{"id":1678,"date":"2017-10-17T18:14:22","date_gmt":"2017-10-18T00:14:22","guid":{"rendered":"http:\/\/latinamericanliteraturetoday.wp\/2017\/10\/marilia-wakes-natalia-borges\/"},"modified":"2023-06-07T08:16:16","modified_gmt":"2023-06-07T14:16:16","slug":"marilia-wakes-natalia-borges","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2017\/10\/marilia-wakes-natalia-borges\/","title":{"rendered":"&#8220;Mar\u00edlia se despierta&#8221; de Natalia Borges"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><i>En esta primera entrega en portugu\u00e9s de\u00a0<\/i>LALT<em>, presentamos el texto original adem\u00e1s de una traducci\u00f3n al espa\u00f1ol:<\/em><\/p>\n<style type=\"text\/css\">p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px 'Times New Roman'}<br \/>p.p2 {margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px 'Times New Roman'; min-height: 15.0px}<br \/><\/style>\n<p><b>Mar\u00edlia acorda<\/b><\/p>\n<p>Usa meias compridas at\u00e9 os joelhos, porque mesmo no ver\u00e3o, tem os p\u00e9s frios. Senta na beirada da cama e vai desenrolando as meias: canela, panturrilha, tornozelo e para. Volta a se endireitar. A barriga impede que se dobre sobre si. Respira fundo, estica bem os bra\u00e7os e termina. Dobra as meias e as coloca embaixo do travesseiro. S\u00e3o apenas para dormir. Mar\u00edlia n\u00e3o \u00e9 doce, mas olhando da outra metade da cama, n\u00e3o consigo n\u00e3o am\u00e1-la.<\/p>\n<p>L\u00e1 vai Mar\u00edlia at\u00e9 a cozinha e eu j\u00e1 imagino que em pouco tempo vou ser acordada pelo barulho de metais batendo, gavetas sendo empurradas ou por um assovio de can\u00e7\u00e3o velha que j\u00e1 n\u00e3o sabemos a letra. Eu viro para o lado da janela ainda com as frestas escuras, porque \u00e9 muito, muito cedo, fecho os olhos e sorrio. Os ru\u00eddos come\u00e7am. Ela n\u00e3o faz por mal, s\u00f3 n\u00e3o tem sil\u00eancio nas m\u00e3os. A porta bate e do fundo do nosso espa\u00e7o, come\u00e7o a ouvir a melodia. Sempre a mesma. E me pergunto que m\u00fasica \u00e9 aquela. Acho que \u00e9 a nossa.<\/p>\n<p>Agora sei que em breve terei que fingir um sono profundo, porque ela vai voltar pra cama com caf\u00e9s e p\u00e3es e, se ela achou tempo, uma flor desenhada no guardanapo. Mar\u00edlia gosta de carrinhos de controle remoto, prendedores de roupas, saias com bolsos e plantas. Nunca vai arrancar um flor. Por isso desenha.<\/p>\n<p>A porta abre. Mar\u00edlia senta na cama sem a bandeja. Ela toca a minha perna e eu finjo despertar. As frestas da janela j\u00e1 iluminadas recriam seus contornos. Eu pego a sua m\u00e3o inquieta e antes de abrir os olhos, percebo que n\u00e3o vai bem. Pergunto o que ela tem. Ela me diz que est\u00e1 esquecida. Eu replico que estamos. Ela me olha triste e diz que fez o caf\u00e9 sem o p\u00f3 e queimou os p\u00e3es na torradeira. Eu desalinho a testa num n\u00e3o entendimento e ela repete que fez o caf\u00e9 sem o p\u00f3, que deixou s\u00f3 a \u00e1gua fervendo na moca e que, ao servir apenas \u00e1gua nas x\u00edcaras, ficou um minuto parada sem entender, por isso os p\u00e3es queimaram na torradeira. Ela me diz que est\u00e1 velha e esquecida. Eu digo que somos velhas esquecidas.<\/p>\n<p>Olho para os cabelos dela, agora sobre o meu ventre. Ela deita de lado e pede para que eu lhe cubra os p\u00e9s, apenas os p\u00e9s. Pede tamb\u00e9m que eu abra a janela. Eu estico minhas costas e bra\u00e7os at\u00e9 a cordinha da persiana e a luz nos revela: minhas m\u00e3os manchadas sobre os cabelos brancos dela. H\u00e1 quantos anos, Mar\u00edlia? H\u00e1 quanto tempo esse ritual das manh\u00e3s de domingo? Penso, mas n\u00e3o digo nada. Parece que Mar\u00edlia chora. Se chora, n\u00e3o \u00e9 pra fora. Ela me diz que vai fazer o nosso caf\u00e9. Levanta e vai.