{"id":17936,"date":"2022-09-20T05:00:52","date_gmt":"2022-09-20T11:00:52","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/?p=17936"},"modified":"2023-05-23T13:21:42","modified_gmt":"2023-05-23T19:21:42","slug":"um-fragmento-de-outros-cantos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2022\/09\/um-fragmento-de-outros-cantos\/","title":{"rendered":"Um fragmento de Outros cantos"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Olho de novo o perfil do homem sentado do outro lado do estreito corredor deste \u00f4nibus no qual, hoje,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">cruzo mais uma vez um sert\u00e3o, qualquer sert\u00e3o. Vi-o pela janela quando irrompeu e acenou \u00e0 margem da estrada, vindo de nenhum caminho, nenhuma habita\u00e7\u00e3o humana, emergindo do deserto, emaranhado compacto de garranchos e cactos. O \u00f4nibus parou arquejando, e eu adivinhei que ele vinha sentar-se ao meu lado, apesar de tantas cadeiras vazias. Ele veio, grande, maci\u00e7o, cheirando a couro curtido, suor e tabaco.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O odor flui da minha mem\u00f3ria, decerto, porque este ao meu lado <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">veste-se <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">com um caub\u00f3i de rodeio e cheira a \u00e1gua-de-col\u00f4nia barata. Sentou-se, as costas retas,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">as m\u00e3os pousadas sobre os joelhos, os olhos fixos perfurando o espaldar da poltrona \u00e0 sua frente e assim ficou at\u00e9<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">agora. Dif\u00edcil deixar de olh\u00e1-lo, ainda mais quando sua figura se transforma, \u00e0 contraluz, em silhueta de perneira,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">gib\u00e3o e chap\u00e9u de couro, est\u00e1tua encourada revolvendo-me as lembran\u00e7as. Agora que <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">sol se meteu por detr\u00e1s das nuvens esfarrapadas, logo acima do horizonte, tingindo o mundo, o vaqueiro destaca-se, negro como xilogravura contra o fundo avermelhado, e percebo em mim <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">uma sensa\u00e7\u00e3o de suspens\u00e3o e expectativa: desejo e espero que ele lance, enfim, o seu aboio. H\u00e1 mais de quarenta anos carrego essa imagem e esse canto em algum socav\u00e3o da alma que agora se ilumina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os far\u00f3is deste carro velho s\u00e3o t\u00e3o fracos que n\u00e3o mostram nada do caminho, nada me distrai das imagens que voltam da minha primeira tarde naquele outro sert\u00e3o. Deixo divagar a mem\u00f3ria enquanto todo o resto, o caub\u00f3i, o \u00f4nibus, a caatinga, a estrada, mergulha na escurid\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Eu fazia trinta anos no dia em que me meti pela primeira vez nesta aridez. Ainda n\u00e3o se havia espalhado por toda a terra a ilus\u00e3o de poder-se fraudar o tempo e afastar indefinidamente o envelhecimento e a morte com t\u00e9cnicas cir\u00fargicas e calist\u00eanicas, f\u00f3rmulas qu\u00edmicas, discursos de autopersuas\u00e3o, mantras, inje\u00e7\u00f5es, pr\u00f3teses, l\u00e1grimas e incensos. Ent\u00e3o, s\u00f3 era poss\u00edvel faz\u00ea-lo tornando-nos her\u00f3is, m\u00e1rtires, mitos, s\u00edmbolos. Apostava-se a vida no que acredit\u00e1vamos ser maior que a nossa pr\u00f3pria vida. Encher de sentido o tempo era, ent\u00e3o, mais urgente pois t\u00e3o passageiro, urg\u00eancia de marcar o mundo com nossa exist\u00eancia, mesmo que arriscando-nos a torn\u00e1-la ainda mais breve. Ultrapassar os trinta anos era atravessar o portal da juventude<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">para a idade adulta. Era, ent\u00e3o, o exato meio da vida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vejo-me outra vez jovem ainda, sentada sobre o tronco de um coqueiro decepado e deitado em frente \u00e0 casa que me cabia, naquele povoado cujo nome explicava a raz\u00e3o de sua exist\u00eancia, t\u00e3o longe de tudo: Olho d\u2019\u00c1gua, como tantos outros m\u00ednimos o\u00e1sis espalhados pela vastid\u00e3o das terras secas. Eu me escorava na parede ca\u00edda em branco, havia pouco abandonada pelo sol, dando \u00e0s <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">minhas costas o \u00fanico al\u00edvio poss\u00edvel contra o calor que me abateu desde a manh\u00e3, bem cedo, quando apeei do caminh\u00e3o meio desmantelado que me levou \u00e0quele ex\u00edlio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez seja essa lembran\u00e7a que me faz sentir agora um desconforto maior e uma necessidade de acomodar melhor minhas costas. Luto contra a alavanca para reclinar o encosto da poltrona, sem conseguir mov\u00ea-la, emperrada. Insisto, e meus esfor\u00e7os fazem mexer-se, pela primeira vez, o vaqueiro no assento vizinho. Ele se inclina sobre o corredor e, com extrema facilidade, levanta a alavanca e empurra o espaldar para tr\u00e1s. Agrade\u00e7o, ele apenas acena com a cabe\u00e7a e volta \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o de est\u00e1tua, petrificado como eu estivera no calor daquela minha primeira tarde sertaneja.