{"id":2392,"date":"2018-07-25T19:32:16","date_gmt":"2018-07-26T01:32:16","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2018\/07\/sombras-de-reis-barbudos-jose-j-veiga\/"},"modified":"2023-06-06T09:39:23","modified_gmt":"2023-06-06T15:39:23","slug":"sombras-de-reis-barbudos-jose-j-veiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2018\/07\/sombras-de-reis-barbudos-jose-j-veiga\/","title":{"rendered":"De Sombras de reis barbudos de Jos\u00e9 J. Veiga"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<p><strong>Nota del editor:\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Es un honor para LALT publicar un fragmento exclusivo de la traducci\u00f3n al ingl\u00e9s de\u00a0<em>Sombras de reis barbudos<\/em>\u00a0de Jos\u00e9 J. Veiga, traducido por Rahul Bery, como la primera entrega de una serie permanente dedicada a la literatura brasile\u00f1a. Presentamos este fragmento en ingl\u00e9s y portugu\u00e9s.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Cap\u00edtulo 1: A chegada<\/strong><\/p>\n<p>Est\u00e1 bem, m\u00e3e. Vou fazer a sua vontade. Vou escrever a hist\u00f3ria do que aconteceu aqui desde a chegada de tio Baltazar. Sei que esse pedido insistente \u00e9 um truque para me prender em casa, a senhora acha perigoso eu ficar andando por a\u00ed mesmo hoje, quando os fiscais j\u00e1 n\u00e3o fiscalizam com tanto rigor. Talvez seja mesmo uma boa maneira de passar o tempo, j\u00e1 estou cansa-do de bater pernas pelos lugares de sempre e s\u00f3 ver essa tristeza de casas vazias, janelas e portas batendo ao vento, mato crescendo nos p\u00e1tios antes t\u00e3o bem tratados, lagartixas passeando atrevidas at\u00e9 em cima dos m\u00f3veis, gamb\u00e1s fazendo ninho nos fog\u00f5es apagados, se vingando do tempo em que corriam perigo at\u00e9 no fundo dos quintais.<\/p>\n<p>Pensei que ia ser f\u00e1cil escrever a nossa hist\u00f3ria, estando os acontecimentos ainda vivos na minha lembran\u00e7a. Mas foi s\u00f3 eu me sentar aqui, pegar o l\u00e1pis e o caderno, e ficar parado sem saber como come\u00e7ar. Mam\u00e3e diz que n\u00e3o vai ler os meus escritos porque n\u00e3o tem cabe\u00e7a para leitura e tamb\u00e9m porque j\u00e1 sabe tudo melhor do que eu. Est\u00e1 claro que \u00e9 mais um truque para me deixar \u00e0 vontade. Ela \u00e9 esperta, pensa em tudo. Preciso ter muito cuidado para n\u00e3o deixar o caderno esquecido por a\u00ed, principalmente se eu resolver falar no meu procedimento em casa de tio Baltazar.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que eu estaria aqui escrevendo se tio Baltazar n\u00e3o tivesse vindo para c\u00e1 com a ideia de fundar a Companhia? N\u00e3o estou pensando que a culpa foi dele; a ideia era boa e entusias-mou todo mundo. Mas a hist\u00f3ria que vou contar come\u00e7a mesmo com a chegada de tio Baltazar. Quem podia imaginar naquele tempo de alegria e festa que um sonho t\u00e3o bonito ia degenerar nessa calamitosa Companhia Melhoramentos de Taitara? Pobre tio Baltazar, como estaria sofrendo se ainda vivesse. Acho que foi pensando no sofrimento dele que mam\u00e3e n\u00e3o chorou muito quando finalmente recebemos a not\u00edcia.<\/p>\n<p>Eu tinha onze anos quando tio Baltazar chegou da primeira vez. Estava casado de novo, mas veio sozinho e com fama de muito rico. Relembrando aqueles tempos, meu pai me disse que depois de alguns dias aqui tio Baltazar pensou em desistir da Companhia e voltar. Agora eu pergunto de novo: se ele tivesse voltado naquela ocasi\u00e3o, ser\u00e1 que ainda estaria vivo? E se ele n\u00e3o tivesse fundado a Companhia, ser\u00e1 que ter\u00edamos passado por tu-do o que passamos? Mas perguntar essas coisas agora \u00e9 o mesmo que dizer que se o bezerro da vizinha n\u00e3o tivesse morrido ainda estaria vivo. Estou aqui para falar do que aconteceu, e n\u00e3o do que deixou de acontecer.