{"id":26361,"date":"2023-09-17T01:01:05","date_gmt":"2023-09-17T07:01:05","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=26361"},"modified":"2023-09-21T19:04:57","modified_gmt":"2023-09-22T01:04:57","slug":"trechos-do-jornal-da-guerra-contra-os-taedos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2023\/09\/trechos-do-jornal-da-guerra-contra-os-taedos\/","title":{"rendered":"Trechos do Jornal da Guerra Contra os Taedos"},"content":{"rendered":"<p><em><b>Nota del Editor: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Presentamos este texto en el portugu\u00e9s original y en traducci\u00f3n al ingl\u00e9s. Despl\u00e1zate hacia abajo para leer en portugu\u00e9s, y <\/span><a href=\"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/2023\/09\/excerpts-from-journal-of-the-war-against-the-taedos\/\"><span style=\"font-weight: 400;\">haz click aqu\u00ed para leer en ingl\u00e9s<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b><br \/>\n*<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Resumindo: foi a Guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas, ambos filhos da puta.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depoimento de um historiador do minist\u00e9rio da propaganda dos taedos: Fiz confus\u00e3o na hora de contar, contei diferente de como tinha acontecido. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fiz confus\u00e3o, troquei dois nomes, uma data e um cen\u00e1rio, contei diferente de como tinha acontecido troquei um nome, duas datas e dois cen\u00e1rios, fiz confus\u00e3o, misturei algumas coisas, troquei um nome por uma data e um cen\u00e1rio por uma frase. Eu prometo que n\u00e3o vou repetir a confus\u00e3o. Vou presta aten\u00e7\u00e3o para, quando contar, dizer exatamente como foi que aconteceu. Quer dizer, prometer mesmo eu prefiro n\u00e3o prometer, chega na hora e me vem uma palavra melhor e eu acabo contanto diferente, eu prometo mesmo \u00e9 trocar pouca coisa, uns dois nomes sem import\u00e2ncia, uma data menor, um cen\u00e1rio pequeno, prometo trocar pouca coisa. Mas \u00e9 melhor n\u00e3o prometer nem isto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> Um dos historiadores do nosso minist\u00e9rio da propaganda tem um depoimento muito parecido, as \u00fanica diferen\u00e7as s\u00e3o dois nomes, uma data e um cen\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A guerra contra os taedos foi bem recebida por n\u00f3s porque eles eram nossos vizinhos. Atr\u00e1s do aparente paradoxo, paradoxo porque tem gente que cultiva a vizinhan\u00e7a, chega a convidar para o churrasco, atr\u00e1s do aparente paradoxo havia uma grande estrat\u00e9gia de guerra. Levantamentos sociol\u00f3gicos sobre a \u00e9poca revelaram que existia a ideia de vizinho ser o ideal de inimigo. A vizinhan\u00e7a, com sua \u00f3bvia proximidade, era um alvo com evidente vantagem para a nossa pontaria. O que chegou a ser chamado de ideia pregui\u00e7osa. Mas ent\u00e3o os levantamentos sociol\u00f3gicos foram substitu\u00eddos pelos levantamentos b\u00e9licos e descobriu-se que a proximidade era boa no quesito pontaria tamb\u00e9m para o nosso inimigo. O que serviu para mostrar que considerar o vizinho ideal de inimigo n\u00e3o \u00e9 uma ideia pregui\u00e7osa, \u00e9 outro tipo de ideia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um her\u00f3i n\u00e3o descansa enquanto ainda houver no peito espa\u00e7o para uma medalha<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Funcionou t\u00e3o bem que fomos obrigados a fazer uma atualiza\u00e7\u00e3o: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Um her\u00f3i n\u00e3o descansa nem quando no peito n\u00e3o j\u00e1 mais espa\u00e7o para uma medalha, porque s\u00e3o poss\u00edveis medalhas sobrepostas.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um fabricante de armas taedo estava produzindo mais do que seu ex\u00e9rcito necessitava, procurou o nosso ex\u00e9rcito para tentar empurrar o excedente, fizemos um bom neg\u00f3cio com ele. Compramos o excedente com a condi\u00e7\u00e3o de que 20% das armas que ele vendia para os taedos tivessem defeito de fabrica\u00e7\u00e3o. Ele se entusiasmou tanto com a ideia que prop\u00f4s 25%.