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naquele remoto entardecer, depois de um dia inteiro prostrada na rede, exausta da longa viagem, eu n\u00e3o era capaz de mais nada, sen\u00e3o de me arriscar at\u00e9 a porta da casa e olhar vagamente, atrav\u00e9s de um filtro l\u00edquido e salgado<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">prestes a desfazer-se e escorrer pelo papel seco e quebradi\u00e7o que substituir\u00e1 minha pele, as poucas casas brancas, de janelas e portas fechadas, agarradas umas \u00e0s outras, mortas de medo do imenso e \u00e1rido espa\u00e7o \u00e0 sua volta. Entre elas, a rua larga de areia branca e salgada, mais salina que sert\u00e3o, esparsas algarobas quase transparentes, insistindo em dizerem-se verdes naquele cen\u00e1rio branco e cinzento. E eu quase j\u00e1 n\u00e3o podia crer que\u00a0 esse sert\u00e3o ainda haveria de ser mar. As esperan\u00e7as trazidas na minha bagagem pareciam resistir menos do que aquelas \u00e1rvores esqu\u00e1lidas e n\u00e3o conseguiam permanecer inc\u00f3lumes nem um dia inteiro diante do vazio daquele lugar. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">As esperan\u00e7as levadas por mim naquela primeira viagem eram muito maiores e mais curtas do que as de agora, cujo sopro me fez embarcar neste \u00f4nibus. Para falar de esperan\u00e7as me chamaram de novo ao sert\u00e3o e vou pensando que as minhas mudaram e se tornaram muito mais modestas e pacientes do que antes, talvez envelhecidas como eu. Come\u00e7aram a mudar naquele dia, quando, pela primeira vez, me meti nesta paisagem \u00e1spera e espinhosa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No cen\u00e1rio descortinado da frente da casa, podia-se ver o sil\u00eancio s\u00f3lido do fim de tarde de um domingo num mundo sem nada, ningu\u00e9m, mundo sem criador, parecia. S\u00f3 eu estava l\u00e1, mergulhada na aus\u00eancia, incrustada e imobilizada na quentura espessa, como um f\u00f3ssil na rocha. Teria chegado ao fim do mundo, onde tudo p\u00e1ra,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para lutas? A raz\u00e3o nada me dizia e meu corpo entregava-se \u00e0 imobilidade de um calango sobre a pedra, uma quase desist\u00eancia de qualquer mudan\u00e7a<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">De dentro de mim n\u00e3o vinha mais nenhum esbo\u00e7o de movimento. J\u00e1 me via naufragando em l\u00e1grimas e na decep\u00e7\u00e3o de nada encontrar ao fim de t\u00e3o longa e arriscada viagem, n\u00e3o fosse, de repente, a irrup\u00e7\u00e3o de um long\u00ednquo canto, outra voz, inteiramente outra, mas que eu reconhecia, atravessando o susto, voz humana. \u00d4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4 \u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea \u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4. Pareceu que aquele canto fazia uma tinta encarnada surgir do ch\u00e3o, no horizonte, e elevar-se, encher o c\u00e9u e chegar aonde eu estava, at\u00e9 ent\u00e3o, sozinha e tornada em mineral, tingindo-me e tudo ao meu redor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Algu\u00e9m, no assento logo atr\u00e1s do meu, liga um r\u00e1dio e me obriga a o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">uvir <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">fragmentos de serm\u00f5es evang\u00e9licos, de<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> funks, de an\u00fancios comerciais, e finalmente se resolve por um programa de can\u00e7\u00f5es melosas, a duas vozes, a mais alta uma ter\u00e7a acima da mais grave, pontuadas por gritos de locutor de rodeio, \u201cSegura, pe\u00e3o!\u201d O caub\u00f3i ao meu lado mexe-se de novo, talvez animado por suas pr\u00f3prias esperan\u00e7as, ganhar uma moto ou <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">um <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">carro na pr\u00f3xima vaquejada? Saber\u00e1 ainda aboiar? Ou j\u00e1 \u00e9 daqueles agora a tanger o gado apenas com o rugido de uma motocicleta? O r\u00e1dio come\u00e7a a falhar e j\u00e1 n\u00e3o consegue sintonizar mais nenhuma esta\u00e7\u00e3o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Sinto-me aliviada e volto \u00e0s minhas lembran\u00e7as daquela tarde perdida no passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O primeiro canto que ouvi naquele anoitecer vinha de t\u00e3o longe, era dif\u00edcil saber se me chegava pelos ares dali ou se mem\u00f3ria e nostalgia me enganavam, trazendo de volta o muezim argelino que, havia apenas uns poucos meses, da alta torre de Beni-Isguen, me despertava e me fazia correr ao muxarabi\u00ea