{"id":17941,"date":"2022-09-20T05:05:25","date_gmt":"2022-09-20T11:05:25","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=17941"},"modified":"2023-05-23T13:22:04","modified_gmt":"2023-05-23T19:22:04","slug":"pj-pereira-inventei-uma-lingua-que-nao-existe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2022\/09\/pj-pereira-inventei-uma-lingua-que-nao-existe\/","title":{"rendered":"PJ Pereira: \u201cInventei uma l\u00edngua que n\u00e3o existe\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">PJ Pereira \u00e9 autor da trilogia <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Deuses de Dois Mundos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (2013, 2014, 2015), romances publicados em cinco pa\u00edses e que atingiram o n\u00edvel de mais vendidos no seu Brasil natal. Em 2017 foi publicado seu romance <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A M\u00e3e, A Filha, e o Esp\u00edrito da Santa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Al\u00e9m de autor, Pereira \u00e9 pioneiro em publicidade e entretenimento, co-fundador da ag\u00eancia Pereira O\u2019Dell, ganhador de um Emmy, e \u00e1vido praticante de artes marciais com algumas faixas pretas em estilos diferentes de Kung-Fu e karat\u00ea.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Bruce Dean Willis:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Um tema preponderante nos seus romances \u00e9 a religi\u00e3o, e as rela\u00e7\u00f5es entre ela e a f\u00e9, a espiritualidade e o autoconhecimento. Voc\u00ea fez muitas entrevistas com pessoas vitimadas por l\u00edderes religiosos na fase de pesquisa do seu romance mais recente. Por outro lado, voc\u00ea consultou com autores e autoridades da di\u00e1spora das religi\u00f5es africanas na fase de pesquisa da trilogia. Voc\u00ea poderia resumir a import\u00e2ncia desse tema da religi\u00e3o como motor, ou talvez como meio para conseguir um fim, nas vidas de personagens como Pilar e New?<\/span><\/p>\n<p><b>PJ Pereira: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Eu nasci e cresci dentro de um culto. N\u00e3o foi uma escolha minha. A escolha foi apenas a de sair, depois que fiquei adulto. Mas todas as minhas recorda\u00e7\u00f5es de inf\u00e2ncia s\u00e3o influenciadas por essa experi\u00eancia \u2013 tanto as boas quanto as ruins. Uma das coisas que acontece quando se \u00e9 criado num desses cultos \u00e9 que parte da sua vida vira um segredo, um tabu. Ent\u00e3o a religi\u00e3o se torna essa mistura de orgulho (voc\u00ea \u00e9 levado a acreditar que faz parte de um grupo especial de escolhidos) e uma vergonha (voc\u00ea n\u00e3o pode contar para ningu\u00e9m). Para complicar, eu estudei em um col\u00e9gio e depois em uma faculdade cat\u00f3lica. Ent\u00e3o o tema da f\u00e9 estava o tempo todo em volta de mim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O engra\u00e7ado \u00e9 que n\u00e3o decidi escrever sobre f\u00e9. Escolhi escrever sobre as tradi\u00e7\u00f5es africanas, porque gostava de mitologia e um dia descobri que o mundo me havia negado essas hist\u00f3rias t\u00e3o fundamentais para entender a cultura brasileira. Mas para encontrar meu pr\u00f3prio lugar nesse universo, criei o New como personagem, que entrava em contato com esse mundo dos orix\u00e1s, mas n\u00e3o se sentia confort\u00e1vel porque era muito diferente do que ele havia sido educado a acreditar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Com o desenvolvimento da hist\u00f3ria, veio a Pilar e o culto que ela construiu, porque era a experi\u00eancia que eu mais conhecia sobre a quest\u00e3o da religiosidade. E a personagem cresceu at\u00e9 ganhar um livro