{"id":10763,"date":"2022-02-11T17:25:05","date_gmt":"2022-02-11T23:25:05","guid":{"rendered":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/2022\/05\/telas-e-textos-cinco-poetas-de-minas-gerais-de-ana-elisa-ribeiro\/"},"modified":"2024-12-30T16:10:28","modified_gmt":"2024-12-30T22:10:28","slug":"telas-e-textos-cinco-poetas-de-minas-gerais-de-ana-elisa-ribeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinamericanliteraturetoday.org\/es\/2022\/02\/telas-e-textos-cinco-poetas-de-minas-gerais-de-ana-elisa-ribeiro\/","title":{"rendered":"&#8220;Telas e textos: cinco poetas de Minas Gerais&#8221; de Ana Elisa Ribeiro"},"content":{"rendered":"<p>Nota do editor: Este ensaio est\u00e1 dispon\u00edvel exclusivamente em portugu\u00eas e ingl\u00eas. Clique em &#8220;English&#8221; para ler em ingl\u00eas.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Convite e provoca\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>No come\u00e7o de abril de 2021, momento em que o Brasil se tornou o epicentro da pandemia no mundo, as artes tentavam sobreviver n\u00e3o apenas ao v\u00edrus que assolava o planeta e \u00e0s dificuldades econ\u00f4micas e sociais decorrentes do problema, mas tamb\u00e9m aos ataques de um governo central negacionista e avesso \u00e0 ci\u00eancia, em especial inimigo das humanidades e das artes. Com muito esfor\u00e7o e sem m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, artistas dos campos da m\u00fasica, da dan\u00e7a, do teatro e da literatura inventavam modos de atuar, de encontrar suas plateias e oferecer poesia, can\u00e7\u00e3o, pe\u00e7as e o que mais fosse poss\u00edvel, com as media\u00e7\u00f5es vi\u00e1veis para a circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lives e mais lives foram anunciadas; espet\u00e1culos de dan\u00e7a e de teatro em mosaicos de telas, em novas experi\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o e imers\u00e3o; shows de m\u00fasica, da apresenta\u00e7\u00e3o solo \u00e0 orquestra, ocupavam telas de poucas polegadas; poetas e prosadores falavam e liam em encontros pelas redes sociais.<\/p>\n<p>Foi nesse contexto de media\u00e7\u00f5es improvisadas e sa\u00eddas criativas \u2013 e compuls\u00f3rias \u2013 que recebi o convite do Galp\u00e3o Cine Horto, na pessoa do diretor, ator e gestor cultural Chico Pel\u00facio, para fazer a curadoria de poetas e poemas para uma s\u00e9rie de v\u00eddeos do canal do Galp\u00e3o no YouTube. O Galp\u00e3o \u00e9 um dos maiores e mais respeitados grupos de teatro do Brasil, e o Galp\u00e3o Cine Horto \u00e9 um espa\u00e7o cultural consolidado e importante na cidade de Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, na regi\u00e3o Sudeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A nova s\u00e9rie de v\u00eddeos \u00e9 intitulada Verso e Voz e apresenta poetas de Minas Gerais na voz de atrizes e atores do Galp\u00e3o, em v\u00eddeos de cerca de cinco minutos, a depender da extens\u00e3o dos textos. Minha tarefa seria, ent\u00e3o, numa segunda temporada do Verso e Voz, selecionar cinco poetas mineiras, todas mulheres, que cederiam cinco poemas a serem falados por membros do grupo teatral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Curadoria e coragem<\/b><\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica mineira \u00e9 densa, consistente, regular e intensa. \u00c9 imposs\u00edvel tratar da hist\u00f3ria liter\u00e1ria brasileira sem passar por escolas e autores mineiros de relevo, pelo menos desde o s\u00e9culo XVIII. A quantidade de autoras foi, com o tempo, aumentando, em decorr\u00eancia de um processo hist\u00f3rico relacionado \u00e0 luta feminina e feminista. Contemporaneamente, um incont\u00e1vel n\u00famero de poetas mulheres escreve e publica em todo o pa\u00eds, sendo de Minas Gerais alguns dos nomes mais representativos da poesia atual, como \u00e9 o caso de Ana Martins Marques, uma das poetas contempladas pelas leituras do Verso e Voz, na primeira temporada do canal do Galp\u00e3o Cine Horto.