de meu quarto, mesmo ao p\u00e9 da alm\u00e1dena, para beber a primeira luz e a primeira voz do <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">dia <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">inundando o vale do M\u2019Zab. N\u00e3o, o almuadem pertencia a outro tempo e a outro deserto, j\u00e1 mais longe ainda, da exist\u00eancia dele eu sabia antes de ouvi-lo. Eu havia escolhido voltar \u00e0 minha terra, pensava, e ela me respondia com uma estranheza t\u00e3o maior que todas as outras terras que eu havia percorrido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0 primeira voz percebida, ao cair do sol, respondeu outra e outra mais, chegando-me de todos os quadrantes, como se descessem do almoc\u00e2ntara, em ondas sucessivas, cada vez mais fortes. De quem, esse canto? De quem, se vejo apenas uma estrada vazia, apagando-se \u00e0 medida que escurece o vermelho do sol posto? De quem? De minha imagina\u00e7\u00e3o confusa pelo calor, pela secura, pela estranheza deste desterro? Ent\u00e3o eu os vi, um a um, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">silhuetas <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">negras recortadas contra o c\u00e9u, bem \u00e0 minha frente, ainda como figuras de folheto de cordel, eles, seus cavalos, suas reses, seu coro de aboios acompanhado pelo badalar dos cincerros, movendo-se majestosamente em suas r\u00fasticas pan\u00f3plias, a beleza feita sombra e som. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00d4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> boi \u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea\u00ea booooooi <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4\u00f4<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 f\u00e1cil, hoje, assim <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">envolta <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">pela noite da caatinga e pelo ru\u00eddo mon\u00f3tono do <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00f4nibus <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">rodando sobre <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">asfalto, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">voltar \u00e0quele dia, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e0quela <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">outra viagem, \u00e0quele povoado no fim dos caminhos. Nesta <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">viagem <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o quero dormir como os outros que j\u00e1 ou\u00e7o ressonar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Posso ouvir por dentro o canto dos aboiadores, imaginar-me ali a esperar o vento varrer o calor do dia, a lua subir do horizonte e, aproveitando o pouco luar capaz de meter-se por entre as frestas do telhado, beber dois copos d\u2019\u00e1gua fresca, quase esvaziando da quartinha minha ra\u00e7\u00e3o de l\u00edquido pot\u00e1vel para a noite, tateando encontrar a porta do quarto, os ganchos de madeira nas paredes, armar a rede e deixar-me levar por ela, sem saber ao certo se aqui come\u00e7a ou acaba o sonho. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Como <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">se fosse hoje.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Revejo na imagina\u00e7\u00e3o as descobertas do meu primeiro amanhecer <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">em <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Olho d\u2019\u00c1gua, em que acordei ouvindo, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">princ\u00edpio vagamente, em seguida mais n\u00edtida, \u00e0 medida que o sono se dissipava, uma algaravia meio humana meio bando de passarinhos na qual, aos poucos, distingui, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cMaria, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Maria\u201d. Demorei <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">reconhecer-me no nome chamado. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Custou-me <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">um enorme esfor\u00e7o levantar-me da rede, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">vestir m<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">eu cafet\u00e3, rasgar um <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">caminho <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">no <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">colch\u00e3o de calor entre meu quarto e a porta para a rua, abri-la que mugia como um novilho e encontrar os far\u00f3is dos olhos nas caras escuras, recriadas do barro feito de poeira e suor.