pr\u00f3prio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olhando para tr\u00e1s, embora n\u00e3o tenha sido intencional nem consciente, a narrativa acabou por revelar tanto minha fascina\u00e7\u00e3o quanto o medo que eu tenho do tema da f\u00e9 \u2013 esse conflito que eu tenho em admirar a f\u00e9 e a dedica\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo \u00e0quilo que ele acredita, ao mesmo tempo que eu tendo a rejeitar visceralmente todas as formas de poder ligadas \u00e0 experi\u00eancia religiosa \u2013 seja ela o poder de uma igreja, um culto, ou uma pessoa. Mas veja: n\u00e3o \u00e9 um julgamento, entende? Eu n\u00e3o acho que toda f\u00e9 \u00e9 linda e todo l\u00edder religioso \u00e9 um cr\u00e1pula. Eu s\u00f3 me encanto com um, e tenho medo do outro. S\u00e3o sensa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o opini\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><b>B.D.W.:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00c0s vezes no processo de escrever, os personagens se apoderam de si mesmos e a trama sai de maneira imprevista. No desenvolvimento de uma personagem narcisista como Pilar, voc\u00ea chegou a sentir que ela eludia seus planos? Ou, pelo contr\u00e1rio, que os outros personagens tentaram se rebelar contra a submiss\u00e3o que voc\u00ea queria para eles ante Pilar?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>P.J.P.:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Meu processo criativo tem um padr\u00e3o muito claro. Eu desenho a trama completa antes de escrever os cap\u00edtulos, e depois escrevo um cap\u00edtulo por dia. Isso me informa onde aquele trecho precisa come\u00e7ar, e onde precisa terminar, mais alguns pontos cr\u00edticos que precisam acontecer. Mas a f\u00f3rmula acaba a\u00ed. Leio esse resumo pela manh\u00e3, passo o dia pensando em como construir as cenas mais fortes para esses acontecimentos, e de noite eu me sento para escrever. E a\u00ed, o plano nunca acontece como deveria. \u00c9 muito normal um personagem tomar conta da pr\u00f3pria hist\u00f3ria e fugir do roteiro original. Ent\u00e3o eu deixo. \u00c0s vezes isso cria implica\u00e7\u00f5es nos cap\u00edtulos anteriores, \u00e0s vezes no que ainda n\u00e3o escrevi&#8230; e vou fazendo essas anota\u00e7\u00f5es para as pr\u00f3ximas revis\u00f5es. A rela\u00e7\u00e3o de Pilar com seus s\u00faditos j\u00e1 era mais previs\u00edvel para mim, porque eu vivi aquele tipo de din\u00e2mica do narcisista t\u00f3xico com seus seguidores mais de uma vez. Ent\u00e3o planejei a trama toda sabendo como seria. Agora, a rela\u00e7\u00e3o dela com o primo Jo\u00e3o Batista&#8230; essa sim me surpreendia a cada cena. Eu nunca sabia o que ela ia tentar, e como ele iria reagir. Ent\u00e3o, tem o final. De tudo que escrevi em todos os livros, o \u00fanico que eu deixei o enredo em branco para que pudesse fluir como os personagens quisessem, foi a morte de Pilar. Quando cheguei nessa cena, eu havia passado o dia me preparando. Comi leve, procurei n\u00e3o elevar o stress&#8230; tomei um banho demorado e sentei para deixar os personagens resolverem suas quest\u00f5es. Foram cinco horas na frente do teclado. Quando escrevi o esperado \u201cthe end,\u201d deitei na cama e chorei at\u00e9 adormecer. Estava viajando sozinho e n\u00e3o tinha com quem me desabafar. Acordei na mesma posi\u00e7\u00e3o de feto, com dores em todo o corpo e uma mistura de luto e euforia que me confunde at\u00e9 hoje. Nessa cena, deixei para tr\u00e1s muitos dos meus fantasmas, e cometi todas as viol\u00eancias que algum dia eu havia fantasiado cometer. Aquele PJ que acordou como um feto, foi uma segunda encarna\u00e7\u00e3o de mim mesmo. Porque naquela noite meus personagens deixaram a minha vida anterior para tr\u00e1s. Eu fiquei livre.