempo, houve empurr\u00f5es, p\u00e9s pisados, palavr\u00f5es, tumulto. Gente entrava pelas janelas, estragando a parede com o bico das botinas, outros pulavam o muro, cortando-se nos cacos de vidro. Num instante escangalharam a porta do corredor de tanto se espremerem contra ela.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No quintal havia uma cisterna seca tapada com uma porta velha, com enorme bloco de pedra em cima. O professor pediu que o ajudassem a afastar a pedra, retirou a porta para um lado e amarrou uma ponta da corda na pedra. At\u00e9 a\u00ed nenhuma suspeita do que ele pretendia fazer. Depois de verificar se o n\u00f3 estava firme ele despediu-se da mulher e dos filhos, todos de roupa nova e cabelo penteado com brilhantina, e sem mais aquela escorregou pela corda at\u00e9 o funda da cisterna. De l\u00e1 ia gritando para a mulher:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Rapadura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Farinha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Palha e fumo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u2014Carne.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dona Venira ainda lhe jogou a mais um cachecol e um guarda-chuva, recomendando-lhe que se agasalhasse bem \u00e0 noite. O povo correu para a beira do po\u00e7o, e o primeiro que chegou, com a pressa com que ia, teve que saltar por cima para n\u00e3o cair no buraco. Tive vontade de ver se o professor estava em p\u00e9, sentado ou agachado no fundo do po\u00e7o, mas n\u00e3o consegui uma brecha para olhar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todas as manh\u00e3s d. Venira escrevia numa lousa escolar, pendurada numa estaca ao lado do po\u00e7o, o n\u00famero de dias que o marido havia cumprido l\u00e1 dentro. O quintal ficava permanentemente cheio de gente, como se aquilo fosse um piquenique ou um pouso de folia. At\u00e9 cestos de comida levavam, \u00e0 noite acendiam fogueira, assavam batatas, duas meninas filhas do professor cantavam para distrair o povo, d. Venira aproveitou para armar uma barraquinha para vender refrescos e bolos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa romaria j\u00e1 durava mais de uma semana quando o delegado achou que j\u00e1 chegava e intimou o professor a subir. O professor respondeu que estava exercendo o direito de protesto, e que continuaria protestando at\u00e9 alcan\u00e7ar o seu objetivo. O delegado respondeu que aquilo n\u00e3o era protesto, era uma palha\u00e7ada, e deu uma hora de prazo para ser atendido por bem. A \u00fanica resposta do professor foi uma gargalhada confiante.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A curiosidade agora era saber de que maneira o delegado ia retirar o professor de dentro do po\u00e7o caso ele teimasse em n\u00e3o sair. De todos os lados partiam sugest\u00f5es, uns achavam que a melhor solu\u00e7\u00e3o seria despejar baldes de \u00e1gua na cisterna\u2014algu\u00e9m falou em \u00e1gua quente\u2014outros que o mais indicado nesses casos seriam tochas embebidas em querosene; e um camarada baixinho, de olhinhos vivos de coelho, recomendou que se tapasse a cisterna com a porta e se metesse fuma\u00e7a para dentro, como se faz para tirar tatu da toca. Ouvindo isso uma das filhas do professor, menina de seus doze a quatorze anos, come\u00e7ou a correr de um lado para outro, chorando e pedindo piedade, mas ningu\u00e9m se comovia; todos estavam ali para ver alguma coisa fora do comum, e n\u00e3o haviam de querer estragar o desfecho com um gesto de piedade fora de hora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o delegado j\u00e1 tinha o seu plano e n\u00e3o precisava de sugest\u00e3o de ningu\u00e9m; ele apenas esperava que o prazo se esgotasse para tomar suas provid\u00eancias\u2014e talvez at\u00e9 desejasse no \u00edntimo que a ordem fosse desobedecida, para ter uma ocasi\u00e3o de impor dramaticamente a sua autoridade. Quando consultou o rel\u00f3gio e disse que os sessenta minutos j\u00e1 haviam passado, a multid\u00e3o automaticamente abriu um corredor entre ele e o po\u00e7o, com certeza esperando que ele fosse descer pela corda e trazer o professor nas costas. Mas em vez de caminhar na dire\u00e7\u00e3o do po\u00e7o ele caminhou na dire\u00e7\u00e3o da casa! Ningu\u00e9m entendia mais nada. Ent\u00e3o ele estava apenas brincando quando fez a intima\u00e7\u00e3o? E claro que o desapontamento do povo n\u00e3o vinha de nenhum desejo de preservar a autoridade, mas do receio de perder algum espet\u00e1culo, sensacional ou engra\u00e7ado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando o delegado voltou de sua caleche trazendo uma enorme casa de marimbondos na ponta de um galho de abacateiro, o povo criou alma nova. Era a prova de que uma autoridade experience pensa melhor do que cem curiosos. Andando devagarinho para n\u00e3o balan\u00e7ar o galho, o delegado chegou \u00e0 beira do po\u00e7o e sem mais nenhum aviso soltou l\u00e1 dentro o galho com os marimbondos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naturalmente todos esperavam que o professor subisse do po\u00e7o como um foguete e sa\u00edsse desatinado pelo quintal, pulando e dando tapas por todos os lados\u2014mas nada aconteceu, nem um grito se ouviu. Olh\u00e1vamos uns para os outros espantados, como se na cara dos conhecidos pud\u00e9ssemos encontrar a explica\u00e7\u00e3o. Por fim aqueles de mais iniciativa foram na ponta dos p\u00e9s espiar dentro do po\u00e7o\u2014e quando contaram o que viram ningu\u00e9m acreditou, foi preciso que a multid\u00e3o inteira fizesse fila para ver com os pr\u00f3prios olhos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dentro do po\u00e7o s\u00f3 se via o galho de abacateiro engarranchado numa pedra e umas cascas de queijo que os marimbondos atacavam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fomos todos para casa de cabe\u00e7a baixa, sentindo-nos vilmente logrados.<\/span><\/p>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Conto do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Os cavalinhos de Platiplanto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1959)<\/span><\/h5>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\nFoto: Nayani Teixeira, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del editor: Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s. Quando eu era menino e morava numa vila do interior, assisti a um epis\u00f3dio bastante estranho, envolvendo um professor e sua fam\u00edlia. 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