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Um bando de meninos me espreitava. Nos peitos, o teclado perfeito das costelas expostas, nas costas, sali\u00eancias pontiagudas, duros cotos de asas cortadas antes mesmo de que vissem a luz por primeira vez. Nus vieram ao mundo e nele permaneciam, quase nus e inocentes,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o por serem incapazes de fazer o mal, mas por serem ignorantes do mal que lhes podia ser feito. Riam \u00e0 minha<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">volta, com a alegria de quem descobre pela primeira vez o hipop\u00f3tamo no zool\u00f3gico. Eu sabia como eles se sentiam, eu tamb\u00e9m tinha rido assim, bobamente, quando me deparei, havia pouco tempo ainda, com meu primeiro camelo solto, bamboleando livre num palmeiral da Arg\u00e9lia e chegando cada vez mais perto de mim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A estrada por onde vou hoje passar\u00e1 a menos de uma l\u00e9gua daquele lugar que talvez ainda se chame Olho d\u2019\u00c1gua e abrigue um povo mais livre, junto a cada casa uma cisterna, como as que vi espalhadas ao longo deste trajeto antes de escurecer, novinhas, brancas, na forma de um peito materno, recebendo a \u00e1gua das biqueiras do telhado, no inverno, dando de beber aos filhos, no ver\u00e3o. Talvez. Mas esta mesma estrada pode ter sido a rota de fuga para todos eles e, quem sabe, j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1 OS homens que, ainda meninos, me saudavam risonhos e me chamavam Maria.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando assim me chamaram pela primeira vez e respondi \u201cEu\u2026 Bom dia\u201d, cada um deles p\u00f4s-se a repetir<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">\u201c<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Bom dia, Maria\u201d e, rindo, encolhiam-se uns por detr\u00e1s dos outros, assustados com seu pr\u00f3prio atrevimento. Dei-<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">m<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e conta, ent\u00e3o, de que, talvez havia muitas gera\u00e7\u00f5es, n\u00e3o chegava um estranho para viver ali, naquele lugar escondido por <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">onde <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ningu\u00e9m passava, onde se acabava o caminho e era na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria que corria o rio da vida migrante. L\u00e1 n\u00e3o se costumava chegar, de l\u00e1 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">s\u00f3 se <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ia <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">embora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O motorista deste \u00f4nibus <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">acende <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">as luzes, para e deixa entrar um fiscal qualquer. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Custo <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">adaptar a vista <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">que descansava no escuro enquanto outros olhos, imagin\u00e1rios, viam os meninos de Olho d\u2019\u00c1gua. Mas a frase do fiscal, interpela\u00e7\u00e3o costumeira que me canso de ouvir em toda parte, lan\u00e7a-me de novo ao passado: \u201cJ\u00e1 tem a passagem, dona Maria?\u201d Dou-lhe o bilhete j\u00e1 de olhos fechados, ouvindo outras <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">vozes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cMaria, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Maria, Maria\u201d, iam-me nomeando, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">eu <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">me reconhecendo, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cBom <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">dia\u201d, somente Maria, um dos nomes que certamente me pertenciam, mas at\u00e9 ent\u00e3o tinha ouvido apenas na chamada da escola ou na voz de minha m\u00e3e quando <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">se <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">enfadava, o nome que declarei ao chegar, nem sei mais <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">quem, para <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">servir-me <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">como senha, fazer-me uma entre todas as outras Marias do lugar onde eu devia esconder-me, tornar-me como um peixe dentro d\u2019\u00e1gua, preparar o terreno para quem viesse depois de mim. Olh\u00e1vamo-nos curiosos, aquelas crian\u00e7as e eu, n\u00e3o sabia mais o que lhes dizer, nem eles, intimidados eles e <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">eu, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e recome\u00e7avam: <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cBom <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">dia, Maria\u201d, um a um, at\u00e9 o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">constrangimento <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">se desfazer em riso <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">e <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">eles <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">sa\u00edrem <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">em correria pela rua branca.