<\/span><\/p>\n<p><b>B.D.W.:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Quais s\u00e3o os autores, ou as leituras, que mais impacto fizeram em voc\u00ea como escritor?\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>P.J.P.: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Meu primeiro livro foi de contos de fadas antigos. Esses que todo mundo conhece, os europeus. Depois, minha m\u00e3e me apresentou \u00e0 obra de Monteiro Lobato, que criou um universo de fantasia que misturava a vida rural brasileira com aventuras por universos m\u00e1gicos como o Minotauro e a Iara (um tipo de sereia do folclore brasileiro). Ent\u00e3o minha inicia\u00e7\u00e3o na literatura veio pela fantasia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Depois, tamb\u00e9m por indica\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e, conheci Agatha Christie, que me fascinou pela capacidade de montar hist\u00f3rias t\u00e3o cheias de detalhes que eu mal reparava que ela havia me dado tudo que eu precisava para desvendar os mist\u00e9rios. Nessa \u00e9poca, eu j\u00e1 tinha sonhos de virar escritor, e essa forma de escrever j\u00e1 aparecia como o desafio que eu queria tentar enfrentar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Da adolesc\u00eancia em diante eu comecei a ler mais autores brasileiros. O realismo m\u00e1gico de Jorge Amado e Ariano Suassuna, me encantou de cara, assim como o lirismo debochado que eles traziam. Nunca imaginei que algu\u00e9m pudesse escrever assim. E por contraste, acabei me encantando tamb\u00e9m com Nelson Rodrigues, e seu cinismo cortante e as cenas surpreendentes que sempre construiu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa \u00e9 exatamente a mistura que aconteceu na minha obra. O lado africano dos meus primeiros livros tem um tom mais parecido com os contos de fada (e sua vers\u00e3o menos infantil que \u00e9 a fantasia \u00e9pica). A hist\u00f3ria de New, em contrapartida, tem um tom mais inspirado na irrever\u00eancia de Nelson Rodrigues. E finalmente a hist\u00f3ria da Pilar vem da minha tentativa de brincar com o gingado lingu\u00edstico do Jorge Amado e do Suassuna. Tudo isso com essas constru\u00e7\u00f5es elaboradas onde tudo que acontece ao longo da hist\u00f3ria se revela importante no final, como um bom mist\u00e9rio de Agatha Christie.<\/span><\/p>\n<p><b>B.D.W.:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Sente alguma afinidade com algum outro autor do Nordeste, especialmente quanto ao papel da f\u00e9 e do misticismo? E como \u00e9 que isso figura na linguagem?<\/span><\/p>\n<p><b>P.J.P.: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Outro aspecto importante que a religi\u00e3o acaba trazendo \u00e9 a magia. Eu gosto de acreditar em m\u00e1gica. Na vida real talvez ela seja menos exuberante do que na fic\u00e7\u00e3o, mas esse contraste me encanta ainda mais. Na minha fantasia, contadores de hist\u00f3ria s\u00e3o capazes de enxergar e revelar essa m\u00e1gica de uma forma mais clara. E a\u00ed voltamos ao Nordeste do Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o penso em cap\u00edtulos. Penso em cenas que devem ser assistidas atr\u00e1s da testa. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Quando um diretor de cinema conta uma hist\u00f3ria, ele tem imagens para mostrar. Tem figurinos. M\u00fasica. Eles t\u00eam como combinar isso tudo, sem comprometer o ritmo da narrativa. J\u00e1 na l\u00edngua escrita, embora existam momentos em que descri\u00e7\u00f5es minuciosas e at\u00e9 trilhas sonoras sejam aceit\u00e1veis, em muitos momentos precisamos pular tudo isso e chegar na a\u00e7\u00e3o. E nesses momentos mais crus, tudo que nos resta, todos os recursos equivalentes \u00e0 ilumina\u00e7\u00e3o de um teatro e \u00e0 m\u00fasica no cinema, por exemplo, \u00e9 a escolha das palavras que usamos e como as combinamos na p\u00e1gina. A economia de Hemingway faz suas hist\u00f3rias mais cruas e realistas. Agora compare suas constru\u00e7\u00f5es com as de Garc\u00eda M\u00e1rquez, Mia Couto ou J.K. Rowling. Esses \u00faltimos tendem a usar palavras e frases que voc\u00ea n\u00e3o imagina, n\u00e3o espera, talvez nunca tenha visto. Algumas vezes essas s\u00e3o palavras inventadas, como as que Rowling usa em suas aventuras em Hogwarts. Mas o Vadinho de Jorge Amado faz a mesma coisa quando usa palavras que nos fazem rir imaginando o significado, sem nunca ter certeza do que elas realmente querem dizer. Quando optamos por uma linguagem desconectada da realidade do leitor (por ser inventada ou particular de uma regi\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 deles) a leitura ganha esse aspecto m\u00e1gico sem nem precisar de descri\u00e7\u00f5es sobrenaturais. N\u00e3o temos m\u00fasica ou ilumina\u00e7\u00e3o na literatura, mas temos o vocabul\u00e1rio e as constru\u00e7\u00f5es de nossas frases e par\u00e1grafos. E a\u00ed, a cultura do Nordeste, t\u00e3o cheia de segredos lingu\u00edsticos e express\u00f5es mais que peculiares, se torna um ambiente muito f\u00e9rtil para esse tipo de narrativa onde a realidade \u00e9 apenas o ponto de partida para universos muito mais esplendorosos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando uma cena ou uma palavra aparecem e voc\u00ea pensa que nunca viu ou ouviu isso antes, mas faz todo sentido, a cena e a hist\u00f3ria ficam assim tamb\u00e9m <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u2013<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> suspensa entre realidade e inven\u00e7\u00e3o. Tem um momento, na minha trilogia, quando Iemanj\u00e1, a deusa dos mares, caminha para dentro d&#8217;\u00e1gua e se mistura com os oceanos. Eu precisava de uma descri\u00e7\u00e3o para isso que fosse m\u00e1gica, mas que fosse r\u00e1pida tamb\u00e9m porque a cena n\u00e3o podia demorar muito. Ent\u00e3o disse que Iemanj\u00e1 se dissolveu em cardume. Essa express\u00e3o n\u00e3o existe\u00a0nem seria poss\u00edvel, porque quando um s\u00f3lido se dissolve num fluido, ele apenas se dissolve, n\u00e3o se dissolve em alguma outra coisa que n\u00e3o o fluido em si. Mas quando ela \u201cse dissolveu em cardume\u201d o contraste da palavra utilizada errada, com a imagem que ela cria, contam uma hist\u00f3ria\u00a0completa de como, num momento m\u00e1gico, ela caminhou para dentro do mar, e se misturou com ele, sem perder a sua individualidade.<\/span><\/p>\n<p><b>B.D.W.: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Voc\u00ea poderia dar algumas dicas quanto aos seus pr\u00f3ximos projetos?<\/span><\/p>\n<p><b>P.J.P.: <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Estou trabalhando num livro novo que combina tecnologias futuristas, mas que est\u00e3o sendo desenvolvidas em laborat\u00f3rios pelo mundo todo (interfaces computacionais ligadas diretamente ao c\u00e9rebro) misturado com ideias ancestrais da China, tais como a filosofia daoista e o Tai Chi. \u00c9 um projeto divertido de construir um universo inteiro, e explorar o conflito entre o novo e o velho, a ci\u00eancia e a f\u00e9&#8230; bem do jeito que eu gosto. S\u00f3 que dessa vez, em ingl\u00eas. Estou dando os \u00faltimos ajustes no manuscrito, trabalhando exatamente na constru\u00e7\u00e3o dessa voz narrativa, que deve ser uma mistura da vitalidade e a do\u00e7ura do jeito chin\u00eas de falar de magia com a viol\u00eancia da narra\u00e7\u00e3o de uma luta de UFC e o entusiasmo cient\u00edfico que voc\u00ea encontra em livros como os de Michael Crichton. Parece uma bagun\u00e7a, mas estou gostando muito de como est\u00e1 ficando.