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Governantes de v\u00e1rios pa\u00edses se apresentaram como mediadores na tentativa de acabar a guerra contra os taedos. Um deles, n\u00e3o me lembro se ingl\u00eas ou franc\u00eas, mas com forte sotaque alem\u00e3o ou japon\u00eas, conseguiu reunir representantes nossos e dos taedos numa conversa\u00e7\u00e3o de paz. Mas as discuss\u00f5es sobre a forma de realizar as reuni\u00f5es adiaram o in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es. O debate sobre o formato da mesa durou sete anos. A altura do espaldar das cadeiras, outro tanto. V\u00e1rios anos para decidir quem ficaria sentado perto da janela. Foi tamanha a demora que, quando a conversa\u00e7\u00e3o de paz come\u00e7ou, a guerra tinha terminado e se pensou que era hora de come\u00e7ar outra, j\u00e1 que a paz estava pr\u00f3xima porque as negocia\u00e7\u00f5es haviam sido iniciadas. N\u00e3o me recordo qual das guerras era aquela. Tivemos nove guerras contra os taedos \u2013 o mesmo n\u00famero de sinfonias de Beethoven. Aboli a informa\u00e7\u00e3o de que foram nove guerras, eu vou contanto como se fosse uma s\u00f3. Uma d\u00e1 trabalho, imagine nove. Beethoven n\u00e3o pensou nisso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma boa parte da hist\u00f3ria da guerra foi escrita antes da guerra. Ningu\u00e9m era louco, nem n\u00f3s nem os taedos, de come\u00e7ar a guerra sem algumas precau\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Fa\u00e7a de conta que isso \u00e9 um filme, que isto n\u00e3o est\u00e1 acontecendo com voc\u00ea<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Este argumento deixou a guerra mais amena para muita gente. Aquela bomba ali na esquina era um filme, o vizinho da esquina com a tev\u00ea num volume excessivamente alto. Os parentes e amigos mortos eram atores que sa\u00edram de cena e depois da guerra voltariam em outros filmes. Teria dado trabalho depois da guerra, mas a\u00ed foi s\u00f3 fazer de conta que n\u00e3o tinha nada com isso.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como a guerra come\u00e7ou? Isto perturbou os historiadores desde que a guerra come\u00e7ou. Eram muitas as hist\u00f3rias sobre o cap\u00edtulo que provocou a declara\u00e7\u00e3o de guerra, un\u00edssona, segundo alguns historiadores, un\u00edssona, os dois lados em perfeito dueto: guerra!! (Para evitar novos conflitos, dois pontos de exclama\u00e7\u00e3o.) Mas os historiadores adeptos da hist\u00f3ria oficial resolveram a quest\u00e3o escolhendo um dos muitos epis\u00f3dios que teriam provocado a guerra, e passou a ser ele dogmaticamente a causa da guerra. \u00c0s vezes interessava dizer que fomos n\u00f3s que come\u00e7amos a guerra, \u00e0s vezes n\u00e3o. Para quando interessava, adotamos que um general escorregou numa casca de banana e reconheceu entre as gargalhadas um sotaque taedo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O nosso primeiro-ministro disse: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 da ess\u00eancia da guerra ter mortos, mas estamos fazendo guerra tendo em vista a paz. Entretanto, s\u00e3o tamb\u00e9m muitos os mortos em tempos de paz, \u00e9 da ess\u00eancia da paz ter mortos, porque quando estamos em paz sempre temos em vista a guerra.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> A rainha n\u00e3o gostou e mandou matar o redator de discursos do primeiro-ministro.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os aliados s\u00e3o sempre um problema. Eles n\u00e3o entendem que a guerra n\u00e3o \u00e9 deles. A fun\u00e7\u00e3o dos aliados \u00e9 fornecer soldados, armas e dinheiro. E no fim da guerra, al\u00e9m de carregar a ta\u00e7a por alguns instantes, ter licen\u00e7a para liberar o saque para seus soldados, por exemplo, durante seis horas, e participar do processo de reconstru\u00e7\u00e3o, mas nada acima de 5%. O aliado \u00e9 apenas um carona. Na guerra contra os taedos n\u00f3s tivemos aliados que n\u00e3o entendiam o lugar deles. Um aliado chegou ao c\u00famulo de sugerir que deveria opinar sobre estrat\u00e9gia, alegando conhecimento b\u00e9lico. E mandou uma lista dos volumes b\u00e9licos que havia na biblioteca nacional deles. Aliado \u00e9 assim mesmo, acha que \u00e9 important\u00edssimo, nem imagina que um dia pode virar inimigo. Aliado \u00e9 um inimigo em potencial. Ficam aqueles problemas mal resolvidos dos tempos de alian\u00e7a e eis a\u00ed bons motivos para come\u00e7ar uma guerra. Os taedos foram nossos aliados em v\u00e1rias guerras, antes e depois das guerras contra os taedos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os taedos inventaram uma joana d\u2019arc e mandaram