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Numa das paradas deste \u00f4nibus vi entrar uma mulher com dois meninos vestidos em suas cal\u00e7as jeans, seus t\u00eanis e camisetas com uma besteira qualquer escrita em ingl\u00eas e figuras de desenhos animados japoneses. Suas caras n\u00e3o enganam, s\u00e3o sertanejos como eram aqueles, mas j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a barriga inchada, a pele encardida e arranhada como os de quarenta anos atr\u00e1s<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Minha raz\u00e3o me diz que estes de agora vivem melhor e devo alegrar-me por isso, mas meu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se enternece tanto como daquela vez, diante dos outros que eu acreditava precisarem de mim.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os meninos daquele tempo, correndo como bichinhos ariscos, dirigiram meu olhar para uma cena de pura surpresa. O vermelho do c\u00e9u da v\u00e9spera, \u00faltima cor a tocar meus olhos, antes da treva da noite e do branco incandescente do sol de ver\u00e3o sertanejo, quase a me cegar, dividia-se agora em feixes de in\u00fameras cores, cortando o espa\u00e7o entre casas e algarobas. \u201cO que pode ser isto? Como vieram parar aqui as cores da tinturaria que me encantava em Ghardaia, os matizes das artes\u00e3s mozabitas preparando as l\u00e3s para tecer seus tapetes ancestrais? Como chegou aqui o colorido das vestimentas das Guadalupes do deserto de Zacatecas?\u201d Tive de fechar os olhos e tentar reorganizar as ideias. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cPor <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">que invento agora ilus\u00f5es para convencer-me de minha volta a um daqueles outros ex\u00edlios que me ofereceram e n\u00e3o reconhe\u00e7o que estou neste lugar, escondido e descorado, escolhido por mim como meu pr\u00f3prio deserto?\u201d Eu me perguntava, confusa. Quando reabri os olhos, os matizes pareciam ainda mais vivos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As cores moviam-se, e aos poucos percebi vagamente vultos humanos entre elas, tra\u00e7ando uma imensa teia multicor. N\u00e3o havia outra sa\u00edda para minha confus\u00e3o <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">sen\u00e3o aproximar-me deles, suportar seus olhares de curiosidade e d\u00favida, talvez suspeita, responder \u00e0s suas poucas perguntas e pedir deles respostas para tudo, expondo-lhes todas as minhas ignor\u00e2ncias. Foi meu primeiro e curto passo em dire\u00e7\u00e3o a alguma humildade, indispens\u00e1vel para sobreviver naquele mundo ao r\u00e9s das ra\u00edzes, do qual eu nada sabia. Quando decidi tomar o caminho de volta para minha terra e entranhar-me no sert\u00e3o, escolhendo o ex\u00edlio<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">para dentro, depois de atravessar todos os lugares para onde aflu\u00edam os que precisavam e os que n\u00e3o precisavam fugir, sem desejar permanecer em nenhum deles, pretendi tudo saber de antem\u00e3o, o j\u00e1 acontecido e o ainda por vir, lendo tudo o que as literaturas me ofereciam. Mergulhar mais fundo na terra e abrir os olhos sob a superf\u00edcie, por\u00e9m, permitia ver uma vida mi\u00fada, insuspeit\u00e1vel, que n\u00e3o chegava \u00e0 tona dos livros. A cada passo um espanto, obrigando-me a perguntar tudo a todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tenho ainda uma noite inteira pela frente neste \u00f4nibus inc\u00f4modo e terei de estar alerta e esperta para dizer coisas que pare\u00e7am inteligentes, quando chegar ao destino. Esperam isso de mim. Deveria dormir, descansar o esp\u00edrito e os neur\u00f4nios, tento acomodar melhor meus ossos velhos, mas o sono n\u00e3o se acomoda, vai e vem, mantendo-me suspensa entre as imagens daquele ch\u00e3o j\u00e1 fora do tempo e este ch\u00e3o de hoje, quase o mesmo no mapa, mas cujo perfil me causa estranheza, semeado de antenas e torres fazendo parecer miniaturas as casas, j\u00e1 n\u00e3o apenas brancas ou cor de terra, seus raros coqueiros e as algarobas. Na fronteira do sonho, para al\u00e9m do zumbido do motor e do ressonar dos outros viajantes, imp\u00f5e-se aos meus ouvidos a m\u00fasica daquele povo, feita toda de incans\u00e1vel trabalho.