<\/p>\n<p>Minha tarefa de curadora era, ent\u00e3o, pesquisar as mulheres atuantes na poesia mineira, selecionando cinco delas e seus poemas, que seriam cedidos ao grupo de teatro para a produ\u00e7\u00e3o de mais uma temporada da s\u00e9rie de v\u00eddeos. Entre o recitar e o dizer, as leituras po\u00e9ticas ocorrem conforme a interpreta\u00e7\u00e3o de cada ator ou atriz envolvido no projeto, o que fugia \u00e0 minha al\u00e7ada de curadora. Minha sele\u00e7\u00e3o contemplava a etapa anterior, isto \u00e9, a dif\u00edcil tarefa de escolher, entre tantas poetas em atividade no estado de Minas Gerais, apenas cinco que pudessem, de alguma forma, representar uma poesia mineira pulsante e diversa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Cinco incontorn\u00e1veis de muitas, incont\u00e1veis<\/b><\/p>\n<p>Em que consiste a curadoria liter\u00e1ria? Os par\u00e2metros dados interferem nas escolhas, claro, mas em que medida \u00e9 poss\u00edvel propor, subverter ou acomodar propostas e novas vis\u00f5es da cena?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 exatamente dif\u00edcil escolher nomes conhecidos para um projeto liter\u00e1rio. Os nomes em evid\u00eancia est\u00e3o postos, oferecem pouca resist\u00eancia, est\u00e3o acomodados ao esperado e ao previs\u00edvel. Desse ponto de vista, uma curadoria n\u00e3o demanda tanto trabalho. Eventos como feiras, festivais, mesas-redondas e outros ocorrem in\u00fameras vezes ao ano, em v\u00e1rias partes do pa\u00eds, sem trazer exatamente novidades nos elencos. Se a proposta for pin\u00e7ar entre as autoras as mais conhecidas, as que publicam por grandes editoras, cujo poder de marketing n\u00e3o encontra concorrentes, a tarefa exige relativamente pouco.<\/p>\n<p>No entanto, pareceu-me que a tarefa fosse outra. A quest\u00e3o colocada foi algo como dar voz e espa\u00e7o a autoras que produzem boa poesia, diversa na dic\u00e7\u00e3o e no manejo da linguagem, mas que nem sempre est\u00e3o em evid\u00eancia. Dessas h\u00e1 muitas, incont\u00e1veis, e a\u00ed o trabalho de curadoria se transforma em uma verdadeira investiga\u00e7\u00e3o, que demanda tempos de pesquisa, leitura e sele\u00e7\u00e3o, de fato. Al\u00e9m desse aspecto t\u00e9cnico, relacionado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica em si de cada autora, era ainda interessante, embora n\u00e3o fosse obrigat\u00f3rio, pensar uma distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica menos concentrada na capital do estado, assim como revisar livros eventualmente publicados por editoras pequenas, de distribui\u00e7\u00e3o limitada, e mesmo em revistas eletr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>As vozes po\u00e9ticas dessas mulheres deveriam soar em un\u00edssono? Que dic\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas seriam essas? Quanto mais diversas melhor? E que rela\u00e7\u00e3o isso tem com a geografia, a faixa et\u00e1ria, a orienta\u00e7\u00e3o sexual ou a cor dessas escritoras? Sob essa reflex\u00e3o, deslizar\u00edamos facilmente para o debate sobre \u201ccrit\u00e9rios extraliter\u00e1rios\u201d, argumento dos que tendem a manter o estabelecido. Em todo caso, mesmo considerando todas essas importantes vari\u00e1veis, algum primeiro par\u00e2metro deveria adiantar-se na cena, e foi, de fato, a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica dessas escritoras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Cinco poetas e suas vozes<\/b><\/p>\n<p>Depois da pesquisa em sites especializados, revistas liter\u00e1rias ativas, p\u00e1ginas de editoras independentes e livros impressos, cheguei a cinco mulheres cujas produ\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas se destacam numa cena liter\u00e1ria abaixo