a menina para o front. No fim da guerra, ela voltou casada. Tr\u00eas filhos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As televis\u00f5es sempre tiveram um apre\u00e7o muito grande pelas m\u00e3es porque as imagens das mulheres expondo l\u00e1grimas pelos filhos mortos eram boas para separar blocos de reportagens sobre bombardeios, ataques, escaramu\u00e7as, explos\u00f5es, fuzilamentos, para baixar a tens\u00e3o b\u00e9lica e preparar o telespectador para o intervalo comercial. Mas foi assim apenas durante uma parte da guerra porque adotamos uma engenhosa solu\u00e7\u00e3o \u2013 posteriormente copiada pelos taedos \u2013; solu\u00e7\u00e3o para evitar os danos que as choradeiras causavam. Danos ser\u00edssimos, pois as l\u00e1grimas come\u00e7avam a convencer muita gente de que a guerra deveria acabar para que as m\u00e3es n\u00e3o sofressem tanto. A solu\u00e7\u00e3o foi bem simples, as m\u00e3es tamb\u00e9m foram enviadas para a guerra. Elas passaram a guerrear, n\u00e3o tinham mais tempo para chorar a morte dos filhos, nem sabiam onde os filhos andavam. Houve at\u00e9 casos de filhos que ficaram em casa quando as m\u00e3es foram para a guerra, segundo a televis\u00e3o, reportagem exibida no final do bloco, na v\u00e9spera do intervalo comercial.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s faz\u00edamos fronteira com os taedos, isto garantia muita emo\u00e7\u00e3o durante a guerra. Emo\u00e7\u00e3o por conta de uma geografia variada na linha da fronteira. Est\u00e1vamos separados dos taedos num ponto por um rio, no outro por montanhas e em mais outro por um mar interior, separados dos taedos por fronteiras definidas por estradas, cidades ou cercas de arame farpado, e tamb\u00e9m por pa\u00edses t\u00e3o pequenos que era como se n\u00e3o houvesse nada entre n\u00f3s e os taedos al\u00e9m da linha imagin\u00e1ria da fronteira \u2013 sem ofender aqueles pa\u00edses chamando-os de imagin\u00e1rios, n\u00e3o \u00e9 hora de come\u00e7ar uma guerra por causa ditos. Mas a fronteira mais delicada com os taedos era a do deserto, em algum ponto da areia, n\u00e3o se sabia exatamente onde ficava. O deserto acabou servindo para alguns exerc\u00edcios. N\u00f3s, por exemplo, ficamos muito tempo esperando que os taedos tentassem nos invadir pelo deserto. Esperamos a chegada deles, n\u00e3o chegaram, e por isso sempre que olhamos para o deserto, mesmo depois da guerra, ficamos imaginando que, como os taedos n\u00e3o vieram pelo deserto, talvez venham os t\u00e1rtaros. Estamos esperando os t\u00e1rtaros, e aproveitamos para esperar tamb\u00e9m os b\u00e1rbaros, j\u00e1 que eles podem ser uma solu\u00e7\u00e3o. Duas coisas ocupam o mesmo lugar no espa\u00e7o de uma espera. Ou tr\u00eas. Estamos tamb\u00e9m \u00e0 espera de Godot.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No nosso calend\u00e1rio c\u00edvico, o Dia da Vit\u00f3ria cai uma semana antes do Dia da Vit\u00f3ria do calend\u00e1rio c\u00edvico dos taedos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os oficiais tratavam os soldados como inimigos. Isto sempre deu certo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Das guerras napole\u00f4nicas, a \u00fanica influ\u00eancia \u00e9 o galicismo no t\u00edtulo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s n\u00e3o fomos os primeiros a mudar a data de uma revolu\u00e7\u00e3o. Muitas Hist\u00f3rias j\u00e1 fizeram isto. Mas n\u00f3s mudamos por uma necessidade compreens\u00edvel, facilitar a vida as crian\u00e7as na escola quando abrissem o livro de Hist\u00f3ria. A revolu\u00e7\u00e3o havia sido em 11. Mas que falta de for\u00e7a hist\u00f3rica tem a express\u00e3o Revolu\u00e7\u00e3o de 11. Ningu\u00e9m pode negar que Revolu\u00e7\u00e3o de 44 \u00e9 mais forte, mais consistente, mais verdadeira. Nossos historiadores haviam testado 22 e 33, mas Revolu\u00e7\u00e3o de 44 \u00e9 a exclama\u00e7\u00e3o potente sem necessidade de ponto de exclama\u00e7\u00e3o, e ficou sendo 44. Esta hist\u00f3ria n\u00e3o tem taedos no elenco. \u00c9 citada porque ela puxa uma outra hist\u00f3ria, esta sim com os taedos no habitual papel secund\u00e1rio. Mudamos a data da padroeira, Nossa Senhora de Tal, por um motivo ainda mais simples do que as necessidades hist\u00f3ricas da Revolu\u00e7\u00e3o de 44. A primeira apari\u00e7\u00e3o da Nossa Senhora de Tal havia sido no meio de uma reuni\u00e3o de ministros do governo, quando ela indicou algumas