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>* * *<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Custava-me caminhar pela areia solta daquela rua branca, como <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">tinha <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">me custado avan\u00e7ar pelas dunas do Saara, quando ousei, pela primeira vez, abandonar a estreita faixa de asfalto que as cruzava, e quase <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">esperava <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">ver de novo o homem ent\u00e3o surgido do vazio, tocado pelo vento a enfunar-lhe o albornoz, recolhendo-se em seguida para rezar sobre sua almo\u00e7ala. O mesmo peso dos p\u00e9s afundados na areia, a mesma confus\u00e3o da vista encandeada pela<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">luz brutal do sol sem o filtro da umidade nem da poeira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Caminhei atr\u00e1s dos meninos para o lugar onde<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">parecia haver mais gente e, aos poucos, os contornos esfumados ganharam nitidez e <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">pude <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">distinguir, uma a uma, as aranhas tecedeiras daquela <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">teia <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">colorida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O sil\u00eancio da manh\u00e3zinha ia tomando uma qualidade nova, de burburinho, mistura de vozes, borbulhar de \u00e1guas, mugidos distantes, farfalhar de folhas, pancadas de madeira contra madeira, cuja origem eu n\u00e3o identificava e ainda n\u00e3o faziam qualquer sentido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Trabalhava-se ali tanto quanto nunca pensei que se pudesse trabalhar. O caminh\u00e3o chegava aos s\u00e1bados, carregado de fio de algod\u00e3o cru. Aos domingos, todos, menos os poucos vaqueiros, permaneciam escondidos em suas casas, por respeito estrito \u00e0 lei divina do repouso semanal ou pela exaust\u00e3o feita lei, e a rua se despovoava como as cidades sagradas do M\u2019Zab \u00e0s sextas-feiras. Mas na madrugada do dia seguinte, neste outro vale, de<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">areia entre paredes brancas, recome\u00e7ava-se um ciclo eterno: velhas <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">banheiras <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">de \u00e1gate rachado e salpicado de ferrugem, sobre suas patas de animais estrangeiros, resgatadas de<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">algum ferro-velho de antiga vida urbana, serviam como cubas para tingir o fio que<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">devia ferver por horas, em \u00e1gua salobra e<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">anilinas corrosivas, sobre fogueiras alimentadas sem cessar pela lenha pobre, rapidamente consumida, exigindo um constante vaiv\u00e9m de meninos, fileira de formigas b\u00edpedes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mexer, sem parar, o fio e a tinta borbulhante, retirar com longas varas as meadas coloridas, fumegantes, e p\u00f4-las a secar sobre uma sucess\u00e3o de cavaletes r\u00fasticos, desenlear o fio, j\u00e1 seco, e enrol\u00e1-lo em grandes bolas para depois urdir os li\u00e7os, entremeando as cores em longas listras, transformar o povoado naquele espantoso arco\u00ad \u00edris desencontrado, era trabalho de macho. Come\u00e7ava ao primeiro an\u00fancio de luz do dia, no meio da \u00fanica rua, e prosseguia at\u00e9 que eles j\u00e1 n\u00e3o pudessem mais ver as pr\u00f3prias m\u00e3os e o som do aboio viesse rend\u00ea-los, interrompendo-se apenas com o sol a pino, quando desapareciam todos por cerca de duas horas, prostrados pela fome e pelo calor. Em uma semana estava pronta a urdidura para transformar o fio bruto nas redes que me haviam embalado a inf\u00e2ncia e cuja do\u00e7ura em nada denunciava o esfor\u00e7o sobre-humano e a dor que custavam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c0s mulheres cabia a estranha dan\u00e7a para mover os enormes teares, prod\u00edgios de marcenaria, encaixes perfeitos, sem uma \u00fanica pe\u00e7a de metal, apenas suportes, traves, cunhas, pentes e li\u00e7os, chavetas e cavilhas de jacarand\u00e1, madeira tanto mais preciosa quanto de mais longe vinha, os p\u00e9s saltando de um para outro dos quatro pedais que levantavam alternadamente os li\u00e7os, os bra\u00e7os a lan\u00e7ar as navetas e a puxar o fio, estendendo faixas de cor, a fazer surgir o xadrez das redes que eu t\u00e3o bem conhecia, feitas ber\u00e7os no alpendre de meu av\u00f4, feitas mercadoria nas estreitas ilhas de verdura no meio das avenidas da metr\u00f3pole, bra\u00e7os t\u00e3o r\u00e1pidos que pareciam ser muito mais de dois,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">transfigurando aquelas sertanejas em deusas indianas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A cad\u00eancia para seu trabalho e para o trabalho dos outros vinha do baque ritmado dos li\u00e7os e dos p\u00e9s, do <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">assobio das lan\u00e7adeiras e do rascar dos pentes, que escapava pelas portas e