da superf\u00edcie, isto \u00e9, um horizonte que exige certo mergulho na fervilhante vaga da poesia contempor\u00e2nea que quase n\u00e3o consegue chegar ao <i>mainstream<\/i>. Com isso quero dizer que todas elas publicam livros por editoras de pequeno porte, s\u00e3o relativamente ativas nas redes sociais, participam de festivais e antologias no Brasil e no exterior, em muitos casos, com tradu\u00e7\u00f5es. N\u00e3o raro, est\u00e3o envolvidas em mais que sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o, fazendo parte de coletivos e projetos em que atuam tamb\u00e9m como editoras, curadoras ou organizadoras. As poetas sugeridas ao Galp\u00e3o Cine Horto e cujos v\u00eddeos logo estar\u00e3o no ar s\u00e3o as mineiras (em ordem de nascimento): L\u00edria Porto, Ana Caetano, Adriane Garcia, N\u00edvea Sabino e Ana C Moura.<\/p>\n<p>O que aproxima essas escritoras, al\u00e9m de terem nascido nas Minas Gerais e de serem poetas, \u00e9 sua voz po\u00e9tica contempor\u00e2nea, viva, que participa da mesma pe\u00e7a, embora nem sempre nas mesmas microcenas. Para al\u00e9m de seus versos, suas pr\u00e1ticas e suas atitudes as aproximam e distanciam, conforme as observamos em a\u00e7\u00e3o. Adriane Garcia e N\u00edvea Sabino, por exemplo, embora sejam de gera\u00e7\u00f5es diferentes e produzam poesias de diferentes DNAs, t\u00eam de semelhante o uso da palavra dita, falada, engajada e engajadora, corajosa e n\u00e3o raro em tom de manifesto, esta mais do que aquela. L\u00edria Porto, a mais velha das elencadas, se concentra no escrito, nos livros que re\u00fanem poemas n\u00e3o raro em tom ir\u00f4nico, de forte matiz feminista, a meu ver n\u00e3o panflet\u00e1rio. Neste aspecto, est\u00e1 alinhada a N\u00edvea e Adriane. Ana Caetano, cientista de forma\u00e7\u00e3o, militante da literatura h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, faz lembrar a poesia de mime\u00f3grafo de d\u00e9cadas passadas, sem perder um vi\u00e7o de quem faz poesia agora. E o agora mais radical ficou com a jovem Ana C Moura, ainda nem publicada em livro, mas ativa participante de coletivos po\u00e9ticos a oeste do estado de Minas Gerais, tecendo conex\u00f5es com todo o pa\u00eds por meio do portal Fazia Poesia, onde se publica.<\/p>\n<p>Essas cinco mulheres, autoras de uma poesia persistente e forte, diversas em suas origens, orienta\u00e7\u00f5es sexuais, cores, idades e ativismos, formam um conjunto de criadoras liter\u00e1rias que considerei a ponta de um iceberg que infelizmente nem sempre pode ser avistado por leitores e leitoras menos afeitos \u00e0 pesquisa e ao mergulho abaixo da linha do \u00f3bvio ou do evidente. Digo isso sem dem\u00e9rito algum para autores e autoras que se mant\u00eam numa faixa de alta visibilidade, mas esses e essas s\u00e3o poucos, e d\u00e3o apenas vaga ideia do que se produz noutras \u00f3rbitas da literatura brasileira hoje. Al\u00e9m do que, sabemos, a generosidade n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o frequente nesse campo, como de resto n\u00e3o \u00e9 mesmo entre os humanos, em condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e press\u00e3o.<\/p>\n<h6><\/h6>\n<h6>Foto: Pra\u00e7a Raul Soares, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.\u00a0<a href=\"https:\/\/unsplash.com\/@luizfelipebh\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luiz Felipe S.C., Unsplash<\/a>.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o de abril de 2021, momento em que o Brasil se tornou o epicentro da pandemia no mundo, as artes tentavam sobreviver n\u00e3o apenas ao v\u00edrus que assolava o planeta e \u00e0s dificuldades econ\u00f4micas e sociais decorrentes do problema, mas tamb\u00e9m aos ataques de um governo central negacionista e avesso \u00e0 ci\u00eancia, em especial inimigo das humanidades e das artes. 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