provid\u00eancias para o progresso do pa\u00eds. Uma das provid\u00eancias era acabar com os taedos para abrir novas perspectivas comerciais, tomar os neg\u00f3cios deles. A reuni\u00e3o ministerial com a apari\u00e7\u00e3o havia sido no dia 1 de abril, trocamos para 13 de agosto. Mas por que 13 de agosto? Tamb\u00e9m ideia da santa, oferecida ao presidente quando ele estava no banheiro, segundo a Hist\u00f3ria, fazendo a barba. A santa disse 13 de agosto. Nunca houve qualquer d\u00favida quando \u00e0 data porque, mesmo na emocionante situa\u00e7\u00e3o de estar diante da apari\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora de Tal, o presidente teve, no banheiro fazendo a barba, presen\u00e7a de esp\u00edrito, autocontrole e compreens\u00e3o da Hist\u00f3ria para anotar a data no primeiro peda\u00e7o de papel que a m\u00e3o dele alcan\u00e7ou. Isto est\u00e1 claro em todos os livros de Hist\u00f3ria, menos a origem da caneta. Nossa Senhora de Tal nunca mais apareceu, nem para receber o soldo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma chuva de granizo caiu somente do nosso lado e fez muitos estragos. Dois generais dos taedos queriam para si o cr\u00e9dito pela destrui\u00e7\u00e3o. Um dizia que fez a dan\u00e7a da chuva e provocou o granizo. O outro alegava que pediu a chuva de granizo para Deus e foi atendido. N\u00f3s n\u00e3o ficamos sabendo como a hist\u00f3ria entre os generais acabou porque os taedos evitaram que os detalhes transpirassem. S\u00f3 sei que um dos nossos principais generais usou o exemplo e fez as\u00a0 duas coisas, dan\u00e7a da chuva e pedido a Deus, mas n\u00e3o foi atendido com granizo. Os taedos tiveram, porra, uma semana de sol. Muitos dos taedos que n\u00f3s matamos estavam bronzead\u00edssimos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s demorarmos um pouco para entender. Os taedos come\u00e7aram a construir pir\u00e2mides. Enlouqueceram, pensamos. Ou v\u00e3o usar as pir\u00e2mides para lan\u00e7ar m\u00edsseis. Hoje, quando vamos fazer turismo nas pir\u00e2mides taedas, entendemos tudo e at\u00e9 temos uma ponta de orgulho. Aquelas magn\u00edficas pir\u00e2mides taedas foram constru\u00eddas por n\u00f3s. Pelos nossos soldados, prisioneiros de guerra dos taedos. Uma ponta de orgulho.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Convoca\u00e7\u00e3o de covardes. Era uma boa maneira de aumentar as nossas tropas. Mas para que os covardes se alistassem foi necess\u00e1ria uma campanha para mostrar que a covardia era um caminho muito f\u00e1cil para o hero\u00edsmo. Imobilizado, os \u00fanicos movimentos eram o bater de dentes, sujar as cal\u00e7as, chorar de medo e, sem coragem para sair do lugar, enfrentar o inimigo. Foram assim formados os batalh\u00f5es de covardes, e a cena se repetiu: soldados im\u00f3veis de medo permaneceram no posto e acabaram enfrentando heroicamente o inimigo taedo. H\u00e1 o registro de milhares de casos de hero\u00edsmo, mas nunca al\u00e9m do hero\u00edsmo moderado.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Apareceu um sujeito no nosso estado-maior oferecendo a c\u00f3pia de um documento taedo com toda a t\u00e1tica b\u00e9lica deles. Pediu muito dinheiro. O estado-maior disse que aquele era um assunto do servi\u00e7o de espionagem. Este, diante do tamanho do pre\u00e7o, informou ao sujeito que compra de documentos secretos do inimigo era da al\u00e7ada do minist\u00e9rio de guerra. O ministro foi o mais claro de todos. Disse que o minist\u00e9rio de guerra estava mal de finan\u00e7as e mandou o sujeito vender a c\u00f3pia do documento para o presidente ou o primeiro-ministro ou o rei ou a rainha, quem estivesse de plant\u00e3o naquele dia. A hist\u00f3ria andou ainda um tanto, mas sem fechar neg\u00f3cio. O sujeito deve ter tocado fogo na c\u00f3pia do documento. Mas n\u00e3o significa que a hist\u00f3ria parou a\u00ed. Todos tiveram a mesma ideia, estado-maior, servi\u00e7o de espionagem, minist\u00e9rio da guerra, presidente, primeiro-ministro, rei e rainha, todos tiveram a mesma ideia. Criaram um documento falso e venderam para si mesmos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s t\u00ednhamos um trecho de fronteira ao sul, ou norte, muito desguarnecido, um charco sem interesse de ocupa\u00e7\u00e3o. A regi\u00e3o era muito dif\u00edcil de proteger, ou n\u00e3o. Os taedos sabiam disto, ou n\u00e3o, e n\u00f3s t\u00ednhamos informa\u00e7\u00f5es que viria por ali uma invas\u00e3o, ou n\u00e3o. Era necess\u00e1rio proteger aquela fronteira ao norte, ou sul. Foi durante uma solenidade patri\u00f3tica no Museu do Ex\u00e9rcito que algu\u00e9m teve a ideia. Transportamos para a fronteira desguarnecida uma das mais preciosas joias do museu, o Batalh\u00e3o de Estafermos, que servia para que as crian\u00e7as aprendessem sobre a nossa cavalaria de antigamente, ou n\u00e3o. Como o batalh\u00e3o de madeira na fronteira, os taedos ficaram esperando a invas\u00e3o. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Por que eles n\u00e3o se mexem?,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> diziam os taedos, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">deve ser guerra psicol\u00f3gica<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, diziam os taedos, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">parecem est\u00e1tuas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, diziam os taedos. Durou alguns anos. Os taedos contam a hist\u00f3ria com algumas variantes.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sab\u00edamos o que fazer com tantos prisioneiros de guerra, havia mais taedos presos aqui do que livres l\u00e1. Acabamos fazendo um neg\u00f3cio bom para os dois lados. Vendemos os prisioneiros para os taedos. Negocia\u00e7\u00e3o realizadas com a tabela de pre\u00e7os do tempo da escravid\u00e3o. Era t\u00e3o alto o n\u00famero de prisioneiros taedos que nem cogitamos a hip\u00f3tese de receber o pagamento e n\u00e3o entregar a mercadoria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A guerra come\u00e7ou a ficar enfadonha. Era necess\u00e1rio criar novos interesses. Mudamos o design do painel dos tanques, tra\u00e7os mais ousados. Novas cores para as ogivas nucleares (verde-piscina, areia, ocre). Metralhadora modelo do ano. Bombas com efeitos pirot\u00e9cnicos acompanhados por orquestra pr\u00e9-gravadas. Avi\u00f5es descarregando bombas coloridas que permitiam melhor visualiza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da tev\u00ea. Lan\u00e7a-chamas em bisnaga de lan\u00e7a-perfume. Granadas tem\u00e1ticas: as quatro esta\u00e7\u00f5es, os cinco sentidos, os quatro elementos (chegou-se a cogitar um quinto elemento, a moeda, mas nesta \u00e9poca as granadas tem\u00e1ticas j\u00e1 estavam saindo de moda, n\u00e3o valia a pena). O projeto de recuperar o interesse na guerra deu certo porque os taedos entenderam a gravidade da situa\u00e7\u00e3o e adotaram a ideia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Todo mundo lembra que as conversa\u00e7\u00f5es de paz esbarraram, primeiro, no formato da mesa de discuss\u00f5es. Depois na quest\u00e3o de quem ficaria perto da janela. E tamb\u00e9m n\u00e3o houve entendimento sobre o hor\u00e1rio do coffee break. As conversa\u00e7\u00f5es foram realizadas numa mesa redonda dentro de uma sala sem janelas e com a aus\u00eancia do servi\u00e7o de copa. O que era para ser arrastado, arrastou-se. Mas n\u00e3o o suficiente. Repentinamente percebeu-se que as conversa\u00e7\u00f5es de paz estavam caminhando em uma dire\u00e7\u00e3o perigosa, os representantes dos dois lados n\u00e3o entenderam o esp\u00edrito de uma conversa\u00e7\u00e3o de paz. Antes que acontecesse o pior, n\u00f3s e os taedos nos juntamos, era preciso acabar com aquilo antes que eles acabassem com isto. Os taedos entraram com o canh\u00e3o e n\u00f3s com a bala. O endere\u00e7o das conversa\u00e7\u00f5es de paz deixou de existir. A reuni\u00e3o durante a qual aquele local foi transformado em alvo passou para a Hist\u00f3ria como Port\u00e3o do Al\u00e9m.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os taedos eram muito atrasados, s\u00f3 conheceram a escrita no nov\u00edssimo testamento. Assim mesmo por acaso, gra\u00e7as aos passageiros de um objeto em forma de pires que pousou numa planta\u00e7\u00e3o de banana-da-terra.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os taedos tinham o costume de rezar pelos mortos. Todos os dias \u00e0s seis da tarde eles se reuniam para fazer ora\u00e7\u00f5es. Para n\u00f3s era muito simples, bastava localizar o lugar da reuni\u00e3o e jogar uma bomba em cima. Mesmo assim os taedos continuavam rezando todos os dias \u00e0s seis da tarde, cada bomba era mais um motivo para rezar. Eles chamavam isso de livre-arb\u00edtrio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Havia abaixo-assinados contra e a favor da guerra. O maior argumento a favor da guerra era a origem divina de todos os estados de beliger\u00e2ncia. Os pacifistas gritavam slogans dizendo que era preciso fazer amor em vez de guerra. Como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel fazer amor durante a guerra.