<\/p>\n<p>Sem flor dessa vez, percebo. N\u00e3o tenho coragem de perguntar. Tomo o caf\u00e9 em golinhos para n\u00e3o queimar meus l\u00e1bios ressequidos. Como o p\u00e3o em pedacinhos para n\u00e3o engasgar com um farelo mais duro. Mar\u00edlia come tamb\u00e9m, mas olha o tempo todo para baixo. Parece que tem um acanhamento novo entre a gente. Termino. Olho mais uma vez pela janela. O dia est\u00e1 bom. Quero caminhar no p\u00e1tio. Mar\u00edlia levanta, pega o andador e p\u00f5e ao lado da cama. Ela sabe que eu quero levantar sozinha, e levanto. O lance de escadas apesar de pequeno ainda me causa problemas, mas n\u00e3o quero um elevador na casa e n\u00e3o vou tolerar descer uma rampa de cadeira de rodas. Mar\u00edlia abre a porta e sa\u00edmos para a manh\u00e3. O dia est\u00e1 mais fresco do que eu imaginava. Ela pega uma manta de tric\u00f4 que temos desde n\u00e3o sei quando e p\u00f5e sobre as minhas costas. Ela aperta meus ombros com muita for\u00e7a, porque mesmo depois de todos esses anos, n\u00e3o descobriu a medida certa do carinho. Eu gosto. Porque entendo que naquele ato, naquela for\u00e7a, est\u00e1 o nosso carinho. E ficamos ali, atr\u00e1s do muro que esconde o nosso p\u00e1tio da rua e que esconde a nossa vida das pessoas.<\/p>\n<p>Ali, ali naquela casa moram duas velhas. Moram ali faz anos essas duas velhas. Acho que essas velhas t\u00eam alguma coisa, moram juntas faz anos. Ali na casa das velhas estranhas.<\/p>\n<p>Duas velhas estranhas, Mar\u00edlia e eu. Enquanto eu penso, o sol ultrapassa a laranjeira e come\u00e7a a esquentar a minha cabe\u00e7a. Eu levanto. N\u00e3o sei o que aconteceu com as minhas pernas. Elas perderam a for\u00e7a de um dia para o outro. Fui a m\u00e9dicos, m\u00e1gicos, benzedeiras, mas elas n\u00e3o voltaram. Justo eu que gostava tanto de andar, de sair pela vizinhan\u00e7a, de fazer caminhadas no mato, de subir morro, descer cascata, justo eu, quase n\u00e3o consigo atravessar o p\u00e1tio da minha pr\u00f3pria casa. Sento ali na grama mesmo, h\u00e1 cinco passos da cadeira onde eu estava, porque o equil\u00edbrio estava dif\u00edcil j\u00e1. Olho para tr\u00e1s e n\u00e3o vejo Mar\u00edlia. N\u00e3o consigo me levantar. Come\u00e7o a ficar angustiada, mas logo ela aparece por tr\u00e1s da pilastra e grita para mim se est\u00e1 tudo bem, se ca\u00ed, se estou machucada e corre sem jeito para me ajudar, mas eu a tranquilizo antes de chegar. Digo que estou bem e a convido para sentar ali no ch\u00e3o comigo. Ela reclama da umidade da grama, mas senta. Ela diz que \u00e9 capaz de eu pegar uma gripe, mas fica. Ela d\u00e1 um tapa na minha perna, e eu sei que ela quer dizer que me ama. E que sente muito. Eu sorrio e digo que quero entrar, mas n\u00e3o quero. Entro porque sei que ela quer.<\/p>\n<p>Mar\u00edlia gosta de rotinas. Aos domingos ela levanta cedo, faz o caf\u00e9, depois ficamos um pouco na varanda ou, se tem sol, no p\u00e1tio, depois ela gosta de entrar e ler o jornal. Eu costumava caminhar, agora leio o jornal. Depois comemos, depois dormimos um pouco, depois assistimos \u00e0 televis\u00e3o, depois comemos de novo, depois nos olhamos por um longo tempo antes de ir para a cama. Nos olhamos para tentar entender como foi que chegamos ali. Nunca entendemos. Sempre entendemos. Somos muito quietas, sempre fomos do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Agora ela me ajuda a tomar banho. Lava