janelas dos quartos de tear que constitu\u00edam quase toda a casa de cada fam\u00edlia<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A melodia, quando<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">havia, era a da cantilena das velhas e das meninas, assentadas em tocos de troncos tortos, \u00e0 pobre sombra das algarobas, a tran\u00e7ar varandas e punhos para as redes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era das mulheres tamb\u00e9m a tarefa infind\u00e1vel de<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">buscar \u00e1gua pot\u00e1vel na \u00fanica fonte a escorrer, pregui\u00e7osa, em o\u00e1sis com coqueiral, mancha verde \u00e0 meia encosta da colina que se elevava sozinha na paisagem, assim como a obriga\u00e7\u00e3o de controlar o movimento do burro a mover a nora para fazer subirem os alcatruzes de barro do fundo de um po\u00e7o estreito, trazendo a \u00e1gua salobra,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">\u00fanico bem que lhes dava fielmente aquele fundo de mar<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">h\u00e1 mil\u00eanios esvaziado. O canto sob as algarobas era sinal de que j\u00e1 estavam os potes cheios, as cabras amarradas a algum esqueleto de arbusto, o fogo aceso sob os telheiros entre as casas e os currais, mo\u00eddo o milho e consumido o cuscuz da madrugada, o feij\u00e3o a ferver nos caldeir\u00f5es de barro enegrecido, ou sinal de que j\u00e1 se haviam esvaziado os pratos de sua parca mistura de feij\u00e3o com farinha, talvez enriquecida por laivos de sabor da carne de um pre\u00e1 ou de uma rolinha, sa\u00eddos do bisaco de algum vaqueiro. Aquelas tarefas tamb\u00e9m eu tinha de aprender a cumprir.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma mudan\u00e7a brusca nos ru\u00eddos e movimentos<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">deste \u00f4nibus obriga-me a abrir os olhos e divisar, pela janela, uma casa isolada \u00e0 beira da estrada, amplamente<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">iluminada, luz el\u00e9trica em abund\u00e2ncia. Passamos diante<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">dela em marcha lent\u00edssima por causa dos buracos que reaparecem no asfalto, at\u00e9 h\u00e1 pouco liso como novo. Posso<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">ver quase tudo l\u00e1 dentro, mais coisas, muito mais coisas do que gente: sof\u00e1s e poltronas forrados de pl\u00e1stico, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">imitando o mau gosto exibido pela televis\u00e3o a despejar sua luz azulada e sons estridentes em alto volume, chego a ouvir daqui, competindo com o ronco do \u00f4nibus velho, a geladeira encimada por um pano de croch\u00ea e um<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">ajuntamento heter\u00f3clito de bibel\u00f4s e garrafas com r\u00f3tulos novos e brilhantes, a porta forrada de bugigangas imantadas, nas paredes, tr\u00eas ou quatro quadros grandes com paisagens de neve, do Arco do Triunfo, de uma choupana<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">n\u00f3rdica \u00e0 beira de um riacho com roda-d\u2019\u00e1gua, daqueles que se vendem de porta em porta em nome de uma beleza melhor e mais rica, estrangeira, os famigerados racks<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">com aparelho de som, uma porta, cortina de n\u00e1ilon rosa-neon arrepanhada de lado, que revela parte do quarto onde pende acesa uma forte l\u00e2mpada, deixando-me ver um \u00e2ngulo da cama coberta com colcha de babados, almofadas de falso cetim, um bicho de pel\u00facia e duas enormes bonecas louras, metade de um arm\u00e1rio de aglomerado, novo em folha, revestido de f\u00f3rmica branca e espelhos, tudo como se v\u00ea nos panfletos anunciando as eternas pro\u00ad mo\u00e7\u00f5es de mercadorias de pacotilha a infestar qualquer cidade. O sert\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais sert\u00e3o e ainda n\u00e3o virou mar.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">Fecho os olhos e minha mem\u00f3ria recupera e estiliza a beleza despojada daquele meu outro sert\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Desde quando, sem que eu me desse conta, as casas sertanejas encheram-se de trastes e abandonaram aquela est\u00e9tica do essencial, minimalista, diriam hoje, que me encantava na minha casinha e em todas as outras de Olho d\u2019\u00c1gua?