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A crise dos m\u00edsseis n\u00e3o houve. Uma tentativa bilateral de criar suspense para tirar a ind\u00fastria da m\u00eddia dos dois pa\u00edses de uma crise econ\u00f4mica n\u00e3o funcionou porque as negocia\u00e7\u00f5es andaram somente at\u00e9 o ponto em que um dos lados deveria assumir o papel de bandido. N\u00f3s e os taedos n\u00e3o quer\u00edamos o personagem, portanto foi cancelada a crise dos m\u00edsseis. A ind\u00fastria da m\u00eddia saiu da crise econ\u00f4mica diversificando as atividades, entrou no ramo da agiotagem.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Duvido que voc\u00ea tenha algo melhor para fazer. Venha para a guerra.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> A frase funcionou maravilhosamente bem. Tanto que os taedos copiaram. Sem pedir autoriza\u00e7\u00e3o, aqueles canalhas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O nosso sistema previdenci\u00e1rio n\u00e3o contava para a aposentadoria o tempo do soldado em guerra. Se o soldado achasse que aquele per\u00edodo nas trincheiras valia como trabalho, que fosse pedir aposentadoria para os taedos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dia a guerra encheu o saco. Era hora de acabar. Quem sabe, por que n\u00e3o?, recome\u00e7ar mais tarde. Enfim, um dia, pois \u00e9, a guerra encheu o saco. N\u00e3o vendia jornal, ficava fora de telejornais, r\u00e1dios esqueceram que est\u00e1vamos n\u00f3s e os taedos em guerra. Cedeu espa\u00e7os para os recordes de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Vejam s\u00f3. Uma guerra que perdia espa\u00e7o para o recordes de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Pelamordedeus, tinha mesmo que acabar. Entretanto, uma guerra n\u00e3o acaba assim sem mais nem menos. Deve existir algo marcante, diria at\u00e9 algo hist\u00f3rico. O assassinato de um duque, bar\u00e3o, pr\u00edncipe ou primeiro-ministro, isso sim era um fim de guerra adequado, um fim em que a quest\u00e3o humana estaria acima de tudo. Combinamos com os taedos o seguinte: matar\u00edamos um duque, um bar\u00e3o, um pr\u00edncipe e um primeiro-ministro e terminar\u00edamos a guerra. As mortes foram providenciadas. N\u00f3s entramos com um duque e um primeiro-ministro, os taedos com um bar\u00e3o e um pr\u00edncipe. Cada um matou os seus para ganhar tempo. Outra lembran\u00e7a muito forte daquela \u00e9poca eram os recorder da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A avia\u00e7\u00e3o taeda atacou uma fazenda de cria\u00e7\u00e3o de galinhas. Confundiu com uma f\u00e1brica de armas. Morreram 12.000 galinhas. Os taedos negam. N\u00f3s confirmamos. Temos contabilidade. Foram exatamente 12.033 galinhas. O que mais incomodou os taedos foi que passamos a fazer um minuto de sil\u00eancio pela mem\u00f3ria das galinhas. Um deboche, segundo a Hist\u00f3ria, mas a nossa inten\u00e7\u00e3o era sinceramente homenagear as galinhas sacrificadas naquela odiosa carnificina.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quem est\u00e1 ganhando a guerra?<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; N\u00f3s!<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; N\u00f3s!<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nossos soldados invadiram o territ\u00f3rio taedo pelo norte. De bicicleta. N\u00e3o houve batalha. Os taedos ficaram t\u00e3o humilhados pelo tamanho do nosso desprezo \u2013 atacar de bicicleta \u2013 que preferiram gastar o tempo desmentindo a not\u00edcia de que nossos soldados, de bicicleta, invadiram o territ\u00f3rio deles. Ent\u00e3o eles resolveram nos humilhar, mas apenas nos plagiaram. Invadiram o nosso territ\u00f3rio pelo norte. De camelo. Ficamos t\u00e3o humilhados pelo tamanho do desprezo deles \u2013 atacar com camelos \u2013 que preferimos gastar o tempo desmentindo a not\u00edcia de que os soldados deles, de camelo, invadiram o nosso territ\u00f3rio.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Foi determinado por lei que, em raz\u00e3o da necessidade de pressa em tempo de guerra, a palavra guerra poderia ser escrita ou pronunciada com um erre apenas. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Pequenas atitudes como esta ajudam a ganhar a guerra<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, disso o porta-voz do ex\u00e9rcito. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">E por que n\u00e3o porra com um erre s\u00f3?,<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> disse o porta-voz da Gram\u00e1tica.<\/span><sup><span style=\"font-weight: 400;\">1<\/span><\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O ex\u00e9rcito providenciou que todas as fam\u00edlias dos nossos soldados estivessem na mais absoluta normalidade quando eles voltassem da guerra. Para evitar que virassem filmes produzidos pelos taedos.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um dos nossos mais ativos belicistas escreveu um livro defendendo a paz. Chama-se <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A arte da paz<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, \u00e9 claro. Ainda deve estar dispon\u00edvel em alguma biblioteca ou museu do ex\u00e9rcito. Na capa, uma bandeirola com a palavra <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">bang <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">sai da boca de um canh\u00e3o. Os lucros com a venda do livro, informava uma frase de letras diminutas acrescida ao colof\u00e3o, seriam utilizadas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">na compra de muni\u00e7\u00e3o para matar taedos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Tem gente que ainda cai no golpe da letra miudinha.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A convoca\u00e7\u00e3o chegou por telegrama, carta, telefone, e-mail, fax e pessoalmente. O funcion\u00e1rio que bateu na minha porta tinha um \u00fanico bra\u00e7o, nenhuma das pernas. Comunicou o que eu j\u00e1 sabia por telegrama, carta, telefone, e-mail e fax: o narrador deste Jornal havia sido convocado para a guerra. O funcion\u00e1rio da comunica\u00e7\u00e3o pessoal contou que tinha voltado do front havia 15 dias e estava destacado para servi\u00e7os burocr\u00e1ticos. Disse com certa dramaticidade que ele era a prova de que existir a possibilidade de se retornar vivo do front. Bem, minha convoca\u00e7\u00e3o ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde. Algu\u00e9m teria a ideia em algum momento, talvez eu pr\u00f3prio. Embarquei para o front imaginando qual seria o meu servi\u00e7o burocr\u00e1tico na volta. Escrever o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Jornal da guerra contra os taedos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, mas eu ainda n\u00e3o sabia. Viajei de trem, minha noiva estava na plataforma me dando adeus. Eu n\u00e3o tinha noiva mas uma lei exigia que todo soldado tivesse uma noiva dando adeus na plataforma. A lei determinava que para quem n\u00e3o tivesse noiva o governo providenciasse uma. A minha era bem bonitinha. O bilhete do trem era claro. Destino: Front. Front com a mesma simplicidade de Paris, New York, Roma, Marte. Supus que a passagem era s\u00f3 de ida por economia, a passagem de volta poderia ser um gasto in\u00fatil, o folheto de instru\u00e7\u00f5es me orientava para providenciar a passagem de volta na volta <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">se for o caso<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. O folheto me dava outras informa\u00e7\u00f5es importantes. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Objetivo da viagem: matar taedos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Fiquei d\u00favida quando \u00e0 exclama\u00e7\u00e3o mais apropriada para minha miss\u00e3o: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">viva!<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> ou <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">porra! <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Optei patrioticamente por <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">viva!<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> O folheto mostrava tamb\u00e9m as vantagens da fast-food nas trincheiras, como limpar o rabo sem papel, o que dizer nas cartas para a fam\u00edlia (j\u00e1 trazia cartas prontas, bastava colocar o nome do destinat\u00e1rio e do remetente). Na \u00faltima p\u00e1gina do folheto havia<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Capturamos um espi\u00e3o taedo que, enquanto apanhava um pouco, deu o seguinte depoimento: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu era pequeno e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu sempre respondia que queria ser espi\u00e3o, este \u00e9 o meu \u00fanico motivo, portanto d\u00e1 pra parar de bater?