minhas costas com suas m\u00e3os desajeitadas. Parece que ainda tem vergonha dos nossos corpos. Ou \u00e9 mesmo esse acanhamento novo t\u00e3o velho. Passa xampu na minha cabe\u00e7a tr\u00eas vezes e eu sinto que tem algo errado, mas n\u00e3o digo nada. Eu tenho medo. \u00c9 justo que eu tenha medo. Mas n\u00e3o \u00e9 justo que mostre isso pra ela. Mar\u00edlia \u00e9 medrosa, parece dura, mas morre de medo. Eu morro de medo ainda e de novo e todos os dias rezo para que morramos juntas, porque eu n\u00e3o vou suportar ficar sozinha e nem ela. Eu pensei em cuidar disso eu mesma. Pensei em fazer com calma, pensei em deitar com Mar\u00edlia, de meias, e no ch\u00e1 misturar uma dose que nos tranquilize e, com sorte, n\u00e3o acordaremos. Pensei s\u00f3, mas n\u00e3o tenho coragem. Ent\u00e3o eu rezo. Eu rezo para que sejamos juntas t\u00e3o juntas como sempre fomos, agora e na hora da morte.<\/p>\n<p>No domingo seguinte, Mar\u00edlia acorda, e me acorda com cheiros de caf\u00e9, gavetas sendo empurradas e a nossa melodia sem palavras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<style type=\"text\/css\">p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px 'Times New Roman'}<br \/>p.p2 {margin: 0.0px 0.0px 6.0px 0.0px; text-align: justify; font: 12.0px 'Times New Roman'; min-height: 15.0px}<br \/><\/style>\n<p><strong>Mar\u00edlia se despierta<\/strong><\/p>\n<style type=\"text\/css\">p.p1 {margin: 0.0px 0.0px 0.0px 0.0px; font: 12.0px Times}<br \/><\/style>\n<p>Usa medias hasta la rodilla porque, incluso en verano, tiene los pies fr\u00edos. Se sienta en el borde de la cama y se saca las medias: baja por la pierna, pantorrilla, tobillo y se detiene. Vuelve a enderezarse. La panza no la deja doblarse sobre s\u00ed. Respira hondo, estira bien los brazos y termina. Dobla las medias y las guarda debajo de la almohada. Son para dormir. Mar\u00edlia no es dulce, pero mir\u00e1ndola desde el otro lado de la cama, no puedo no amarla.<\/p>\n<p>Mar\u00edlia va a la cocina y ya s\u00e9 que dentro de poco va a despertarme el ruido de los metales que golpea, de los cajones que abre o un silbido de una canci\u00f3n vieja cuya letra no recordamos. Giro hacia el lado de la ventana, las rendijas todav\u00eda oscuras, porque es muy, muy temprano, cierro los ojos y sonr\u00edo. Empiezan los ruidos. No lo hace a prop\u00f3sito, es solo que no tiene silencio en las manos. La puerta se cierra y del fondo de nuestro espacio, comienzo a o\u00edr una melod\u00eda. Siempre la misma. Y me pregunto qu\u00e9 canci\u00f3n es. Creo que la nuestra.<\/p>\n<p>Ahora s\u00e9 que en breve tendr\u00e9 que fingir un sue\u00f1o profundo, porque volver\u00e1 a la cama con caf\u00e9s y panes y, si tuvo tiempo, tambi\u00e9n una flor dibujada en la servilleta. A Mar\u00edlia le gustan los autitos a control remoto, los broches para la ropa, las polleras con bolsillos y las plantas. Nunca arrancar\u00eda una flor. Por eso la dibuja.<\/p>\n<p>Se abre la puerta. Mar\u00edlia se sienta en la cama sin la bandeja. Me toca la pierna y yo hago que me despierto. La luz ya entra por las rendijas de la ventana y le dibuja los bordes. Le tomo la mano inquieta y, antes de abrir los ojos, me doy cuenta de que no est\u00e1 bien. Le pregunto qu\u00e9 pasa. Me dice que se est\u00e1 olvidando de las cosas. Le contesto que las dos estamos olvidando. Me mira triste y dice que prepar\u00f3 el caf\u00e9 sin el caf\u00e9 y que se le quem\u00f3 el pan. Frunzo el ce\u00f1o en desentendimiento y ella me repite que prepar\u00f3 el caf\u00e9 sin el caf\u00e9, que puso solo agua en la cafetera y que al servir el agua en las tazas se qued\u00f3 un minuto parada sin entender, y que por eso los panes se le quemaron. Me dice que est\u00e1 vieja y desmemoriada. Le digo que somos viejas desmemoriadas.