{"id":20296,"date":"2022-12-10T09:10:37","date_gmt":"2022-12-10T15:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=20296"},"modified":"2023-05-21T18:10:47","modified_gmt":"2023-05-22T00:10:47","slug":"recepcao-de-animais-ou-29-retratos-de-uma-tarde-generica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2022\/12\/recepcao-de-animais-ou-29-retratos-de-uma-tarde-generica\/","title":{"rendered":"Recep\u00e7\u00e3o de animais ou 29 retratos de uma tarde gen\u00e9rica"},"content":{"rendered":"<p><b>Nota del editor: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 1<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma sala de espera. Feita para esperar. Espalham-se por ela algumas dezenas de cadeiras estofadas azuis nas quais esperam 27 animais. Eles esperam com impaci\u00eancia, mas desprovidos de uma conduta selvagem, entre paredes cor de ab\u00f3bora, vasos com graciosos p\u00e9s de manac\u00e1s floridos e outros maiores com chefleras e filodendros, espelhos ovais e mesas cheias de revistas sobre moda e arquitetura. No centro da sala, uma fonte quadrada de pedras verdes foi ligada pela secret\u00e1ria que masca um chiclete de morango atr\u00e1s de um balc\u00e3o. A fonte espirra um fio d\u2019\u00e1gua leitoso da boca de um querubim.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 2<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma girafa lixa as unhas. Mastiga devagar um pacote de balas pegajosas. Faz barulho, deixa escorrer uma baba amarela. Na verdade, ela provoca a secret\u00e1ria, cuja mastiga\u00e7\u00e3o sonora tamb\u00e9m n\u00e3o passa de uma provoca\u00e7\u00e3o \u2014 talvez para fazer com que alguns dos animais desistam da consulta e v\u00e3o embora. A girafa tem torcicolo e dificuldade para enxergar as unhas negras.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 3<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma joaninha pula repetidamente da cadeira. N\u00e3o pula, se joga. Em cada queda, uma decep\u00e7\u00e3o diferente. Ela sabe que n\u00e3o \u00e9 o melhor lugar para cometer suic\u00eddio, mas n\u00e3o v\u00ea quem pode ajud\u00e1-la. Os outros est\u00e3o muito concentrados em suas tarefas, afundados em seus preciosos momentos de t\u00e9dio. E ela respeita isso. S\u00f3 n\u00e3o respeita a vida que ainda insiste, que luta contra ela. A joaninha se joga da cadeira com as asas fechadas. Quando cai, n\u00e3o sente nada. Ela se odeia, mas al\u00e9m do corpo, possui um orgulho indestrut\u00edvel que, inconscientemente, vai contra todos os seus desejos.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 4<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma lontra tricota. Usa \u00f3culos de aros dourados e finos, tem os dentes da frente pronunciados e olha com desconfian\u00e7a para as cadeiras mais pr\u00f3ximas. De vez em quando solta um espirro estridente, mas continua tricotando. A pe\u00e7a de l\u00e3 \u00e9 da cor dos seus pelos e j\u00e1 est\u00e1 maior do que ela. Talvez use durante o inverno, talvez doe para as lontras em situa\u00e7\u00e3o de rua.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 5<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um camale\u00e3o medita. A cada minuto, muda de cor. Mais novo, podia se camuflar onde bem quisesse. Agora n\u00e3o tem o poder de antes, mas ainda se esconde no azul da poltrona. Tem medo de que algu\u00e9m sente em cima dele, ent\u00e3o fica amarelo e branco como um p\u00edton. Enquanto medita, mant\u00e9m os olhos bem fechados, cheios de dobras como se a hist\u00f3ria da animalidade tivesse se acumulado ali, em bolsas de pele e tempo \u00e1spero.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 6<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma hiena confere o meio das pernas. Menstruou naquela manh\u00e3, tem medo de que des\u00e7a de novo, que o sangue cubra o ch\u00e3o. Os outros sentiriam nojo, julgariam sua condi\u00e7\u00e3o de f\u00eamea. A calcinha continua cor-de-rosa. Ela cruza as pernas inseguras e relaxa o corpo. Talvez um sorvete aliviasse a c\u00f3lica. Desde que chegou, n\u00e3o para de lamber os dentes, como se fosse ca\u00e7ar. Ri \u00e0 toa e seu riso faz a joaninha cair da cadeira de susto \u2014 mas ela ainda n\u00e3o morre.