<\/span><\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O general que plagiava discursos de Churchill n\u00e3o deixou um livro de discursos porque Churchill fez isso por ele.\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um funcion\u00e1rio do nosso servi\u00e7o secreto esqueceu a pasta no banco traseiro de um t\u00e1xi. Ele explicou: <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Em toda guerra um funcion\u00e1rio do servi\u00e7o secreto esquece a pasta no banco traseiro de um t\u00e1xi, s\u00f3 n\u00e3o sabe quem n\u00e3o vai ao cinema.<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Durante a guerra, de que lado voc\u00ea ficou?<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">&#8211; Da ind\u00fastria b\u00e9lica. Existe outro lado?\u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"font-weight: 400;\">*<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No per\u00edodo da guerra em que n\u00f3s \u00e9ramos uma monarquia, derrubamos o rei porque prefer\u00edamos uma rainha, como os ingleses, naquela \u00e9poca os ingleses tinham rainha. O rei que assumiu o trono tamb\u00e9m tinha prefer\u00eancias, preferia a rep\u00fablica, e come\u00e7ou o per\u00edodo da guerra em que n\u00f3s \u00e9ramos uma rep\u00fablica. Mas os monarquistas n\u00e3o estavam mortos, com a ajuda dos taedos eles derrubaram o presidente e restabeleceram a monarquia, agora com rei e rainha. A rainha deu um golpe, derrubou o rei e proclamou a rep\u00fablica. Etc. Esta nota \u00e9 necess\u00e1ria para que ningu\u00e9m pense que, ao aparecer neste Jornal as palavras rainha, rei e presidente, o historiador esteja fazendo confus\u00e3o, a confus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 do historiador, \u00e9 da Hist\u00f3ria.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><sup><span style=\"font-weight: 400;\">1<\/span><\/sup><span style=\"font-weight: 400;\"> As palavras eram batalha e cacete, que t\u00eam dois erres na l\u00edngua do redator deste Jornal. A tradu\u00e7\u00e3o optou por duas palavras com dois erres em portugu\u00eas para que fizessem algum sentido. (Nota do Tradutor)<\/span><\/h6>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><\/h5>\n<h5 style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-weight: 400;\">Trechos do livro <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Jornal da Guerra Contra os Taedos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Kafka Edi\u00e7\u00f5es, 2008)<\/span><\/h5>\n<h6><\/h6>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Mert Kahveci, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del Editor: Presentamos este texto en el portugu\u00e9s original y en traducci\u00f3n al ingl\u00e9s. Despl\u00e1zate hacia abajo para leer en portugu\u00e9s, y haz click aqu\u00ed para leer en ingl\u00e9s. * Resumindo: foi a Guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas, ambos filhos da puta.\u00a0 * Depoimento de um historiador do minist\u00e9rio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":26975,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[2886],"tags":[4658],"genre":[],"pretext":[],"section":[],"translator":[4645],"lal_author":[4643],"class_list":["post-26361","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura-brasilena","tag-numero-27-es","translator-livia-lakomy-es","lal_author-manoel-carlos-karam-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26361"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27644,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26361\/revisions\/27644"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26975"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26361"},{"taxonomy":"genre","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/genre?post=26361"},{"taxonomy":"pretext","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/pretext?post=26361"},{"taxonomy":"section","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/section?post=26361"},{"taxonomy":"translator","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/translator?post=26361"},{"taxonomy":"lal_author","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/lal_author?post=26361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}