<\/p>\n<p>Tio Baltazar. Um nome, a fama, muitas fotografias \u2014 assim era que eu o conhecia. Parece que ele achava absolutamente necess\u00e1rio a pessoa tirar retrato todo m\u00eas, ou toda semana. Fre-quentemente mam\u00e3e recebia uma fotografia dele tirada em es-t\u00fadio de retratista ou ao ar livre por algum amigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">* \u00a0 * \u00a0 *<\/p>\n<p>Lembro\u2011me especialmente de uma, tirada ao volante de um lustroso carro esporte que os entendidos aqui diziam ser de fabri-ca\u00e7\u00e3o italiana e muito caro: tio Baltazar aparecia com o bra\u00e7o esquerdo descansando na porta do carro, o cabelo repartido no meio, camisa de gola aberta dobrada sobre o palet\u00f3 xadrez igual aos que os artistas de cinema estavam usando, piteira com cigarro na boca, sorriso de rico no rosto simp\u00e1tico. Essa fotografia, com dedicat\u00f3ria para mam\u00e3e, fez o maior sucesso entre nossos amigos, al\u00e9m de v\u00ea\u2011la muitos queriam mostrar a outros. Entre zelosa e vaidosa, mam\u00e3e emprestava; mas se a pessoa demorava a devol-ver, eu recebia a miss\u00e3o de ir busc\u00e1\u2011la, um documento daquela import\u00e2ncia n\u00e3o podia passar muito tempo em m\u00e3os profanas.<\/p>\n<p>Se estou aqui para contar a verdade n\u00e3o posso esconder o meu desapontamento quando vi tio Baltazar descendo do carro em nossa porta. No primeiro momento pensei que fosse outra pessoa, um amigo ou empregado. O cabelo era bem mais ralo e n\u00e3o estava mais repartido ao meio, acho que porque essa moda j\u00e1 tinha passado. E o rosto n\u00e3o era t\u00e3o mo\u00e7o como o das fotografias. Mas o que me decepcionou mesmo, at\u00e9 me assustou, foi a falta de um bra\u00e7o. Onde estava o bra\u00e7o esquerdo que descansava na porta do carro na fotografia famosa? Vendo\u2011o sair do carro ajudado pelo chofer, a manga vazia do palet\u00f3 metida no bolso, a bela imagem de um tio campe\u00e3o em muitos esportes virou fu-ma\u00e7a ali mesmo. Eu j\u00e1 tinha visto pessoas sem perna, sem bra\u00e7o, sem m\u00e3o, at\u00e9 um homem sem nariz eu vi de joelhos ao meu la-do na igreja na Semana Santa: mas n\u00e3o eram meus tios. Fiquei t\u00e3o decepcionado que fui me esconder no por\u00e3o e nem apareci para o jantar. \u00c9 dif\u00edcil entender, mas pensando no meu procedi-mento naquele dia parece que eu acusava tio Baltazar de ter cortado o bra\u00e7o s\u00f3 para me humilhar diante de meus amigos.<\/p>\n<p>Mas ningu\u00e9m se preocupou muito com a minha falta, s\u00f3 ouvi mam\u00e3e me chamar uma vez; e eu mesmo fui ficando curio-so de saber o motivo do desinteresse por mim. Se a minha falta n\u00e3o era notada, ent\u00e3o alguma coisa muito importante devia estar acontecendo l\u00e1 em cima enquanto eu fazia papel de morcego escondido no escuro. Resolvi sair antes que ficasse mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Primeiro passei na cozinha para comer alguma coisa en-quanto estudava a maneira de me mostrar na sala. Eu estava mexendo nas panelas quando mam\u00e3e apareceu para providen-ciar mais caf\u00e9 e me apanhou de surpresa.<\/p>\n<p>\u2014 Com efeito, Lu \u2014 ela disse em tom de quem n\u00e3o est\u00e1 ligando muito. \u2014 Seu tio chega e voc\u00ea some. Ser\u00e1 que o farran-cho na rua n\u00e3o podia esperar?<\/p>\n<p>Ainda bem que ela pensava que tinha sido o farrancho. Eu j\u00e1 estava achando que era bobagem fugir de tio Baltazar s\u00f3 por causa da falta de um bra\u00e7o. Ent\u00e3o quem perde uma perna ou um bra\u00e7o deixa de ser gente? E aquele detetive aleijado que eu no cinema derrotando na briga uma por\u00e7\u00e3o de bandidos per-feitos? Pena que eu n\u00e3o tivesse me lembrado desse filme antes.