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando escrevi <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A M\u00e3e, a Filha e o Esp\u00edrito da Santa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, usei uma l\u00edngua que n\u00e3o era minha tamb\u00e9m, que \u00e9 a l\u00edngua falada no nordeste do Brasil. Mas como eu sabia que jamais seria capaz de soar como um nativo real, eu criei uma l\u00edngua minha, e um personagem para justificar essa l\u00edngua. Pesquisei v\u00e1rias palavras que gostava, independente de onde eram e misturei tudo de prop\u00f3sito. Depois estabeleci que o narrador era o dono de um circo, que viajava por toda parte e assim absorvia essas palavras. Foi assim que inventei uma l\u00edngua que n\u00e3o existe. Uma l\u00edngua que v\u00e1rios leitores do Nordeste reconhecem parte como deles, partes como vizinhas, e se divertem com isso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Agora escrevendo em ingl\u00eas, encontrei um desafio parecido. N\u00e3o tenho o controle da l\u00edngua que tenho em portugu\u00eas. A solu\u00e7\u00e3o que encontrei, mais uma vez, foi escolher um narrador que tamb\u00e9m vivesse esse mesmo desafio. Assim, o livro \u00e9 todo escrito em primeira pessoa, pelo ponto de vista de uma jovem mulher nascida e criada na China. O ingl\u00eas dela \u00e9 fluente e n\u00e3o tem erros gramaticais, mas ela n\u00e3o conhece as express\u00f5es mais convencionais do ingl\u00eas falado, ent\u00e3o tem que invent\u00e1-las dela. Que \u00e9 exatamente o que acontece comigo na vida real. Quando cheguei na Am\u00e9rica, eu ficava tentando aprender as express\u00f5es idiom\u00e1ticas, mas elas s\u00e3o tantas&#8230; um dia eu resolvi que, na falta delas, criaria as minhas. Lembro um dia que conversava com um amigo e queria dizer que estava lidando com v\u00e1rios problemas ao mesmo tempo que uma hora eu iria cometer um erro e a\u00ed seria um caos. Eu n\u00e3o tinha uma express\u00e3o para dizer isso tudo, ent\u00e3o falei que precisava de ajuda porque eu estava \u201cjuggling tigers\u201d e ele come\u00e7ou a rir. \u201cNunca ouvi essa express\u00e3o antes, mas ela faz todo sentido,\u201d me disse. Foi a\u00ed que me dei conta que minha familiaridade parcial com a l\u00edngua poderia ser uma vantagem. Que se eu abra\u00e7asse essa falta de conhecimento das express\u00f5es comuns (que muitas vezes seriam vistas como clich\u00ea)\u00a0e as substitu\u00edsse pelos meus instintos visuais, poderia desenvolver outro tipo de linguagem m\u00e1gica.\u00a0Nesse dia, estabeleci a aproxima\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do livro que estava escrevendo e n\u00e3o consegui mais parar de escrever.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: PJ Pereira, escritor brasileiro.<\/span><\/h6>\n<div id=\"gtx-trans\" style=\"position: absolute; left: -25px; top: 3224px;\">\n<div class=\"gtx-trans-icon\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PJ Pereira \u00e9 autor da trilogia Deuses de Dois Mundos (2013, 2014, 2015), romances publicados em cinco pa\u00edses e que atingiram o n\u00edvel de mais vendidos no seu Brasil natal. Em 2017 foi publicado seu romance A M\u00e3e, A Filha, e o Esp\u00edrito da Santa. 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