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 7<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma cobra tenta dan\u00e7ar um ritmo latino que sai das pequenas caixas de som da secret\u00e1ria. N\u00e3o se importa com ningu\u00e9m. Quer dan\u00e7ar a \u201cMacarena\u201d, mas sente necessidade de um espelho e os espelhos da sala est\u00e3o todos ocupados \u2014 alguns cobertos por vasos cheios de plantas de mau gosto. Ela se lembra dos bra\u00e7os articulados, da descida com as m\u00e3os na cabe\u00e7a e segura a vontade de chorar pela falta de membros. Ainda assim, balan\u00e7a corpo e cauda em movimentos opostos e sente-se minimamente mais feliz.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 8<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um flamingo se admira no espelho. \u00c9 um dos poucos animais de p\u00e9, prefere o espelho ao descanso das cadeiras. Ele se acha lindo, podia estar na internet falando de livros que n\u00e3o leu ou de vinhos que n\u00e3o provou. Estufa o peito \u2014 n\u00e3o como um pombo, porque os detesta \u2014 e mexe as pernas finas. Sente que o cor-de-rosa do pesco\u00e7o est\u00e1 indiscutivelmente mais branco, quase grisalho. Tem medo de envelhecer e sorri para esticar o rosto. O bico atrapalha. Talvez um pouco de botox? Manda um beijo para o reflexo, que responde, e ficam assim indefinidamente.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 9<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma porca passa batom. \u00c9 bem pequena, quase borra o rosto de vermelho. As p\u00e9rolas no pesco\u00e7o largo foram colocadas especialmente para o m\u00e9dico. Agita uma das patas com nervosismo, desejando a irritante tranquilidade do camale\u00e3o. Se pudesse, saltaria da cadeira para tamb\u00e9m se admirar no espelho, mas tem pregui\u00e7a. Sente-se exausta s\u00f3 de fechar o batom, cuja tampa est\u00e1 toda suja de lama seca.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 10<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma lib\u00e9lula voa da cadeira para a fonte e desta para a cadeira. O movimento deixa alguns dos animais tontos, mas ela sente uma necessidade doentia de voar. Quando se cansa, senta na cabe\u00e7a do querubim e come\u00e7a a contar o tempo que passa num rel\u00f3gio preso na parede sobre a secret\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 11<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um cachorro co\u00e7a o saco. Faz isso com eleg\u00e2ncia, olhando para os lados, certificando-se de que ningu\u00e9m o observa. Quando a lib\u00e9lula parece perceber um m\u00ednimo movimento de sua pata peluda dentro da cal\u00e7a, ele enrubesce. \u00c9 um d\u00e1lmata cujas manchas escuras passam do preto para o castanho. Ele sorri um sorriso malandro e rapidinho cheira a pata. Pensa em tirar a roupa, mas s\u00f3 em casa, onde tem cerveja e televis\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 12<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma barata l\u00ea Kafka. Est\u00e1 suada e concentrada. Suas antenas giram perturbadas, mas ela n\u00e3o pode fazer nada sobre isso, afinal est\u00e1 preocupada com o rumo da hist\u00f3ria, talvez at\u00e9 com o rumo da pr\u00f3pria vida. No entanto, nenhum receio \u00e9 maior do que um dia acordar com dois bra\u00e7os, duas pernas e uma enxaqueca, acreditando que a Terra seja plana.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 13<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma gata palita os dentes. Lan\u00e7a fragmentos molhados de peixe nos outros animais que olham torto. N\u00e3o faz isso com todos, mas com os que parecem mais divertidos de irritar, mais suscet\u00edveis \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o. Depois atira o palito na fonte, que n\u00e3o cobre o jato de \u00e1gua leitosa como queria e, decepcionada, passa a se lamber: primeiro as patas, depois as partes \u00edntimas, numa clara tentativa de atrair qualquer um. Est\u00e1 desesperada para dar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 14<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um pinguim l\u00ea uma revista de arquitetura. Est\u00e1 fascinado com os v\u00e1rios formatos de iglu apresentados durante uma conven\u00e7\u00e3o de arquitetos da qual n\u00e3o fez parte. Arrepende-se amargamente de ter ficado ali. Ao virar as p\u00e1ginas, encontra n\u00e3o s\u00f3 os novos materiais usados na constru\u00e7\u00e3o dos iglus, mas suas novas fun\u00e7\u00f5es e valores. Fica espantado. A infla\u00e7\u00e3o deixou o gelo muito mais caro. Decide fechar a revista e tira os \u00f3culos, nitidamente preocupado com os novos riscos do mercado econ\u00f4mico.