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quando eu terminava a ingente faina de preparar a refei\u00e7\u00e3o e de lavar minha panela, meu prato e minha colher com areia e dois canecos d\u2019\u00e1gua salobra, escondia-me no quarto \u2014 na camarinha, ensinaram-me a dizer<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">\u2014 onde \u00e0 noite armava minha rede de dormir, mas \u00e0quela hora quase inteiramente vazia de objetos, e esperava o momento do retorno ao trabalho. Nenhuma janela, a estreita porta fechada por uma cortina improvisada com um fio de arame e uma velha e desbotada rede de punhos mutilados, as paredes alvejadas a argila branca, insuportavelmente claras durante as manh\u00e3s. Excesso de branco, no come\u00e7o do dia, mas banido quando o sol ultrapassava a cumeeira da casa e se enchia o quarto de uma penumbra alaranjada, cor de deserto, trazida pela luz obl\u00edqua filtrada pelas telhas tortas, a cor que me surpreendera no Saara. Esse ch\u00e3o de terra batida tornava-se uma duna do meu pr\u00f3prio deserto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Era a hora do grande calor e eu n\u00e3o podia dormir, como faziam os outros. Ent\u00e3o armava meu banquinho de vaqueiro, um ex\u00edguo tri\u00e2ngulo de couro curtido cujos \u00e2ngulos encaixam-se nas pontas do pequeno trip\u00e9 articulado, belo engenho sertanejo, t\u00e3o simples e harmonioso. Antes de sentar-me, fazia minha m\u00e3o, ressecada e gretada, deslizar pelo couro macio e luzidio e recebia dele uma qualidade que restaurava alguma coisa do frescor da minha antiga pele. Esses gestos j\u00e1 haviam ganhado, para mim, um valor ritual, como os gestos de quem desenrola e estende seu tapete de ora\u00e7\u00e3o antes de curvar-se em dire\u00e7\u00e3o a Meca. Como no meu primeiro entardecer nesse<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">lugar, encostava-me \u00e0 parede caiada, olhava o vazio e esperava perceber o absoluto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O \u00f4nibus arranca de novo, ganha velocidade, a casa iluminada vai j\u00e1 desaparecendo do meu campo de vis\u00e3o quando, de relance, reconhe\u00e7o F\u00e1tima, que chega \u00e0 janela, seu costumeiro vestido de flores desbotadas, o len\u00e7o branco na cabe\u00e7a, a face serena, os bra\u00e7os fortes, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">inteiramente incongruente com este cen\u00e1rio cheio dos badulaques de outro mundo. N\u00e3o pode ser a mesma mulher de quarenta anos atr\u00e1s\u2026 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Estou <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a ver visagens, benignas, por\u00e9m<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">como s\u00f3 em sonhos<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Lembro-me, no meu primeiro encontro com aquele povo, em torno das banheiras fumegantes: assim que respondi mais uma vez \u201cMaria, meu nome \u00e9 Maria\u201d, ouvi \u201cEu sou F\u00e1tima\u201d. Havia uma \u00fanica mulher a remexer uma caldeira de tinta, entre os homens mudos. Socorreu\u00adme, com solid\u00e1ria coragem falou comigo, explicou-me cada coisa que eu via, pegou-me pela m\u00e3o e me levou a ocupar seu posto enquanto ia olhar seu fogo, seu feij\u00e3o, seus meninos, abriu um espa\u00e7o para mim entre aquela gente que n\u00e3o me havia chamado, n\u00e3o precisava de mim<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Um lugar fora de lugar, como o dela, no qual ser\u00edamos duas a receber no rosto o vapor ardente subindo da tina, a tingir o fio como um homem, os bra\u00e7os dela fortes como os deles, os meus, por certo mais jovens, incapazes de mover o peso das meadas no mesmo ritmo, quase in\u00fateis para sustentar longamente o esfor\u00e7o que s\u00f3 a vergonha de desistir me fazia aguentar. Deus do c\u00e9u! J\u00e1 n\u00e3o posso mais, j\u00e1 n\u00e3o respiro, j\u00e1 n\u00e3o enxergo nada, ajuda-me, meu Deus! O calor, o peso, a vergonha, a humilha\u00e7\u00e3o<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Salvaram-me as m\u00e3os de F\u00e1tima, soltaram o bast\u00e3o das minhas m\u00e3os dormentes, enla\u00e7aram-me a cintura e me<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">conduziram para debaixo da algaroba \u00e0 sua porta.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Encontrei of\u00edcio e fam\u00edlia naquele canto escondido<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Podia ficar, preenchida de estranha euforia, e, subitamente livre de uma esp\u00e9cie de cegueira frente ao desconhecido, comecei a ver cada um, cada coisa, cada movimento na sua unidade e seu sentido. Pelas m\u00e3os de F\u00e1tima cheguei ali de verdade.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6><span style=\"font-weight: 400;\">Foto: Mauriti, Cear\u00e1, Brasil, por Gabriel Tomaz, Unsplash.<\/span><\/h6>\n<div id=\"gtx-trans\" style=\"position: absolute; left: -17px; top: 6224px;\">\n<div class=\"gtx-trans-icon\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olho de novo o perfil do homem sentado do outro lado do estreito corredor deste \u00f4nibus no qual, hoje, cruzo mais uma vez um sert\u00e3o, qualquer sert\u00e3o. Vi-o pela janela quando irrompeu e acenou \u00e0 margem da estrada, vindo de nenhum caminho, nenhuma habita\u00e7\u00e3o humana, emergindo do deserto, emaranhado compacto de garranchos e cactos. 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