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e estava me olhando, e eu vi que ela sabia a verdade. Mas em vez de me censurar, ela alisou o meu cabelo e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Coma qualquer coisa e venha falar com ele. Ele tem uma surpresa para voc\u00ea, est\u00e1 ansioso por saber se voc\u00ea vai gostar. Eu vou dizer que voc\u00ea teve reuni\u00e3o na escola.<\/p>\n<p>Comi depressa, nem toquei na sobremesa. Entrei na sala ainda limpando a boca.<\/p>\n<p>\u2014 Finalmente chegou o estudioso \u2014 disse tio Baltazar des-cansando o charuto no cinzeiro. \u2014 Venha aqui para eu ver voc\u00ea de perto. Mas \u00e9 a cara do av\u00f4, hein, Vi? Nunca vi parecer tanto. Como vai na escola? Boas notas? Estude bastante, mas n\u00e3o se esque\u00e7a de brincar tamb\u00e9m. Quem s\u00f3 estuda e n\u00e3o brinca fica magro e com aquela cara antip\u00e1tica de g\u00eanio, e n\u00f3s n\u00e3o quere-mos isso na fam\u00edlia. N\u00e3o \u00e9, Hor\u00e1cio?<\/p>\n<p>A pergunta foi dirigida a meu pai, que fumava calado num canto da mesa. E antes que ele tomasse provid\u00eancia para respon-der, tio Baltazar continuou, tirando um embrulhinho estreito do bolso:<\/p>\n<p>\u2014 Eu trouxe isto para voc\u00ea. Veja se gosta.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e fez sinal para eu abrir o embrulho, meu pai conti-nuava fumando e fazendo for\u00e7a para mostrar indiferen\u00e7a. (Eu ainda n\u00e3o sabia de certas coisas entre meu pai e tio Baltazar.) Retirado o papel, apareceu uma caixinha preta com trinco na tampa. Abri a caixa e n\u00e3o acreditei. Dentro tinha um rel\u00f3gio dourado com pulseira dourada deitadinho num ber\u00e7o de velu-do, rel\u00f3gio de verdade.<\/p>\n<p>Experimentamos o rel\u00f3gio no meu pulso, tio Baltazar me ensinou a graduar o tamanho da pulseira, ficou frouxa mesmo na gradua\u00e7\u00e3o menor. Mam\u00e3e ia dizendo que eu esperasse uns dois meses ou tr\u00eas \u2014 eu n\u00e3o quis ouvir, disse que estava bom assim mesmo e me afastei, com medo que me tirassem o rel\u00f3gio. At\u00e9 meu pai, que parecia longe de tudo, riu e disse que duvidava que eu tivesse paci\u00eancia para esperar dois ou tr\u00eas meses.<\/p>\n<p>Olhando o rel\u00f3gio em meu pulso, ou sentindo o peso dele quando abaixava o bra\u00e7o, eu achava que alguma coisa n\u00e3o estava certa, um objeto t\u00e3o valioso n\u00e3o podia ser meu de verdade, uma desconfian\u00e7a que durou muitos dias. Mas desde o momento em que tio Baltazar colocou o rel\u00f3gio em meu pulso eu esqueci que ele era aleijado. Quando ele descansou o rel\u00f3gio na mesa e trabalhou com uma m\u00e3o s\u00f3 para encurtar a pulseira, ele estava era mostrando a facilidade de se fazer esse trabalho.<\/p>\n<p>Mam\u00e3e ficou desapontada quando soube que tio Baltazar tinha alugado quartos no Grande Hotel S\u00edria e L\u00edbano e n\u00e3o ia se hospedar em nossa casa. Mas quase todo dia ele vinha almo-\u00e7ar ou jantar, e nos domingos me levava para passear de autom\u00f3-vel, eu ia sozinho porque mam\u00e3e foi uma vez e enjoou e meu pai nunca podia ir, quando n\u00e3o estava cansado, estava com dor de cabe\u00e7a ou tinha alguma visita a fazer, acho que nem uma vez ele entrou naquele carro.<\/p>\n<p>Um dia tio Baltazar viajou para buscar tia Dulce, e a segun-da chegada foi outra festa ainda melhor, porque durou muitos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1 bem, m\u00e3e. Vou fazer a sua vontade. Vou escrever a hist\u00f3ria do que aconteceu aqui desde a chegada de tio Baltazar. 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