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 15<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um gamb\u00e1 segura um peido, mas seus olhos est\u00e3o estalados, talvez saltem da cabe\u00e7a. Tem medo de ser morto ali mesmo, pisoteado pela girafa, esmagado pela cobra, dilacerado pelo d\u00e1lmata. Alguma coisa pode acontecer, mas n\u00e3o o relaxamento. N\u00e3o pode nem sair para o banheiro, temendo que alguma coisa escape e, assim, entre para os anais da sala de espera.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 16<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma mosca l\u00ea a B\u00edblia. Tem min\u00fasculos \u00f3culos chapados na cara redonda. S\u00e3o treze graus de miopia nos dois olhos, um e meio de astigmatismo no direito. L\u00ea com f\u00e9, com fervor. As asas farfalham enquanto passa pelo Evangelho segundo Lucas. Est\u00e1 t\u00e3o emocionada e t\u00e3o empolgada que pensa em abrir um canal de tev\u00ea s\u00f3 para moscas, mas s\u00f3 para aquelas que pensam como ela. Que as restantes queimem vivas nas raquetes el\u00e9tricas. Am\u00e9m.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 17<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um p\u00f4nei fuma um cigarro de cravo. Est\u00e1 no terceiro. N\u00e3o \u00e9 permitido fumar na sala de espera, nem fora dela, ambiente que ainda pertence \u00e0 cl\u00ednica at\u00e9 a esquina, mas ele pouco se importa. Nas duas vezes em que a secret\u00e1ria o criticou pela fuma\u00e7a, chamando-o de \u201ccidad\u00e3o\u201d, ele a mandou tomar no cu e acrescentou: \u201ccidad\u00e3o n\u00e3o, p\u00f4nei corredor, melhor do que voc\u00ea\u201d. Fuma devagar e pensa em se levantar para dar um coice no flamingo, mas n\u00e3o quer ser expulso.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 18<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma gralha bebe uma ta\u00e7a de Syrah. Bebidas alco\u00f3licas fermentadas s\u00e3o permitidas na sala de espera. O vinho tem cheiro de p\u00f3lvora, mas \u00e9 bom. Ela trouxe de uma festa, da qual roubou tamb\u00e9m uns brincos de prata e uma d\u00fazia de diamantes escondidos sob o corpo. Est\u00e1 de olho nos \u00f3culos da lontra, reluzentes como uma mina fervilhante de ouro. Gosta desse vinho, mas teria preferido algo mais leve, mais suave. Um Riesling, talvez.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 19<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um ornitorrinco vesgo se pergunta o que est\u00e1 fazendo ali.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 20<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um coelho de chap\u00e9u azul recorta todos os vestidos que encontra nas revistas de moda. A secret\u00e1ria o vigia, mas n\u00e3o faz nada. N\u00e3o sabe onde ele encontrou a tesoura, talvez tenha trazido dentro da pochete prateada que aperta a barriga peluda. N\u00e3o tem certeza. Ele corta com pressa, mordendo a l\u00edngua e sempre bate os p\u00e9s ao terminar. Corta as cabe\u00e7as das modelos e as coloca em novos vestidos, trocando os corpos e \u00e0s vezes os membros.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 21<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma tartaruga n\u00e3o faz nada. N\u00e3o contempla a pr\u00f3pria espera, tampouco a espera dos outros. N\u00e3o se finge de morta nem pensa que est\u00e1 viva. Ela pisca sem vontade e evita pensar na volta, quando sair dali e n\u00e3o houver mais t\u00e1xis para chegar em casa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 22<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma coruja tenta jogar uma maldi\u00e7\u00e3o no rel\u00f3gio, faz\u00ea-lo acelerar. \u00c9 uma bruxa, sabe o que falar, como falar, os nomes que precisa invocar, quanto dos olhos precisa girar. E seus olhos s\u00e3o de c\u00f3lera. Pensa in\u00fameras vezes se deve incendiar a fonte ou acabar com o sofrimento da joaninha. Talvez com\u00ea-la fosse uma ideia melhor.