<\/p>\n<p>Le miro el pelo, ahora sobre mi regazo. Se acuesta de costado y me pide que le cubra los pies, solo los pies. Me pide tambi\u00e9n que abra la ventana. Extiendo los brazos y la columna hasta alcanzar la tira de la persiana y la luz nos revela: mis manos manchadas sobre su pelo blanco. \u00bfCu\u00e1ntos a\u00f1os ya, Mar\u00edlia? \u00bfHace ya cu\u00e1nto tiempo de este ritual de las ma\u00f1anas de domingo? Lo pienso pero no digo nada. Me parece que est\u00e1 llorando. Pero si llora, no es hacia afuera. Me dice que va a preparar nuestro desayuno. Se levanta y se va.<\/p>\n<p>Esta vez es sin flor. No tengo coraje de preguntarle. Tomo el caf\u00e9 a sorbitos para no quemarme los labios secos. Como el pan en pedacitos para no atragantarme con las migas m\u00e1s duras. Mar\u00edlia tambi\u00e9n come, pero mira siempre hacia abajo. Como si hubiera una timidez nueva entre nosotras. Termino. Miro nuevamente por la ventana. El d\u00eda est\u00e1 lindo. Quiero caminar por el patio. Mar\u00edlia se levanta, toma el andador y lo deja al lado de la cama. Sabe que quiero levantarme sola, y lo hago. Aunque sea corta, la escalera a\u00fan es un problema, pero no quiero un ascensor en casa y no voy a tolerar eso de bajar por una rampa de silla de ruedas. Mar\u00edlia abre la puerta y salimos a la ma\u00f1ana. El d\u00eda est\u00e1 m\u00e1s fresco de lo que imaginaba. Ella toma una manta tejida que tenemos desde no s\u00e9 cu\u00e1ndo y me cubre la espalda. Me aprieta los hombros con fuerza, porque a\u00fan despu\u00e9s de todos estos a\u00f1os, no descubri\u00f3 la medida exacta del cari\u00f1o. A m\u00ed me gusta. Porque entiendo que en ese acto, en esa fuerza, est\u00e1 nuestro cari\u00f1o. Y nos quedamos all\u00ed, detr\u00e1s del muro que esconde nuestro patio de la calle y que esconde nuestra vida de las personas.<\/p>\n<p>Ah\u00ed, en esa casa, viven dos viejas. Hace a\u00f1os que viven ah\u00ed. Para m\u00ed que tienen algo esas dos, viven juntas hace a\u00f1os. Ah\u00ed, esa casa de las viejas raras.<\/p>\n<p>Dos viejas raras, Mar\u00edlia y yo. Mientras pienso, el sol sobrepasa el naranjo y empieza a darme en la cabeza. Me levanto. No s\u00e9 qu\u00e9 les pas\u00f3 a mis piernas. Se quedaron sin fuerza de un d\u00eda para el otro. Fui a m\u00e9dicos, magos, curanderas, pero no volvieron. Justo a m\u00ed que me gustaba tanto caminar, salir por el barrio, andar por la naturaleza, subir la ladera, bajar por la cascada, justo a m\u00ed, apenas puedo cruzar el patio de mi propia casa. Me siento en el pasto a cinco pasos de la silla en la que estaba, porque se me hace dif\u00edcil mantener el equilibrio. Miro hacia atr\u00e1s y no encuentro a Mar\u00edlia. No puedo levantarme. Empiezo a angustiarme, pero enseguida aparece ella por detr\u00e1s de la columna y me grita preguntando si est\u00e1 todo bien, si me ca\u00ed, si me lastim\u00e9, corre torpemente hacia m\u00ed para ayudarme, pero la tranquilizo antes de que llegue. Le digo que estoy bien y la invito a que se siente conmigo. Ella se queja de la humedad del pasto, pero se sienta. Dice que me puedo agarrar una gripe, pero se queda. Me da una palmadita en la pierna y yo s\u00e9 que ella quiere decir que me ama. Y que lo siente. Sonr\u00edo y le digo que quiero entrar, aunque no quiero. Entro porque s\u00e9 que ella quiere.