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 23<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma cigarra gira no pr\u00f3prio eixo e solta fa\u00edscas. Ningu\u00e9m sabe se para chamar a aten\u00e7\u00e3o ou porque est\u00e1 incomodada com alguma coisa. O giro \u00e9 constante, enfadonho, parece um pi\u00e3o desgovernado. Ela sente-se tonta e para de repente, soltando um uivo que atrai olhares de desagrado. Em seguida, pede desculpas e volta a girar.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 24<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um hipop\u00f3tamo olha para as plantas, analisa a cor das paredes, tem uma postura invej\u00e1vel. Talvez seja o animal mais elegante, a presen\u00e7a mais emblem\u00e1tica da sala de espera. Usa um cardig\u00e3 italiano azul-marinho, cobrindo parte da pele escura e oleosa, cujo brilho tamb\u00e9m provoca a gralha de maneira involunt\u00e1ria. Ele \u00e9 o \u00fanico que est\u00e1 satisfeito com o tempo e com a espera, s\u00f3 se sente incomodado por n\u00e3o caber na fonte.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 25<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um sapo de boina pensa em ir embora. O cheiro do vinho e do cigarro de cravo deixam-no perturbado. N\u00e3o bebe nem fuma h\u00e1 4.129 minutos, uma vit\u00f3ria para ele, um al\u00edvio para a fam\u00edlia. Usava drogas mais pesadas, fazia parte das bocas, mas n\u00e3o sente falta de nada disso, s\u00f3 do vinho barato e do cigarro. Seus olhos est\u00e3o vermelhos e ele imagina, com um sorriso, sua l\u00edngua esticando para roubar o cigarro do p\u00f4nei.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 26<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma abelha fala sozinha. O zumbido \u00e9 irritante, fino, prolongado. Ela pronuncia palavras desconexas, \u00e0s vezes pela metade, e parece que vai explodir a qualquer instante. Usa roupa apertada de academia, poli\u00e9ster preto e amarelo, e \u00e0s vezes voa at\u00e9 a fonte para beber a \u00e1gua leitosa.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 27<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um carneiro escreve sua autobiografia num caderno pautado. Sua express\u00e3o \u00e0s vezes parece suspeita, como se resgatasse da sala de espera algumas ideias inesperadas e proibidas. Ele gosta da privacidade, mas n\u00e3o a respeita. J\u00e1 escreveu sobre o cachorro, sobre a mosca, sobre o coelho. Adora uma fofoca. Quanto mais escreve, mais sente calor. Lembra com tristeza que precisa ser tosquiado.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 28<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um macaco albino, que vinha mastigando folhas de coca e jogando palavras-cruzadas, deixa a pr\u00f3pria cadeira e pisa na joaninha.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Retrato 29<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O lado de fora da sala de espera. Uma rua tomada de lil\u00e1s pelo fim da tarde. A noite se aproxima e a cl\u00ednica permanece aberta. A fachada, asseada e clara como a entrada de um spa, est\u00e1 cheia de carros. Dentro deles, humanos esperam, apoiados nos vidros traseiros, suando pelas bocas abertas. Outros est\u00e3o presos por coleiras do lado de fora, amarrados em barras de ferro colocadas ali exclusivamente para isso. Pelados, homens e mulheres aguardam seus donos. Est\u00e3o com sede e fome, lambem as axilas, o meio das pernas, babam sobre os p\u00e9s, cagam onde podem, mijam nas plantas que j\u00e1 est\u00e3o mortas. Esperam com o cora\u00e7\u00e3o acelerado, sonhando com bolinhas coloridas, latas de sardinha, peda\u00e7os suculentos de carne e potes cheios de ra\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Flamengos, Laguna Colorada, Salar de Uyuni, Bolivia, por Elizabeth Gottwald, Unsplash.<\/span><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota del editor: Este texto est\u00e1 disponible en portugu\u00e9s e ingl\u00e9s. Haz click en \u201cEnglish\u201d para leer en ingl\u00e9s. &nbsp; Retrato 1 Uma sala de espera. Feita para esperar. Espalham-se por ela algumas dezenas de cadeiras estofadas azuis nas quais esperam 27 animais. 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