<\/p>\n<p>A Mar\u00edlia le gustan las rutinas. Los domingos se levanta temprano, hace el desayuno, despu\u00e9s nos quedamos un poco en el balc\u00f3n o, si hay sol, en el patio. Despu\u00e9s a ella le gusta entrar y leer el diario. Yo sol\u00eda caminar, ahora leo el diario. Despu\u00e9s comemos, despu\u00e9s dormimos un poco, despu\u00e9s miramos televisi\u00f3n, despu\u00e9s comemos de nuevo, despu\u00e9s nos miramos largo rato antes de ir a la cama. Nos miramos para tratar de entender c\u00f3mo fue que llegamos hasta ac\u00e1. Nunca entendemos. Siempre entendemos. Somos muy tranquilas, siempre fuimos silenciosas.<\/p>\n<p>Ahora ella me ayuda a ba\u00f1arme. Me lava la espalda con sus manos imprecisas. Parece como si todav\u00eda le dieran verg\u00fcenza nuestros cuerpos. O es aquella timidez nueva tan vieja. Me pasa el champ\u00fa tres veces y siento que hay algo que est\u00e1 mal, pero no digo nada. Tengo miedo. Es justo que tenga miedo. Pero no es justo que se lo muestre. Mar\u00edlia es miedosa, parece dura, pero se muere de miedo. Yo me muero de miedo una vez m\u00e1s y nuevamente y rezo todos los d\u00edas para que nos muramos juntas, porque no soportar\u00eda quedarme sola, y ella tampoco. Pens\u00e9 en hacerme cargo de eso yo misma. Pens\u00e9 en hacerlo con calma, pens\u00e9 en acostarme con Mar\u00edlia, con las medias puestas, y mezclar en el t\u00e9 una dosis que nos tranquilice y as\u00ed, con suerte, no nos despertar\u00edamos. Lo pens\u00e9 nada m\u00e1s, porque no tengo coraje. Entonces rezo para que estemos juntas tan juntas como siempre lo estuvimos, ahora y en la hora de nuestra muerte.<\/p>\n<p>El domingo siguiente, Mar\u00edlia se despierta y me despierta con olores a caf\u00e9, cajones que abre y nuestra melod\u00eda sin palabras.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Traducci\u00f3n de Julia Tomasini<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Usa medias hasta la rodilla porque, incluso en verano, tiene los pies fr\u00edos. Se sienta en el borde de la cama y se saca las medias: baja por la pierna, pantorrilla, tobillo y se detiene. Vuelve a enderezarse. La panza no la deja doblarse sobre s\u00ed. Respira hondo, estira bien los brazos y termina. Dobla las medias y las guarda debajo de la almohada. Son para dormir. Mar\u00edlia no es dulce, pero mir\u00e1ndola desde el otro lado de la cama, no puedo no amarla.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1675,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[2995,4461,3735],"genre":[2012],"pretext":[],"section":[2364],"translator":[],"lal_author":[3478],"class_list":["post-1678","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-uncategorized","tag-brazil-es","tag-numero-4","tag-portuguese-es","genre-fiction-es","section-bogota39-es-2","lal_author-natalia-borges-es"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1678","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1678"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1678\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1675"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1678"},{"taxonomy":"genre","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/genre?post=1678"},{"taxonomy":"pretext","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/pretext?post=1678"},{"taxonomy":"section","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/section?post=1678"},{"taxonomy":"translator","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/translator?post=1678"},{"taxonomy":"lal_author","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/lal_author?post=1678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}